Boa parcela da sociedade – e, claro, também da imprensa – considera a gestão federal atual não apenas presidida por um militar, mas estruturada como governo militar. Isso menos pelo fato de o mandatário ser um capitão da reserva do Exército do que pelas milhares de vagas que os fardados passaram a ocupar na Esplanada dos Ministérios.

Grande parte dos cargos ocupados são de natureza civil e, conforme reportagem do jornal O Estado de S. Paulo repercutida por outros veículos na semana passada, o Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que pelo menos 2,3 mil postos estariam irregulares. São quase 65% do total, exatamente por causa da ausência da devida autorização para o exercício do cargo civil por parte de membros das Forças Armadas.

Não deveria ser necessário repisar tal obviedade, mas as Forças Armadas, bem como as polícias, detêm o monopólio da força para atuarem como instituições de Estado e não de governo. É um princípio básico não da Constituição, mas da própria democracia. Ainda que a maioria de seus componentes certamente vá depositar o voto novamente em Jair Bolsonaro (PL) no dia 2 de outubro, essa distinção das forças militares precisa estar clara para a população.

Para tanto, seria necessário que, a quem o observasse, o comportamento das Forças Armadas não parecesse se destacar nem contra nem em favor do governo. Porém, por mais que nas palavras essa condição seja expressa, as atitudes demonstram um completo alinhamento ao discurso e mesmo à “práxis” do Planalto.

Jair Bolsonaro (PL) faz um uso corriqueiro das Forças Armadas para fins eleitorais. Isso fica claro na forma como as envolveu, a partir do convite do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na polêmica que causou – e a qual faz questão de sempre alimentar – sobre o sistema eleitoral e a segurança das urnas eletrônicas.

Em nenhum momento, Exército, Marinha e Aeronáutica se mostraram publicamente desconfortáveis com discursos ou ações tomadas pelo presidente ou pelo governo federal nesse aspecto ou em qualquer outro assunto. Pelo contrário, sempre os acompanharam – às vezes literalmente, como há semanas atrás, quando o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, foi ao Congresso para, em tese, “prestar contas” de suas ações. De fato, o que houve foi uma espécie de “apropriação indébita” dos comandantes para uma atividade política de interesse do governo, apenas.

Nada mais natural que tal situação cause incômodo a quem honra a farda que veste. Em off, é claro, parte dos militares, mesmo da ativa, desabafam sobre a situação a que a instituição é submetida. Foi assim, em off, que o jornalista Valdo Cruz, da GloboNews, conseguiu, com fontes do Alto Comando do Exército, a seguinte manchete para seu blog: “Insatisfeitos com o ministro da Defesa, militares da ativa dizem ao STF que não endossam ataques às urnas”.

O Exército reagiu à informação do blogueiro. E de forma incisiva, com nota oficial e “carimbo” de “fake news” sobre um print do título da postagem, como se a notícia fosse merecedora de repúdio por avalizar um escândalo. Pelo contrário: a nota de Valdo Cruz servia como um desagravo para a opinião pública – especialmente os que acompanham a GloboNews –, depois das muitas “pisadas na bola” dos homens de verde-oliva durante este governo.

A forma rápida e áspera de rechaçar a apuração do jornalista, de qualquer forma, deixa um gosto amargo na sociedade civil: mostra que 1) ou o conteúdo era verdadeiro, mas o Alto Comando do Exército foi devidamente enquadrado pelo Ministério da Defesa; ou, pior, 2) o conteúdo era falso e o Alto Comando corrobora com o discurso do governo de ataque sistemático ao TSE e às urnas eletrônicas.

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