Bento Fleury
Bento Fleury

‘Diabos novos’ nos sertões do ‘Diabo Velho’

Se a homossexualidade é um tabu ainda nos dias de hoje, o que dizer da condição do homossexual há mais de duzentos anos, em pleno sertão do Brasil?

Homossexualidade na história
Cena da minissérie Grande Sertão: Veredas, de 1985 | Foto: Reprodução/Globo

Homossexualidade é um tabu que resvala em concepções de vida, marginalizações, exclusões, crenças e uma série de outras implicações que, ao longo dos séculos, segregaram as pessoas vistas como ‘diferentes’ em relação aos padrões aceitos, tidos por ‘normais’. Se em pleno século XXI, com todas as aberturas às diferentes possibilidades de aceitação, movimentos específicos, políticas públicas contra a homofobia, além de outros, ainda há preconceitos, discriminações e restrições; o que dizer da condição do homossexual há mais de duzentos anos, em pleno sertão do Brasil, “longe de todos os lugares (…) e povoado de rudes homens feros, duros restos de Bandeiras” como ressaltou Cora Coralina?

Na ocupação do território goiano, não havia espaço para ‘machos’ que não fossem forjados sob o signo do patriarcado dominante, razão pela qual os ‘pederastas’ “invertidos” e mesmo os ‘sensíveis’ ou ‘diferentes’ tinham a sua ‘decência’ condenada pela Igreja e pelo Estado, pois, no final do século XVIII ainda que permanecesse a ideia do pecado e do “castigo eterno”, a tecnologia do sexo colocou em cena o “problema da vida e da doença”, ao transferir restrições que antes estavam ao nível da “carne” para o plano do “organismo”. 

Assim, a homossexualidade, mais do que outros ‘problemas sexuais’, englobava estes domínios expostos por Foucault, na maioria das vezes expurgava os que tinham tal situação do convívio dos ‘normais’, em razão da ‘imoralidade’ e ‘doença’ anexadas às suas ações. A homossexualidade (ainda que este termo ainda não fosse cunhado), ou ‘inversão’, assim como a masturbação eram vistas como enfermidades ou vícios.

Nos anos oitocentos, em Goiás, os ideais de uma família estruturada eram levados ao extremo. Havia papeis bem definidos para os sexos diferentes. A mulher deveria ser submissa, criar filhos e cuidar de todos e o homem era o provedor financeiro do lar e aquele com poderes ilimitados. 

Quem ousasse fugir desta regra (como ‘homem’ – macho e dominador -ou ‘mulher’ – recatada e submissa) tornava-se uma aberração da natureza, ou mesmo igualado(a) a criminoso(a).

Essa visão patriarcal e burguesa de família aliava-se às concepções de ordem e progresso positivistas, ao se imporem como uma “lei natural”. Ser homossexual, por outro lado, era a negação desta lei, algo antinatural e contrário à evolução; por essa razão ser visto como doente e um mal social, que necessitava de ‘cura’ ou ‘recuperação’ mediante internação ou prisão,  pois seu exemplo era um risco para a ‘unidade’ e a ‘perpetuação’  familiar (discurso que permanecesse em várias vertentes ou facções religiosas até hoje).

O jogo entre passado e presente, no que concerne à melhoria do ser humano é muito questionável. Resvala para a questão da hipocrisia social. O progresso material nem sempre configurou uma melhoria do homem enquanto ser, enquanto humanidade. 

Na discussão sobre a homossexualidade há de se pensar na condição humana e na busca incessante de cada ser pela felicidade e realização pessoal. É parte integrante do ser humano as perquirições e os desejos que são íntimos, mutáveis, inexplicáveis. 

Assim, ao se visitar a historicidade da homossexualidade em Goiás (ou em qualquer outro lugar) não se pode relegar, por um lado, os sujeitos que buscam a sua necessária felicidade como seres-no-mundo e cidadãos que são e, de outro, estes sim orientados a coibir tal busca numa cultura machista, conservadora e que ainda se silencia diante dos crimes motivados por homofobia e/ou nega e reprime a tentativa de minorias (gays, transgêneros, travestis, lésbicas e outros) garantirem os mesmos direitos da maioria (heterossexual).

Há na literatura goiana alguns exemplos de textos que enfocam a homossexualidade, embora seja um tabu. Um único romance goiano é verdadeiramente exemplar. Trata-se de O quarto, de Francisco de Assis Nascimento, publicado em 2006, no qual aborda o universo perverso dos michês e homossexuais no centro de Goiânia e os vários crimes cometidos.

Em grande maioria, os textos e crônicas que tratam do assunto relatam com ironia ou sarcasmo, a situação homossexual, ou mesmo, quando se discute na prática, há sempre um tom velado, como foi o lamentável e triste assassinato do médico e escritor Carlos Fernando Filgueiras de Magalhães, nome indiscutível na cultura de Goiás.

Geograficamente este é um mundo invisível, um universo subterrâneo da capital goiana, que a maioria da população finge não existir, só aparecendo quando um crime hediondo e motivado por homofobia é cometido, ou quando uma situação vexatória é exposta, como o caso do referido escritor no centro da capital.

Historicamente, nunca foi fácil

A partir de 1571 teve início os “Visitadores do Santo Ofício” no Brasil que processaram, sequestraram bens, açoitaram e remeteram aos cárceres secretos de Lisboa, centenas e centenas de lusitanos e brasileiros. Foi uma verdadeira devassa nas atitudes e ações dos cidadãos daquele tempo, em nome da Igreja Católica.

Essas visitas ocorriam quando um processo agendado por extensa rede de funcionários bem escolhidos era organizada, com espiões por toda parte, inclusive no alto sertão das terras goianas nos anos dos setecentos, naqueles velhos tempos em que aqui era a “segunda curva depois do fim do mundo”.

Julgavam-se diversos atos contrários à moral e aos bons costumes como heresia, judaísmo, blasfêmia, feitiçaria, sacrilégio, pacto com o demônio, bigamia, sodomia (homossexualidade e cópula anal) e solicitação (convite ou ato desonesto dos sacerdotes no confessionário); bem como estupro, rapto, adultério e homicídio. 

Por ironia, o lema da inquisição era Justitia et misericordia, ao latim do tempo. Também por ironia cruel, nenhum dos estudiosos, historiadores, viajantes, pesquisadores de Goiás daquele tempo investigaram sobre a atuação da Inquisição em terras de Goiás. Sobre tal fato se fez completo silêncio! Apenas Luiz Mott escreveu artigo sobre o assunto na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Nos arquivos da Torre do Tombo em Portugal houve diversos processos do Santo Ofício contra cidadãos das terras de Goiás, denunciados por diversos crimes, como quatro processos por crime de Judaísmo, um processo por crime de sacrilégio, cinco denúncias de Padres solicitantes, uma denúncia de blasfêmia e uma denúncia de proposição herética. O início da inquisição em Goiás ocorre em 1739 nos documentos da Santa Inquisição de Lisboa.

O primeiro caso foi de Fernando Gomes Nunes, de 44 anos, morador do Arraial da Chapada, condenado por ritos judaicos. Já em 1761, foi preso em Vila Boa de Goiás, José Pinto Ferreira, de 47 anos, que vivia em luxo e sofisticação para os limitados recursos de uma cidade como Vila Boa, perdida no coração do Brasil, atrasada de uma maneira geral.

A descrição deste personagem é, no mínimo, curiosa. Era ele natural da Vila de Tomar, em Portugal; morara no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, formara-se em advocacia em Coimbra, possuía ricos imóveis, tanto urbanos quanto rurais; extenso número de animais de carga e custeio, além de muitos escravos.

Além de advogado foi também Juiz dos Órfãos, Distribuidor e Inquiridor e Contador do Juízo, um dos primeiros da Província. Possuía uma estante de madeira lavrada com cerca de 70 livros de Filosofia e Direito, o que era incomum para uma cidade como Vila Boa, naquelas distantes eras, de quase 300 anos!

Era o aludido “diabo”, a afetação em pessoa, a partir do processo arquivado e analisado. Usava sedas floridas forradas de tafetá amarelo, calções de seda, botões de prata, melanias alvadias, roupas de panos escarlates. Era um excesso de seda, tafetás e cetins, que contrastavam ainda com fina toilette acrescida de joias finíssimas como um rosicler de diamante (gargantilha com pingentes), vários pares de brincos lavrados e pulseiras, além de muitas perucas em “caixas especiais de guardar cabeleiras”.

Havia muita vaidade feminil entre os homens abastados nos estertores do Barroco e a falta de mulheres, a licenciosidade com os escravos seminus e viris, geralmente bem dotados e à mostra, solidão, a promiscuidade, de certo modo provocavam a prática da ‘sodomia’, segundo os relatos da época e dos processos.

José Pinto Ferreira foi preso, encaminhado ao Rio de Janeiro e depois a Lisboa não pela prática, ao menos aberta, da sodomia, mas do judaísmo, do abandonodos rituais católicos, já que se privava do uso da carne. Em 26 de junho de 1761 no claustro da Igreja de São Domingos em Lisboa foi condenado a “Cárcere e hábito a arbítrio”, usando o sambenito humilhante, com seus bens totalmente perdidos na distante Vila Boa de Goiás, conforme destacou, por meio de análise do documento, por Luiz Mott.

Jamais se soube se ele voltou. O que foi feito de seus bens, suas joias, sedas e afetações?

O século XVIII era avesso ao florescimento do diferente por razões sociais e religiosas muito rígidas. Na literatura acerca desse período, aparece um personagem emblemático de homossexual no romance histórico Chica que manda, de Agripa Vasconcelos, que narra as venturas e desventuras de Chica da Silva nos garimpos milionários de Diamantina, em Minas Gerais. 

O personagem é o Zé Gato ou Zé Mulher,  homossexual pobre e explorado, discriminado, escrachado na sociedade de então. Na versão do romance para telenovela da Rede Manchete de Televisão, o personagem foi interpretado pelo ator Guilherme Piva, com muitos trejeitos e até a inclusão de um “mucamo” negro, bem dotado, interpretado pelo ator Déo Garcez, presente de Chica da Silva, que, para ele, escolhera, a dedo, de seu lote de escravos.

Chica da Silva, no romance de Agripa Vasconcelos, faz Zé Mulher de sua pedicura e o trata com o máximo de desprezo, chutando-o com os pés. Em alguns trechos do romance tais fatos se evidenciam. Ainda na trama do romance, o personagem aparece como um afetado projeto de diretor teatral, cuidando das peças e operetas que eram apresentadas no palácio de Chica de Silva, em Diamantina:

Ao que se nota no romance de Agripa Vasconcelos em narrações baseadas em documentos e na oralidade, Zé Mulher só não foi apanhado pela Inquisição em razão do apoio e prestígio de Chica da Silva que o escondeu dos visitadores; fato que não ocorreu em Goiás, no mesmo período, com o desditoso José Pinto Ferreira.

Outro legítimo representante do glamour, afetação e requinte na Cidade de Goiás do princípio do século XIX foi Raimundo Nonato Hyacintho, citado como homem de grande conhecimento e erudição e, também, personagem estereotipado do romance Chegou o Governador, de Bernardo Élis Fleury de Campos Curado (1915-1997).

No livro de correspondências do governo das armas com as autoridades civis da Província (1823-1826) aparecem as reuniões para a composição do Governo Provisório da Província de Goyaz, sendo votados os nomes de Manuel Antonio Galvão, representando a ala radical, Alvaro José Xavier, pelo Grupo Jardim e Raimundo Nonato Hyacintho como nome de acomodação que permitia conciliar divergências possíveis. Nas eleições ele teve oito votos, dois abaixo do Presidente, já que era diminuto o número de eleitores nesse certame. Na descrição do livro, mostra-se Hyacintho como fazendeiro e funcionário do Governo em Vila Boa de Goiás e de origem portuguesa fidalga.

No romance Chegou o Governador, de Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, há interessantes passagens que sugerem a homossexualidade de Hyacintho, ao mostrá-lo com descrições de afetação, que “pavoneava” no salão.

Em outra festa no Palácio Conde dos Arcos, o romancista tece os detalhes da festa e, sobretudo, a maledicência em torno da figura emblemática de Hyacintho, ao mostrá-lo muito afetado, “quebrando as mãos”, sempre ao lado dos homens mais vistosos da festa. 

Em outra cena do romance o personagem estereotipado de Hyacintho é retratado como um revolucionário ao expor seu escravo na beleza masculina mesmo diante do Governador. Fala de seu gosto por moda, roupas, sedas; além do escravo negro, quase nu, que o carregava, na cadeirinha, com outro escravo muito bem apessoado, chamado de Antinoo. Era apelidado de “súcubo elafiano”, pelas más línguas do tempo.

Hyacintho foi aposentado conforme Resolução de Consulta do Conselho da Fazenda, de 02 de maio de 1828, assinado por Dom Pedro I, como escrivão da Junta da Fazenda da Província de Goyaz, com vencimento de ordenado de 1: 000$000, conforme destacou Sampaio (2012, p. 108)

 Este cidadão tão controverso e tão murmurado em seu tempo, corajoso e destemido, de causa ignorada, já que nas descrições de Lacerda (1972), a autora o destaca falecido ainda no final da década de 1820. Mesmo sendo afetado, com insinuações de romance com seu negro Antinoo, das incitações maldosas do padre Silva e Souza, ele foi um dos únicos que se impôs com a sua inteligência e seu modo irreverente, numa sociedade ainda machista e preconceituosa do século XIX.

No outro século, novos tempos e os mesmos pensamentos.

Na antiga Santa Luzia, hoje Luziânia, cidade de tantas tradições viveu o “casal” de homossexuais que passou a residir juntos no final dos anos de 1920 e que teve participação direta no rumoroso assassinato do escritor e intelectual Antonio Americano do Brasil, em 1932.

Tal fato se constituiu num escândalo público para a pequena cidade daquela época, perdida nos planaltos do coração do Brasil, fechada em rígidos preceitos éticos e morais de uma sociedade patriarcal e preconceituosa às inovações chocantes como um relacionamento homossexual aberto de dois homens reconhecidos na cidade. Eram dois juristas.

Eram eles, Américo Mota Gonçalves, nascido em 1906, solteiro, natural da cidade de Orlândia, no Estado de São Paulo, Promotor Público da cidade de Luziânia e Abdias de Araújo, nascido em 1885, natural da Bahia, casado, mas desacompanhado da família, 21 anos mais velho que o Promotor, e também formado em Direito.

Eles se conheceram no Estado de São Paulo, conforme destacou José Dillermando Meireles quando juntos integraram a Polícia Civil daquele Estado. Américo Mota Gonçalves veio primeiro para Santa Luzia e convidou Abdias de Araújo para vir também para a cidade. Para tal teve, inclusive, a ajuda financeira de Americano do Brasil. Alugaram uma casa e passaram a viver juntos, com escritório na mesma casa e o “grau de intimidade e afeto entre ambos era tão explícito que toda a sociedade de Santa Luzia observava e censurava”.

Ressalta Meireles que o advogado Abdias de Araújo, após a mal disfarçada sociedade advocatícia com o Promotor Américo Mota Gonçalves entrou em atrito profissional com o Dr. Americano do Brasil e este passou a hostilizá-los e ameaçá-los de levar ao conhecimento das autoridades estaduais a sociedade de advocacia que o promotor mantinha com o advogado; o que era ilegal, ainda mais pelo fato da intimidade de ambos. 

Na biografia de Americano do Brasil escrita por Basileu Toledo França há também destaque do autor sobre a incitação dos dois advogados para que Aldovrando assassinasse Americano e apresenta o comentário de que “eles moravam juntos”, sem qualquer alusão à questão da convivência homossexual. Na biografia de Americano do Brasil, escrita por Humberto Crispim Borges não há nenhuma referência sobre a situação do promotor e do advogado. 

Foram ambos interpelados pelo então prefeito nomeado de Santa Luzia, Dr. Públio de Souza, que os ameaçou de levar ao conhecimento do Governo do Estado aquela situação indecorosa para a cidade e para a magistratura goiana. O fato irritou de tal maneira os dois envolvidos, que se separaram de casa, mas mantinham contato, que engendraram uma rede de intrigas que culminou com o assassinato de Dr. Antonio Americano do Brasil, na manhã de 20 de abril de 1932.

Sobre esse lamentável episódio escreveu Meireles: “As razões verdadeiras que provocaram sua morte foram de tal sorte subalternas que envolviam tantos interesses insopitáveis de terceiros que nos abstemos de esmiuçá-los”. Referia-se, por certo, ao que muito se comentou sobre o papel dos dois advogados na rede de intrigas para eliminar Americano do Brasil, inimigo confesso de ambos.

Que destino teve os dois depois da mudança de Santa Luzia, a história apagou. Mas, ambos ficaram registrados nos autos do processo do assassinato de Americano do Brasil, como dois juristas ilícitos diante da lei dos homens e da lei de Deus. 

Eram “diabos” que precisavam ser exorcizados de uma cidade que tinha, inclusive, nome de santa protetora dos olhos. Numa terra assim, eles não podiam ser vistos. Tudo se perdeu no emaranhado da história. O que restou deles e dos que os perseguiram? Onde estão todos agora? 

O tabu continua debalde a passagem dos séculos. Ao que parece, homossexual será sempre homossexual. Segue a marcha interminável das gerações que pisam o cansaço desse chão goiano, mas pouca coisa muda, ou se disfarça sob outros enfoques. Pisam os homens as irregulares pedras dos caminhos (a pedra de Drummond, a pedra de Cora Coralina) e tantas outras pedras que são atiradas.

Nessa visão foi possível perceber que, em cada época, em cada espaço, surgem possibilidades de discussão do papel do homem na tentativa de libertação de tabus e preconceitos arcaicos ao pisar o doloroso solo ardente da dor e da exclusão, da solidão e segregação a que foram relegados os diabos novos, na terra ínvia do Diabo Velho.

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