Trump, Hamlet, a Dinamarca e uma ilha polar. Do que Shakespeare se esqueceu nessa história?
07 janeiro 2026 às 19h20

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Escrita por volta de 1600, a peça “Hamlet” (Companhia das Letras, 320 páginas, tradução de Lawrence Flores Pereira), de Willian Shakespeare, se passa na Dinamarca. O príncipe Hamlet está num profundo luto após a morte do pai, o rei Hamlet.
O príncipe descobre que o pai foi assassinado pelo irmão dele, Cláudio, que se casou com sua mãe, a rainha Gertrudes, e ainda lhe roubou a coroa.
É em meio a essa trama que o príncipe herdeiro, estarrecido pela verdade dos fatos que lhe foram contados pelo fantasma do pai, sintetizou numa frase a angústia e o desprezo ao que se passava na corte. Hamlet conclui: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. A frase alerta para a decadência moral e política, com traição, incesto e assassinato, sugerindo que a podridão vem de cima, da própria corte real.
A célebre frase de Hamlet tornou-se comum para indicar que uma situação, um governo, uma empresa ou sociedade está vivendo sérios e ocultos problemas, mesmo que isso pareça normal.

Após 425 anos, desde a estreia de “Hamlet” em Londres, Shakespeare parece ter profetizado, na peça, o atual momento da geopolítica mundial.
Quando o assunto é a Groenlândia, de fato, algo vai mal no reino da Dinamarca desde que o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos precisam da ilha gelada para sua segurança nacional e, por isso, ela deverá ser anexada ao território americano por bem ou por mal. O líder americano do norte sublinha que a opção militar sempre está à mesa quando os assuntos são de interesse do país que gere.
O ataque à Venezuela — que resultou na prisão do ditador Nicolas Maduro, no sábado, 3 — tornou a retórica trumpista em realidade. Desde então, as reflexões do presidente americano sobre a provável realização de outros atos parecidos em sua lista de desejos na política internacional ganharam força total e é a pauta da vez no Salão Oval da Casa Branca. Então, está na ordem do dia a anexação da Groenlândia aos Estados Unidos.
Em meio à ousada demonstração da força militar americana na Venezuela, desta vez a retórica sobre a Groenlândia ganhou contornos mais delicados, já que, caso aconteça a anexação do território — que, há séculos, está sob a custódia da Dinamarca —, os Estados Unidos acenam, abertamente, para o fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a saída imediata do bloco militar. Uma ação que deixa a Europa sozinha no front para lidar com a fome imperialista da Rússia de Putin e a islamização do continente europeu provocada pela imigração em massa de muçulmanos nos últimos anos.
A premiê da Dinamarca, Mette Frederiksen, já afirmou, claramente, qual a posição do país escandinavo sobre a questão: “A Groenlândia não quer ser parte dos Estados Unidos”.

A líder dinamarquesa alertou que isso significa o fim da Otan. Então, por que Donald Trump colocou na mira esse pedaço de terra no Círculo Ártico, gelado, isolado do resto do mundo e com uma população esparsa? Qual o objetivo do presidente americano ao causar sérias tensões com os parceiros europeus? (Europa que não reage militarmente — exceto retoricamente — à destruição da Ucrânia pela Rússia de Vladimir Putin.)
Maior ilha do mundo, a Groenlândia é rica em recursos naturais. Seu tamanho corresponde a um quarto do território brasileiro. Também chamada de “Greenland” ou “Ilha Verde”, em inglês, o território já foi uma colônia dinamarquesa por mais de mil anos até que em 1953 ganhou autonomia, mas nunca foi um país.
Desde 1979, a ilha conta com governo próprio. No entanto, nunca deixou de ser um protetorado e até hoje discute no parlamento dinamarquês, onde possui dois representantes, as condições para sua independência.
Os 56 mil habitantes da Groenlândia moram em diversas ilhas que compõem um arquipélago de gelo e neve. Para se locomover entre uma ilha e outra somente de barcos, trenós, aviões. A capital, Nuuk, é marcada pelo contraste da paisagem polar com casas e prédios coloridos e paredes vermelhas. Mais de 80% da Groenlândia está embaixo do gelo. E a economia é baseada somente na pesca.
Localizada, estrategicamente, entre três continentes, com o derretimento das calotas polares, a região, conhecida por ser um cemitério de navios encalhados desde o século 19, passou a ser navegável.

A passagem marítima tornou-se, rapidamente, a rota preferida dos navios que atravessam o Atlântico Norte e realizam o comércio entre os Estados Unidos e a Europa.
Além disso, a ilha é rica em recursos naturais como petróleo, gás, além das terras raras: minerais que se tornaram cruciais para a economia global porque são usados em carros elétricos, turbinas de avião e equipamentos militares.
Os Estados Unidos estão atrás da China nesse campo. Os chineses controlam 90% do mercado de terras raras do planeta.
Nesta semana histórica — que acena para uma mudança radical na ordem mundial —, Trump procurou desmerecer os recursos que o subsolo da Groenlândia oferece. O presidente alega que o interesse dos Estados Unidos pela ilha é, tão-somente, por questões de segurança. A história vai nos dizer em breve o que todos já sabem: de fato, “há algo de podre no reino da Dinamarca”. E não é só lá.

