Realismo de Trump com Arábia Saudita beneficia a economia dos Estados Unidos
27 novembro 2025 às 16h46

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Arábia Saudita vai à feira nos Estados Unidos e anuncia que entrou para valer no século XXI
Há pouco mais de uma semana, Donald Trump fez questão que o mundo inteiro pudesse assistir a luxuosa e extravagante recepção que a Casa Branca ofereceu ao príncipe herdeiro e líder da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, em Washington.
Os dois líderes sabiam que a visita iria gerar diversos impactos, desde a questão palestina ao envolvimento direto do príncipe saudita, acusado pela CIA como mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, do “Washington Post”. Ele foi morto há sete anos dentro do consulado da Arábia Saudita na Turquia.
A morte do colunista abalou as relações diplomáticas entre os dois países. Para Trump, isso já é coisa do passado. O presidente americano do norte frisa que Bin Salman foi acusado injustamente porque não sabia de nada sobre a morte do jornalista e a divulgação do relatório da CIA, em 2021, que o acusou como mandante do crime.
Para Trump e Bin Salman, as rusgas entre os dois países ficaram para trás. O que importa mesmo são os negócios que os dois ratificaram em contratos bilionários — que vão desde a venda de caças F-35 e tanques de guerra a chips de alta tecnologia em IA, um projeto civil de energia nuclear e muito mais.
Bin Salman (como bom árabe) voltou ao reino saudita certo de que reverteu o imbróglio diplomático entre os dois países e ainda fez o melhor dos negócios. Assim como Trump que, ao final do encontro, fechou acordos que totalizam US$ 600 bilhões.
Para onde Bin Salman vai levar a Arábia Saudita
Mas para onde Bin Salman quer levar a Arábia Saudita? Esta é uma questão, por enquanto, indecifrável e cheia de controvérsias.
Sabe-se que, ao retornar, o príncipe foi recebido calorosamente por seus súditos. Porque restaurou o prestígio internacional da Arábia Saudita ao posicionar o país como mediador importante e parceiro fundamental nas pautas que estão moldando o “novo” Oriente Médio.

Em Riyadh, analistas chamam a atenção para o momento, considerado o melhor para a Arábia Saudita quando o assunto é a liderança e o poder de definir questões geopolíticas da região que passa por profunda transformação.
A recepção calorosa que Bin Salman recebeu em Washington reflete o esforço do governo americano em impulsionar, com força total, a imagem poderosa do príncipe saudita não somente entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, mas por todo Oriente Médio, principalmente por todo mundo muçulmano. (Ressaltando que a Arábia Saudita, sunita, é rival do Irã, xiita. O Irã é um problema tanto de Israel quanto dos Estados Unidos.)
Este é, sem dúvidas, um dos melhores momentos na história do reino Saudita, senão o melhor, e Mohammed Bin Salman é o responsável por isso.
Em menos de uma década, o líder saudita conseguiu mudar a imagem do país de uma nação islâmica fundamentalista — onde os direitos humanos praticamente inexistem, que mata jornalistas e as mulheres são vistas como objetos — para se tornar um jogador importante nas questões internacionais e um parceiro atraente à nova ordem mundial em processo de formação.
Hoje, a Arábia Saudita atua contra o Islã jihadista, algo impensável há menos de dez anos. Sabendo que o petróleo vai acabar, em algum momento, os sauditas investem em alta tecnologia e isso se reflete nos acordos assinados em Washington.

Diferentemente do pai, o príncipe herdeiro conseguiu convencer o presidente dos Estados Unidos que assuntos de Estado, principalmente no que diz respeito à perseguição de inimigos políticos, dizem respeito apenas ao reino saudita. Por isso não devem afetar grandes negócios. Ficou patente que as duas nações podem articular relações comerciais, como os contratos que foram assinados na Casa Branca, sem que o líder saudita seja submetido a “lições morais” dos gestores americanos.
Trump deixou de lado o falso moralismo e preferiu focar no que sabe fazer melhor (até por ser empresário): bons negócios que irão beneficiar o governo e automaticamente a economia de seu país.
O líder americano sabe que o alinhamento comercial com a Arábia Saudita será bem-sucedido porque os sauditas são excelentes negociadores. E, claro, tem bilhões de dólares.
Estratégia e segurança no Oriente Médio
Bin Salman também estabeleceu com Trump questões de estratégia e segurança regional com foco no conflito entre palestinos e israelenses. O príncipe quer “dar as cartas” sobre o tema e, por isso, quer as mesmas ou até mais regalias que seu vizinho, o Catar, recebe do governo americano. Israel e Arábia Saudita são, a rigor, os dois grandes parceiros dos Estados Unidos no Oriente Médio.

O foco central é estabelecer forte presença e decisão política que afete a região.
A ambição é grande e assim são também os obstáculos que surgem a cada megaprojeto, que faz as questões econômicas sempre mais importantes do qualquer plano estratégico que envolva política ou a compra de armamentos.
Mas o que Bin Salman trouxe na bagagem de volta à Riyadh foram excelentes acordos que trarão bônus de imediato ao seu reino — IA, armamentos exclusivos, caças F 35 e outros investimentos a longo prazo que trarão muito lucro ao país.
Apesar do anúncio público feito pelo presidente Trump sobre a venda dos caças F-35, serão anos até que sejam entregues. Nesse meio tempo, a Arábia Saudita deverá focar num tripé de objetivos interconectados: inteligência artificial, chips e acesso à alta tecnologia.
Mohammed Bin Salman quer sair na frente e tornar seu país a peça central de uma hub regional num mundo sem petróleo mas com alta tecnologia.
Oficialmente, os dois países falam em acordos que giram por volta de US$ 577 bilhões, mas nas entrelinhas os negócios ultrapassaram US$ 1 trilhão. E não se trata de um “agrado” aos Estados Unidos. Trata-se de investimento a longo prazo em alta tecnologia. A inteligência artificial e os semicondutores são a “comissão de frente”.
A boa vontade de Donald Trump em tornar fácil o acesso aos chips avançados de inteligência artificial para a Arábia Saudita demonstra a magnitude da mudança nas relações econômicas entre os dois países — da energia tradicional (gás e petróleo) para tecnológica — numa parceria que vai redefinir o papel da Arábia Saudita na economia global (e não apenas do Oriente Médio).
A visão do jovem príncipe de apenas 40 anos e um dos homens mais ricos do mundo para a Arábia Saudita quer pôr um fim à dependência de negócios apenas com petróleo e derivados.
Se depender do líder saudita, até 2030 seu reino vai se transformar numa potência tecnológica que, naturalmente, deverá abrir novos canais econômicos.
Há tempos que a Arábia Saudita deixou de ser apenas areia do deserto, camelos e tapetes “voadores”. O reino saudita do século XXI se prepara para contar outras mil e uma noites de novas histórias.
