Antes mesmo de iniciar seu mandato, Jair Bolsonaro (PL) já deixava claro como seria sua relação com a chamada mídia hegemônica, ou “grande imprensa”: bastava ver as declarações que fez quando de sua vitória contra, por exemplo, a Folha de S.Paulo. Durante todo o transcorrer do mandato, os veículos de comunicação que não se adequaram à pauta governista foram achincalhados de uma forma como nunca havia ocorrido na democracia brasileira – aliás, nem mesmo em tempos de fato autoritários.

A Folha de S.Paulo virou “Foice” – uma paráfrase mais simbólica do que fonética, para aludir a um suposto comunismo do jornal. A Rede Globo voltou a “Globolixo”, com bolsonaristas reciclando o termo que em outros tempos foi usado por petistas e outros militantes de esquerda. Por outro lado, o bolsonarismo consolidou uma rede de “TVs amigas”, por assim dizer: a Record, o SBT, a Rede TV! e, principalmente, a caçula Jovem Pan News.

Somente o caso Jovem Pan daria um capítulo à parte, que já foi dissecado em um episódio do programa Greg News, da HBO. Resumindo, foi uma concessão obtida sob alta suspeita. Na programação, já houve de tudo: de defesa de remédio ineficaz contra a Covid-19 a teorias de conspiração sobre o sistema eleitoral. Não há pudor de comentaristas políticos em defender o presidente e o governo federal como militantes.

Por outro lado, a Rede Globo puxa a imprensa que contesta Jair Bolsonaro desde o início de seu mandato. Denunciar o governo da vez tem sido – é bom que se diga – uma constante do grupo Globo pelo menos desde o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Jornal mais importante do País, a Folha de S.Paulo segue um padrão similar.

A pandemia, no entanto, jogou toda a imprensa não alinhada contra o governo. Na verdade, o justo seria dizer que o governo jogou toda essa imprensa contra si, ao desacreditar dos dados divulgados, da gravidade da pandemia, da necessidade de tomar duras medidas para conter a expansão da contaminação e, mais tarde, ao fazer pouco caso da vacina.

Em maio de 2020, quando o general Eduardo Pazuello assumiu o Ministério da Saúde – depois de os dois titulares (e médicos) da pasta se recusarem a seguir a receita (literalmente falando) de Bolsonaro para a pandemia – e o Brasil começava a escalar a montanha de mortos pela doença, o fechamento dos dados diários de casos e mortes por parte fez alguns dos principais órgãos de imprensa do País se unirem e consolidarem o consórcio que segue informando a população sobre os números até hoje.

A arregimentação de apoiadores para manifestações que ameaçavam as instituições, como ocorreram desde o primeiro ano de governo e tiveram seu ápice no 7 de Setembro do ano passado também mostrou à imprensa outro lado tenebroso: o desprezo à democracia, com uma visão totalmente particular da Constituição Federal.

É nesse quadro que a cobertura das eleições acaba se dando de uma forma pouco convencional: jornalistas passaram boa parte da pré-campanha e da própria campanha analisando se haveria risco de uma ruptura institucional, tal foi o grau de desconfiança jogado por Jair Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral como um todo. A despreocupação do presidente em dizer que, se reeleito, vai colocar o Supremo Tribunal Federal (STF) dentro das “quatro linhas da Constituição” também é outro ponto grave e que tem sido normalizado, tal é a quadra distópica que a democracia vive no Brasil.

Jornalismo só se faz plenamente com liberdade de imprensa. Liberdade de imprensa não existe quando o mandatário-mor trata veículos e seus trabalhadores com desprezo, arrogância e até violência. Dessa forma, não há outra alternativa para a própria imprensa que não denunciar os ataques à democracia e às instituições. É uma militância necessária. A não ser que queira virar assessoria.