A guerra no Oriente Médio que hoje assistimos praticamente ao vivo pela tela de um smartphone conta com a ajuda da Inteligência Artificial. Há uma semana, o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã segue um padrão antecipado por algoritmos que não apenas analisam estratégias, mas também dão o ritmo da guerra. Isso vai desde a rápida identificação de alvos e a interceptação de mísseis até o uso de drone swarms, ou “enxames de drones”, quando vários drones são operados em rede e de forma coordenada por algoritmos que permitem que eles se comuniquem e atuem em grupo, sob a coordenação de um ou mais controladores. Trata-se de um novo tipo de campo de batalha por trás de cada uma dessas operações.

Pode-se dizer que as guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza foram ensaios, e que o conflito contra o regime iraniano — chamado pelos americanos de Operação “Fúria Épica” e pelos israelenses de Operação “Rugido do Leão” — é a primeira guerra da história da humanidade com uso de Inteligência Artificial em escala total.

Os detalhes sobre esse novo tipo de disputa militar ainda não foram totalmente revelados, mas, aos poucos, alguns deles começam a emergir. Não se trata de uma versão de guerra como em Exterminador do Futuro ou 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas alguns sistemas já são capazes de processar uma quantidade tão grande de informações em tão pouco tempo que um analista levaria décadas para realizar a mesma tarefa. O jornal britânico The Guardian escreveu nesta semana que “o ritmo acelerado com que a IA identifica alvos em potencial no campo de batalha, aprova a ação de destruição e executa a operação é mais rápido que a velocidade de um simples pensamento”.

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O que a IA apresenta ao mundo neste momento, no Oriente Médio, é uma nova doutrina de guerra: mais rápida, mais barata e mais letal. Para se ter uma ideia, durante a Segunda Guerra Mundial, entre coletar informações de inteligência por meio de reconhecimento aéreo e bombardear um alvo identificado poderia levar até seis meses. Hoje, com IA, isso pode ser realizado em segundos. Em um passado mais recente, durante a invasão dos Estados Unidos no Iraque em 2003, a unidade de inteligência contava com cerca de 2 mil soldados. Na operação em curso no Irã, a mesma unidade tem apenas 20 oficiais.

O Comando Central dos EUA (CENTCOM) utiliza o “Projeto Maven”, anunciado em 2017, que integra o resumo de várias informações captadas por diferentes serviços de inteligência, resultando em diretrizes operacionais. O sistema escaneia milhares de horas de imagens captadas por drones, identifica objetos como veículos, pessoas e modelos de armamentos — terabytes de dados — e informa os operadores de inteligência, que podem selecionar os alvos com maior precisão.

Em 2023, os Estados Unidos revelaram que passariam a usar o programa “Replicator”, desenvolvido pelo Pentágono, em futuras operações militares. O sistema consegue implantar o uso de milhares de drones, aeronaves e veículos militares operando de forma independente, sem controle direto humano em plataformas individuais. Algumas dessas tecnologias estão em ação neste momento no Irã.

O CENTCOM também opera no Oriente Médio o “enxame” LUCAS, um tipo de aeronave não tripulada relativamente mais barato do que um drone convencional — cerca de US$ 35 mil por unidade — com autonomia total de funcionamento. Eles se comunicam entre si quando estão no ar, dividem os alvos que irão atingir e realizam ataques suicidas contra sistemas de radar iranianos sem o auxílio de um operador em terra. O LUCAS já foi oficializado pelo Departamento de Defesa dos EUA como uma diretriz que deve acelerar o domínio militar americano, tornando-se a primeira unidade de Inteligência Artificial que atua como uma força de guerra.

Os Estados Unidos não estão sozinhos nesse novo tipo de combate. Israel também utiliza no Irã um sistema de IA desenvolvido e testado durante a guerra na Faixa de Gaza, chamado “O Evangelho”. Ele auxilia na identificação e localização de alvos. No Irã, o sistema tem ajudado a identificar prédios militares, instalações nucleares e petrolíferas, além de quartéis da Guarda Revolucionária espalhados por todo o território iraniano.

Outro sistema desenvolvido pelas Forças de Israel, conhecido como Lavanda, foca em pessoas. A IA consegue escanear e processar arquivos de reconhecimento que incluem bancos de dados de redes sociais, conexões e históricos de localização que, quando combinados, resultam na identificação de alvos potenciais numa escala de um para cada cem pessoas.

Um sistema batizado de “Onde está papai” completa o trabalho do Lavanda. Ele processa todas as informações recebidas e consegue localizar e acompanhar, em tempo real, os passos de um determinado indivíduo. Esse mesmo sistema teria sido utilizado por Israel para hackear câmeras que controlam o trânsito em Teerã. As imagens foram transmitidas para servidores em Tel Aviv, permitindo acompanhar automaticamente os movimentos dos guarda-costas de altos oficiais da Guarda Revolucionária que foram ao encontro do líder supremo Ali Khamenei.

Essas informações teriam auxiliado na operação que resultou na morte dele e de parte do alto escalão do exército iraniano no primeiro dia da guerra, que completa hoje uma semana.

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