Bento Fleury
Bento Fleury

Antonio Americano do Brasil, 90 anos de ausência

Um dos maiores nomes de nossa história em todos os tempos tombava vítima da futilidade e das intrigas próprias do tempo, evidenciando o quanto a vida humana nada valia

Dr. Antonio Americano do Brasil (1892-1932) nome fulgurante entre os vultos de Goiás de todos os tempos | Foto: Acervo de Bento Fleury

A trajetória do intelectual Antonio Americano do Brasil (1892-1932) aparece pontuada na história de Goiás como um marco indelével de amor às tradições, de pesquisa e de dedicação às nossas coisas. 

Como um raio luminoso, sua curta existência, marcada por sucessos e por sofrimentos, traduziu-se no excelso pensamento de transformar  a dor em trabalho. Goiano dos maiores que já houve em nosso rincão, deixou uma rica produção em diversos campos da atividade intelectual, política.

Em 1932, há 90 anos, era assassinado em Santa Luzia, hoje Luziânia, o grande goiano Antonio Americano do Brasil. Talento polivalente, inteligência múltipla, misto de poeta, historiador, conferencista, jornalista, médico, advogado, homem público, administrador, folclorista, historiógrafo, pesquisador, professor, filósofo, ele foi, de fato, um dos maiores nomes de nossa história em todos os tempos; tombava vítima da futilidade e das intrigas próprias do tempo, por motivos banais, ao evidenciar o quanto a vida humana nada valia; o que só piorou com o passar das gerações.

Era filho de simples e honrado professor, pobre e esquecido, infelizmente, ajudou o pai na lida do magistério para que nada em casa faltasse a si e aos irmãos. Era um nobre espírito a serviço do bem.

Nascido na antiga e poética Bonfim de Goiás, hoje Silvânia, no ano de 1892, Antonio Americano do Brasil teve por berço o lar de Antonio Eusébio de Abreu (Nico Eusébio) e Elisa Maria de Souza Abreu.  

Tinha um raro feito físico em apresentar os olhos em cor diversa: o olho esquerdo era verde e o direito tinha a cor de folha seca. Na belíssima Bonfim, viveu seus dias de criança, na poética silente dos casarões com seus vastos quintais e os muros rebuçados de telhas de barro.

Em 1917, juntamente com seu parente e conterrâneo Henrique Silva, fez circular a importante revista Informação Goyana, que até 1935, a duras penas, foi o veículo maior de propaganda do Brasil Central no Rio de Janeiro. De volta a Goiás, em 1918, Americano do Brasil foi nomeado Secretário de Interior e Justiça do Estado, no governo do Desembargador João Alves de Castro. Sua atuação foi tão inovadora, inteligente, profícua e acertada, que dois anos depois foi eleito Deputado Federal em razão de seu talento e dinamismo na administração da coisa pública.

Na Câmara Federal foi intransigente defensor da mudança da capital para o planalto; o que ocorreria quarenta anos depois. Defendeu, também, o reconhecimento das potencialidades econômicas goianas e a questão dos limites com os outros Estados, principalmente Mato Grosso. Nesse tempo publicou Pela terra goiana, coletânea de estudos e artigos no seu período na Câmara Federal

Belíssimo sobrado com janelas e sacada de ferro, construído em Bonfim por Francisco José da Silva, ainda na década de 1920, hoje desparecido. Acervo do livro de Humberto Crispim Borges.

Já no Rio de Janeiro em 1921, Americano do Brasil casou com Mirtes Caiado de Castro, filha do Dr. João Alves de Castro e Terezina Caiado de Castro. Fez concurso para médico do Exército e foi aprovado, e por seu esforço chegou ao cargo de Tenente. No ano seguinte, 1922, há cem anos, nasceu sua única filha, Terezina.

Na qualidade de Deputado Federal e defensor intransigente da terra goiana, fez valer a luta secular pela interiorização da Capital do Brasil. Na tribuna, defendeu que deveria ser lançada a Pedra Fundamental da nova Capital, fato que ocorreu em Planaltina, no dia do centenário da Independência.

Mas, o destino reservava a Americano do Brasil uma grande provação, em virtude de enfermidade a que foi acometido; que o separou do convívio da esposa e da filhinha querida; ocasião em que retornou a Goiás, desiludido e triste, indo residir no planalto, na cidade de Formosa, onde passou a clinicar, advogar e depois em Luziânia.

O conjunto completo de suas obras assim pode ser definido: A Doutrina Endocrinológica: (1917), tese de doutorado da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha no Rio de Janeiro – RJ;  No Convívio com as Traças: (1920), em polêmica com o tenente Marco Antônio Félix de Sousa, por questão genealógica, nasce a obra que esclarece os laços de sangue do general Joaquim Xavier Curado com Francisco Soares de Bulhões, irmãos uterinos; Questão de Limite Goiás – Pará: (1920), estudo que refuta a coerência do delegado do Pará, Dr. Palma Diniz, no Congresso de Limites Interestaduais; Pela Terra Goiana: (1922) discursos; Pela Terra Goiana II: (1923) discursos; Puericultura e a Cultura Nacional: (1923); Cunha Matos em Goiás (1823 – 1826); Memória – Escritos entregue ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; Cancioneiro de Trovas do Brasil Central: (1925), editado por Monteiro Lobato. Este livro foi motivado por uma palestra assistida na Biblioteca Nacional, proferida por João Ribeiro sobre o sentimento folclorístico brasileiro; Súmula de História de Goiás: (1931); trabalhou na adaptação da História de Goiás ao programa da Escola Normal que lhe foi mandado, nascendo a obra, que foi oferecida ao Estado sem nenhuma remuneração, mas só foi publicada em 1932, após a sua morte; Nos Rosais do Silêncio: (1947), poemas; Romanceiro Trovas Populares: (1979), edição crítica de Basileu Toledo França; Mil Trovas Luzianas;  Goiás – Província;  Pela História de Goiás: (1980).

C:\Users\User\Desktop\foto 37.jpg

Escola do mestre Antonio Euzébio de Abreu, em Bonfim. Acervo do livro de Humberto Crispim Borges

Toda a trama foi urdida por situações que se somaram em intrigas prévias existentes entre membros da comunidade local. O estopim foi um possível defloramento de uma jovem garçonete, Casturina de Lima, da “Pensão Mineira” de Rita Flores e Sebastião Augusto Ferreira Levergger por um jovem, Aldovrando Gonçalves, de 26 anos, agrimensor, que, a partir daí, insuflado pelo Promotor de Justiça, Américo Mota, de 26 anos e o advogado Abdias de Araújo, de 47, que à época, escandalizando a sociedade, viviam juntos “em grande intimidade”, como se relata no processo; eram desafetos de Americano do Brasil, por estas e outras razões de trabalho.

Carta de Americano do Brasil a Eugênio Jardim, escrita no Rio de janeiro, datada de 26 de julho de 1921 | Acervo pessoal de Bento Fleury

Assim, o desenlace foi traçado rapidamente em desfavor de Americano, que nada sabia dessa articulação obscura e pérfida. Ele foi indicado pelo delegado Públio de Souza para fazer o exame na jovem; o que nem chegou a realizar. Por intrigas dos inimigos de Americano do Brasil, promotor e advogado, que destacaram a intenção do médico em manchar o nome do rapaz; descontrolado, o jovem, ao sentir-se ameaçado por Americano, que era um homem reconhecido e respeitado, resolveu num gesto infeliz, “limpar o seu nome”. 

Na manhã do fatídico dia, descontrolado e insuflado pela ira dos desafetos de Americano, o jovem Aldovrando foi até a residência do médico e escritor, alvejou-o de imediato e ao vê-lo caído no quarto, descarregou sobre ele a carga de sua arma. Morreu de forma completamente inocente; sem nem saber dos fatos contra ele tramados, uma das maiores glórias das letras e da história goiana.

A ele, glorioso homem, majestoso ser humano, eloquente intelectual, vibrante estudioso, nossa saudosa lembrança. Emociono-me sempre quando penso no seu fim, sacrificado, sozinho, longe dos seres ternamente amados. Quanta saudade, por certo, sentiu no momento final! Que Deus o tenha iluminado!

Americano do Brasil, espírito imortal a serviço do bem, de Goiás e do Brasil. A lembrança de sua passagem nesse mundo, pelos 130 anos de seu nascimento e 90 anos de seu falecimento, a enternecida recordação do exemplo de amor, paz e luz que semeou nos descaminhos desse mundo.

Ele repousa, agora, sereno, no simples cemitério de sua inesquecível Bonfim de Goiás, para onde, mais tarde, foram transladados os seus restos mortais.

A morte não derrotou Americano do Brasil, apenas lhe mostrou outra faceta da vida imperecível. Espírito imortal paira sobre a terra goiana e derrama seus fluidos benéficos na alma singela desse chão.

Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado (Bento Fleury)* é graduado em Letras e Linguística pela UFG. Especialista em Literatura pela UFG. Mestre em Literatura e Linguística pela UFG. Mestre em Geografia pela UFG. Doutor em Geografia pela UFG. Presidente do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os povos do Cerrado (ICEBE) e Membro Titular do IHGG.

Belíssima capa com sugestivo título nascido da sensibilidade aguçada de Americano do Brasil | Acervo de Bento Fleury Curado.
Pela terra goiana, publicado em 1922 pela Imprensa Nacional. Original autografado, acervo de Bento Fleury.

6 respostas para “Antonio Americano do Brasil, 90 anos de ausência”

  1. Avatar HELENA M B P VASCONC disse:

    Parabéns Bento! Morreu Dr Americano sem saber porque. Que vida . Vc como sempre nos trazendo conhecimento. Obrigada Amigo.

  2. Avatar Shirlan Braz Barbosa Matos disse:

    Sou fascinada por Antônio Americano do Brasil, por tudo que fez e deixou para nós. Parabéns pelo texto!!
    Eu me emociono toda vez que releio sobre a morte injusta que ele teve!!
    Que Deus o tenha na sua eterna glória, Americano do Brasil!!!

  3. Avatar ALICE BITES LEAO LEITE disse:

    Bento, que orgulho tenho eu, ser sua amiga, é mais que demais, como diz minha netinha. Amo ler seus textos, sinto que enriquece-me por dentro.

  4. Nilson Jaime Nilson Jaime disse:

    Que sua coluna tenha longa vida, Bento, e dezenas de milhares de leitores.
    Parabéns ao Jornal Opção pelo reforço valoroso.

    • Avatar Carmem Gomes disse:

      “Os rosais do silêncio” , título profético,haverão de responder por ele. O silêncio sobre as injustiças
      são respondidas são respondidas por Deus.
      Com exaltação e honras. Assim foi com Antônio Americano do Brasil. Parabéns mestre Bento Fleury!

  5. Avatar fleurymar de souza disse:

    Muito bom ler matéria tão esclarecedora, como tudo que o senhor escreve. Li muitos textos seus nas páginas do DM a fim de adelgaçar minha pouca inteligência. Parabéns Bento Fleury.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.