Pode até não parecer, mas Trump tem uma estratégia. A mídia não deve subestimá-lo
16 março 2026 às 19h13

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Enquanto negociadores americanos e chineses se encontravam em Paris, no último final de semana, para azeitar os preparativos antes do encontro de Donald Trump com Xi Jinping, a milhares de quilômetros dali, a guerra no Oriente Médio vai, a cada semana, moldando e redefinindo uma nova realidade que se estabelece muito além do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã. Que se expande por uma disputa muito maior envolvendo poder, ideologia que vai estabelecer um novo equilíbrio para o sistema internacional.
A Operação “Fúria Épica” reverbera não só no Oriente Médio como também na China, na Europa e por toda civilização ocidental.
Em apenas duas semanas, desde que os Estados Unidos e Israel se juntaram na empreitada militar contra o Irã, um coro curioso e insensato emergiu em parte da mídia que insiste em afirmar que Trump não tem nenhuma estratégia para este conflito.
Comentaristas afirmam que o presidente dos Estados Unidos não consegue enxergar um Irã militarmente sofisticado e resiliente, que está agindo impulsivamente e que lançou uma campanha militar sem um plano coerente. Por fim, que insiste em repetir os erros da guerra no Vietnã, quando o país ficou atolado num pântano de onde nunca conseguiu sair.
Ao mesmo tempo, outras críticas chegam por vias alternativas, mas com o mesmo intuito de desmoralizar a operação militar em curso no Oriente Médio através de comentários que questionam, por exemplo, a demora do governo Trump em encarar o Irã de frente, além de permitir que as tropas ficassem semanas estacionadas na região antes do início do conflito, ou até mesmo prolongar uma demora hesitante, que ocorreu simplesmente porque o presidente não sabia por onde começar.
Para os críticos, o presidente dos EUA é, ao mesmo tempo, irresponsável, impulsivo e confuso. Incapaz de saber pra onde vai, porque parece estar completamente paralisado.
Ainda acusam Trump de buscar objetivos grandiosos e irreais e, por isso, age de forma egoísta e vaga. Nos últimos meses, o presidente vem sofrendo bullying, diariamente, realizado pela supremacia cultural americana e ele ainda é obrigado a ouvir que os Estados Unidos estão lutando uma guerra que pertence a Israel.
Mas a realidade, como tem de ser, é menos teatral. Apesar dos discursos carregados de palavrões, a aparência nada ortodoxa e as frases de efeito muitas vezes em tom infantil, Donald Trump não é o idiota de plantão.
Tão pequeno, Israel, mesmo sendo uma potência, não tem poder de articulação para colocar os Estados Unidos num conflito se estes não quisessem ou tivessem interesses. Um presidente que foi eleito com a promessa de trazer a paz ao país não cairia acidentalmente num conflito em prospectar ganhos estratégicos antes do ataque.
A explicação mais plausível é de que os dois países aliados, baseados em interesses comuns, habilidades e entendimento mútuo, se uniram numa coalizão, quase perfeita no sentido militar, com o intuito de destruir um inimigo comum que ameaça destruí-los com armas nucleares, o que, para um deles (Israel), tornou-se uma questão existencial.
E quando isso acontece, a coordenação torna-se não somente possível, mas lógica. Israel e os Estados Unidos estão juntos na mesma empreitada porque ambos enxergaram uma oportunidade única e estratégica para confrontar, no momento, o Irã. Seus objetivos são os mesmos, senão idênticos.
Assim como a vontade de encerrar a ameaça de um regime sanguinário, que durante décadas enganou o mundo sobre o desenvolvimento de um programa nuclear com fins militares, e que se passava por pacífico enquanto enriquecia urânio para ser usado em ogivas nucleares.
Uma nova ordem internacional
A guerra contra o Irã tem potencial de, não apenas, cartografar um novo mapa do Oriente Médio, mas de “resetar” o equilíbrio das forças globais estabelecendo uma nova ordem mundial.
Não será somente Israel e o povo iraniano que sairão ganhando com o fim do regime dos aiatolás. Diversos países também vão se beneficiar ao fim do conflito.
Enquanto Israel se livra de longa e temerosa ameaça existencial, os Estados Unidos finalizam, definitivamente, um adversário persistente que, há anos, desafia sua influência e ameaça bloquear rotas de comércio global, como o Estreito de Ormuz.
Os povo iraniano tem, por sua vez, a oportunidade única de derrubar um regime teocrático brutal — que já matou milhares de manifestantes e que tritura, sem um dó, os que se opõe a ele. Países do Golf, que sempre temeram a hegemonia iraniana, de repente se viram alinhados, pelo menos por agora, à campanha capitaneada por Washington após se tornarem a “bucha de canhão” do Irã que, desde o início do conflito, bombardeia os estados vizinhos. Alianças funcionam precisamente quando os interesses convergem entre si.
Trump, ao contrário das críticas, apresenta uma estratégia coerente sobre a condução do conflito. Esta é uma guerra que não pode ser encarada como um confronto de proporções regionais. Por trás, há uma disputa global na qual a China se coloca como o maior e principal antagonista dos Estados Unidos. Ao utilizar parte de sua alta capacidade militar numa disputa regional, os EUA inevitavelmente enviam uma clara mensagem aos chineses, em que poder bélico e de decisão caminham juntos, num momento em que a diplomacia anda em baixa no planeta.
O Irã está profundamente alinhado à Pequim. As parcerias entre os dois países envolvem, há mais de uma década, a área energética, transferência de tecnologia e cooperação militar. Em termos de geopolítica, o Irã oferece à China uma posição geográfica estratégica e de grande utilidade ao disponibilizar o acesso de uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, por onde passa cerca de 30% do petróleo mundial: o Estreito de Ormuz.
Durante anos, o Irã conseguiu desenvolver mísseis balísticos, drones e uma capacidade naval criada para se impor sua ameaça sobre essa rota marítima. Ao eliminar o regime dos aiatolás, os EUA criam um vácuo de poder que rapidamente será ocupado por eles, numa ação preventiva contra forças hostis que poderiam também fazer o mesmo. Deste ponto de vista, a guerra permite a formação de um amplo esforço que deverá manter livre a navegação por Ormuz — preservando a fluidez de uma importante artéria econômica mundial.
É a China que mantém viva a economia do Irã. Nos últimos anos, Pequim tornou-se o maior comprador do petróleo iraniano a preços “camaradas” e, em troca, investe na infraestrutura do país, com parcerias em tecnologia e projetos comuns ligados à “nova rota da seda”. É por meio dessa relação que o Irã conseguiu sobreviver até aqui com as sanções econômicas impostas por países ocidentais devido o seu projeto nuclear.
Parte da confusão que envolve essa guerra é resultado do estilo próprio de Donald Trump. O presidente trabalha de forma caótica, imprevisível, mas é eficiente. A estratégia de planejamento do presidente americano é sempre ofuscada deliberadamente como método para confundir a narrativa pública. Ele sabe muito bem como manipular a mídia. Ao se recusar escancarar suas verdadeiras intenções, ele abre espaço para as dúvidas não só dos adversários, mas dos aliados que nunca sabem realmente o que, afinal, quer Donald Trump?
No entanto, para Trump, não se restringe apenas à questões estratégicas, mas ideológicas. Este é um confronto com um regime revolucionário que combina militância religiosa junto à determinação em se utilizar da barbárie contra os inimigos e até contra seu próprio povo.
De fato, é uma ameaça aos princípios fundamentais da civilização. Ao agir sem freios para conter a fúria iraniana, os Estados Unidos não só se beneficiam estrategicamente como também oferecem ao mundo a possibilidade de lutar contra uma ameaça à liberdade.
Até aqui, a parceria com Israel tem funcionado. Os Estados Unidos publicamente consideram o Estado judeu como o aliado ideal. E sabe que podem contar com Israel nessa e em outras operações militares. Nas últimas três semanas, a coalizão formada pelos dois países conseguiu eliminar praticamente todo o alto escalão do regime islâmico.
Ainda é cedo para que se possa declarar vitoriosos ou perdedores deste conflito. Mas é evidente que, com uma imensa força militar e tecnologia altamente avançada, os Estados Unidos estão vencendo a batalha. O Irã está na defensiva, mas não conseguirá derrotar americanos e israelenses. Os aiatolás não têm saída.
Parece que a estratégia de Donald Trump, pelo menos por enquanto, está funcionando — mesmo que somente ele saiba que estratégia é essa.

