Bento Fleury
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Diários e devaneios de uma ilustre dama de nossa história cultural

Augusta de Faro Fleury Curado: A grande dama de nossa literatura foi pioneira em sua posição de destaque como mulher e escritora

Augusta de Faro Fleury Curado ao lado de seu esposo, Dr. Sebastião Fleury Curado, em 1912 | Foto: Acervo de Bento Fleury

As viagens no século XIX eram plenas de dificuldades. Se para os homens afeitos à vida difícil da lida com as peripécias dos ermos caminhos era árduo, para uma mulher então, ainda sem vivência com a atividade rural, transformava-se numa epopeia.

A grande dama de nossa literatura, Augusta de Faro Fleury Curado narrou num diário de viagem, o cotidiano de uma trajetória entre a  Capital Federal, Rio de Janeiro e a Cidade de Goiás, em 1896, ao tomar nota, além das dificuldades, muitos fatos relacionados à sociedade e, também, ao meio em que passou, numa diferença gritante entre os dois brasis de outrora.

Em 23 de agosto de 1896 partia da Central do Rio de Janeiro, então Capital Federal, com destino à Cidade de Goiás, o jovem casal, Dr. Sebastião Fleury Curado e Augusta de Faro Fleury Curado, acompanhados dos dois filhos (Maria Paula e André) ainda crianças.

Capa do livro Devaneios, de poemas, contos e crônicas de Augusta de Faro Fleury Curado | Foto: Acervo de Bento Fleury

Dr. Sebastião Fleury Curado, eminente homem púbico no Império e principalmente na República, advogado, formado pela famosa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na Capital Paulista, Deputado à Constituinte de 1891, retomava à sua terra natal, a antiga Capital de Estado e trazia sua jovem esposa Augusta de Faro Fleury Curado, mulher refinada, elegante, poeta de rara sensibilidade, educada em Paris que, da difícil viagem ao sertão de Goiás deixou um saboroso diário intitulado “Do Rio de Janeiro a Goyaz 1896 – A viagem era assim”.

Documentário precioso, o diário de Augusta de Faro Fleury Curado contém, no conjunto de informações valiosas, o cotidiano do interior brasileiro nos primeiros anos República.

Augusta de Faro Fleury Curado utilizou-se de um velho caderno para anotar passo a passo os percalços de sua viagem desde o Rio de Janeiro até a Cidade de Goiás. Esse caderno, com belos manuscritos, na caprichada caligrafia da autora, foi mais tarde compilado por sua filha Maria Paula Fleury de Godoy (1894-1982) e publicado no Rio de Janeiro pela Editora Pongetti, em l961, a sua segunda edição saiu pela gráfica da Universidade Católica de Goiás no ano de l985 e a terceira em 2006.

Nesse longo diário de crônicas históricas, Augusta de Faro Fleury Curado demonstra ser detentora de largo conhecimento de mundo e de cultura acima da média porque foi educada em Paris e no Rio de Janeiro, onde vivera por dezoito anos.  Nascida em Curitiba, em 1865, e falecida na cidade de Goiás, em 1929, a autora deixou ainda dois livros: Devaneios e Ramalhete de Saudades, impregnados de lirismo e francesismo, escritos numa linguagem requintada e sutil, bem ao gosto do princípio do século XX, quando o Brasil vivia sob os auspícios da belle époque.  Esses livros foram coligidos, depois, por sua filha Mariana Augusta Fleury Curado (Nita-1897-1986), também escritora.

Chácara Baumann, Cidade de Goyaz, onde a autora escreveu seus versos | Foto: Acervo de Bento Fleury

A linguagem de Augusta de Faro Fleury Curado é marcada pelo requinte, impregnada de termos franceses e, também, de conformismo diante dos fatos e dos acontecimentos que pululavam então; reflete o pensamento feminino goiano, assim como o brasileiro, desse período. 

Em vários trechos das crônicas de Augusta de Faro vamos perceber como era comum a preocupação da mulher com os seus deveres de esposa e mãe, com os diversos afazeres do marido, guardando consigo, muitas vezes, certos temores que não eram repartidos com o esposo, como o medo de enfrentar uma cidade nova como Goiás, de costumes diferentes do Rio de Janeiro; de saber-se aceita ou não pelos parentes do esposo ou mesmo o de enfrentar as dificuldades de uma viagem tão cheia de percalços com duas crianças ainda pequenas, todas de colo.

As crônicas de Augusta de Faro iniciam-se na central do Rio de Janeiro, então capital Federal, em 23 de agosto de 1896, e terminam no Cais do Rio Vermelho, na Cidade de Goiás, em 20 de outubro do mesmo ano, ponto de chegada de sua família. 

Como arguta observadora, a cronista descreve a movimentação do Rio de Janeiro no final do século XIX, dando-nos a ideia do desenvolvimento que explodiria na próxima década, mas que não resolveria as contradições marcadas, no relato, pelo transitar de carroças, ao lado de bondes, desafio colocado aos poetas modernistas, principalmente Oswald de Andrade na primeira fase do Modernismo (l922-l930) em que fala da disparidade do Brasil anacrônico em termos de modernidade científica querer igualar-se, na época, aos moldes da escrita francesa. 

Capa do livro de relato de vigem | Foto: Acervo de Bento Fleury

O Rio de Janeiro cosmopolita com carroças e bondes, imprensa, energia elétrica, empregados em movimentação é mostrado em sua rotina da estação da central de trem numa “madrugada triste” do final do século XIX, na partida para Goiás – um ermo distante e desconhecido, destino da jovem esposa, que viria definitivamente para a terra do marido, o jurista Dr. Sebastião Fleury Curado, constituinte de 1891, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, um homem raro e culto que “autorizava” sua mulher a escrever, o que não era comum para a época.

Augusta de Faro registrou peculiaridades dos espaços e, também, voltou o olhar para as pessoas que ocupavam esse lugar, ao descrever as cenas dos imigrantes italianos (fato recente então no Brasil daquela época) na briga por trabalho na pátria para a qual haviam sido chamados; com promessas de terra, trabalho e esperança em vida melhor. Percebe-se, no relato da autora, o senso crítico e observador, característica importante no exercício de escrita do cronista.

A visão que a cronista Augusta de Faro passa é a de certo incômodo gerado pelo grande contingente de italianos, vindos para o Brasil substituir a mão de obra escrava, nos quais “se esbarra” e que “perseguem os viajantes”, “brigando por quem será escolhido”. Tal visão está impregnada daquele conceito de mundanidade, de progresso cosmopolita que se verificava na então Capital Federal.

Notória é a influência francesa nos costumes, hábitos, modismos e expressões das mulheres desse período em suas obras, ao se observar a “esmerada educação” sob influência da cultura francesa.

Augusta de Faro valorizava sobremaneira a qualidade de vida das grandes cidades, o conforto da vida citadina e a cultura francesa, superior às demais no pensamento daquele tempo, marcado pelo anseio do requinte e do luxo, e esse aspecto passou a fazer parte do exercício literário. A literatura brasileira passou a se inspirar diretamente em fontes culturais francesas e inglesas, particularmente naquelas, ao inaugurar um extenso período de influência estético literária sob os auspícios da cultura gaulesa.

Original de um de seus versos em que aparece, no diário manuscrito, o seu belo talhe de letra | Foto: Acervo de Bento Fleury

E tudo para a autora, debalde o sofrimento da viagem, ou pelo provincianismo percebia sutilmente ao afastar-se do Rio de Janeiro, tem sabor especial, porque segue com seu marido e filhos.

Ao chegar a Uberaba, ponto terminal da Estrada de Ferro de Goiás, a autora já sentia os primeiros impactos do que seria a viagem daí por diante; sertão adentro, no enfrentamento do atrasado estado central do Brasil, fato notado na diferença dos “dois brasis” por Jacques Lambert e Euclides da Cunha; ao mostrar o Brasil litorâneo e intelectualizado aos moldes europeus em contraste com o Brasil pobre e esquecido, analfabeto e desprezado, do sertão. 

Ao seguir viagem de banguê e nos lombos dos burros, a autora mostrou um fato histórico: a inauguração da estação de trem da cidade de Araguari, fato que a cronista registra, ao falar da ignorância do Brasil sertanejo.

Ao descrever detalhes, como narradora de uma situação, Augusta de Faro captou o instante histórico em Araguari e fez o registro não somente com a preocupação de historiadora, mas como participante daquele fato solene, observado sob sua fina ironia de mulher civilizada diante da rusticidade do sertão e provincianismo de sua gente.

De fato, o texto de Augusta de Faro, revelador de uma visão crítica das abruptas diferenças de desenvolvimento do Brasil, não era para ser publicado, somente veio a lume depois da morte da autora em 1929, compilado por sua filha Maria Paula. Aliás, o único livro publicado em vida pela autora foi Devaneios no ano de 1891, quando ainda residia em São Paulo.

Em suas crônicas durante a exaustiva viagem para Goiás, Augusta de Faro descreveu com lirismo e acentuados traços românticos os pousos sertanejos, ao destacar termos até então presentes na literatura, como “luar”, “crianças”, “lanternas mágicas”, expressões notadamente líricas, até mesmo o fato do casal estar sentado num toco de árvore ao luar, esquecidos a conversar. 

É a postura romântico-literária da cronista: “No paiol, a lua entrava mansamente, indo brincar nos cabelos dos meus filhinhos e dourar espigas de milho, atiradas a um canto. Nos lençóis que pusemos nos paus do paiol, formando biombos ela fazia surgir estranhas figuras, como as que fazem as lanternas mágicas e que tanto nos encantam quando crianças. Sebastião e eu passamos muito tempo ao luar; esquecemo-nos a conversar, sentados num toco de árvore. (p.47)”.

Durante trinta e dois dias em pleno sertão, de Araguari à Cidade de Goiás, a cronista relatou peculiaridades por onde passou e as dificuldades enfrentadas em todo o percurso, como chuva, sol forte, sereno, espinhos, animais peçonhentos, travessia de rios, sede, cansaço. 

E esposa resignada viu-se recompensada, ao final do diário, na chegada à Cidade de Goiás, com a alegria do marido. E nesse último relato, percebe-se o atraso da então capital goiana em relação ao Rio de Janeiro, na viagem terminada num rústico banguê com gente curiosa que indagava sobre os viajantes. 

Observa-se, ainda, a situação geográfica desfavorável da cidade que a fazia ficar perdida entre as serras, longe da modernidade ou mesmo da possível chegada do trem, fato que realmente nunca aconteceu e que insuflou a mudança da capital para Goiânia mais de três décadas depois.

Também, Augusta de Faro Fleury Curado fez descrições do cenário em torno e das constantes mudanças da paisagem. Alguns nomes até evocam o Cerrado como “Cabeceira do Cedro”, denominação de um dos pousos, assim como “Cachoeira das Araras”, onde a narradora descreve o cenário em torno, do Cerrado: “É uma paisagem africana: altos coqueiros em renque, palmeiras, desdobrando-se aos grandes leques, maciços de terra cobertos de capim novo. De um lado, um pantanal coberto por caniços que se balançavam graciosamente e por grandes flores roxas em haste”. 

Em outras passagens a nobre senhora destaca a monotonia da viagem: “Era maior parte do tempo um chapadão, uma estrada sempre em terreno plano, onde as árvores são raras e há pouca água”. Outras vezes, a autora pinta poeticamente a paisagem pelos cerrados ou pelas matas mais altas: “Não se pode imaginar a beleza do nosso solo: árvores de uma altura descomunal, à beira do riacho mil florinhas de cores vivas, os leitos dos córregos cheios de pedrinhas alvas e tantas borboletas de lindas cores a esvoaçarem como ramalhetes alados”. (p. 46).

Segue ainda a autora na visão das grandes matas do solo goiano: “Árvores tão copadas que não se lhe viam os troncos; pássaros de plumagens variadíssimas, flores mimosas, o céu azul, muito azul, de uma pureza inalterável; o sol, qual lâmpada, espargia seus raios, dava vida e calor a tudo aquilo”. 

Na região do Mato Grosso Goiano, entre os arraiais de Campininha das Flores e Goiabeiras, descreve o cenário impressionante das grandes matas, densas e profundas, típicas da região, outrora, ou seja, mata e mata, sem ver o sol!

Naquele tempo, portanto, se viajava do hoje bairro de Campinas, região metropolitana de Goiânia, até Inhumas sem se ver o sol, apenas em meio às matas sombrias. Por esse relato percebe-se o quanto em, cem anos, o homem conseguiu destruir a natureza que nos circundava.

Augusta de Faro Fleury Curado se destacou também na poesia feminina elaborada em Goiás, nos primórdios de sua cultura, como poeta e cronista dos tempos idos. Com estilo romântico, dedicou-se ao verso como exaltação, também, da terra goiana, da qual se enamorou e ficou para sempre. De sua aristocrática chácara Baumann, situada sobre um outeiro na Cidade de Goiás, escreveu seus versos inspirados na bela paisagem que lhe descortinava a janela.

De seu diário particular de versos, retiramos um escrito com sua própria letra, em que destaca a paisagem de Goiás, vista das amplas e claras janelas envidraçadas de sua chácara.

O verso de Augusta de Faro Fleury Curado, curto e com laivos mais modernos, embora escrito em 1905, há 110 anos passados, a autora exorta a serra, com sua tarde triste, pouco a pouco descendo. 

Romanticamente descreve a melodia da natureza nesse momento, como se regendo o entardecer na ampla beleza do fim do dia. Assim como os outros de seu tempo, ressalta, com ênfase, a solidão em meio à paisagem, como um homem só, em meio ao agreste Cerrado, longe de todos os outros lugares.

Esse ideário de alheamento em meio à inospidez dos campos e cerrados, principalmente dos montes e serras da Cidade de Goiás continua na produção da autora. Ao descrever o sentimento de tristeza e alheamento em meio à natureza, destacou elementos da paisagem como a parda sabiá, a serra, a terra, a lua, as nuvens, os pirilampos para configurar o cenário cerradeiro, assim como, para dar ênfase ao distanciamento no coração da natureza, na bucólica Via Boa de Goyaz, a cidade “longe de todos os lugares”, como um dia ressaltou Cora Coralina.

Nesse entendimento do pioneirismo do sufrágio feminino, a lembrança do nome de Augusta de Faro Fleury Curado no seu papel importante na vida cultural de Goiás no princípio do século XX e a afirmação de sua posição de destaque como mulher, história e sensibilidade.

Carta de Augusta de Faro Fleury Curado a sua filha primogênita, Maria Paula Fleury de Godoy | Foto: Acervo de Bento Fleury

Uma resposta para “Diários e devaneios de uma ilustre dama de nossa história cultural”

  1. Parabéns Prof Bento. Suas pesquisas são de grande importância. Seu texto é muito “saboroso” . Fico sempre impressionada com sua vida tão laboriosa. Não sei onde vc consegue achar tanto tempo. Além de sua humanidade e cuidado com todos. Deus o cubra de bênçãos.

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