Bashad al-Assad: as últimas horas de um ditador fujão. A Rússia vai protegê-lo até quando?
12 fevereiro 2026 às 21h57

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A revista americana “The Atlantic” publicou, no final de semana, 8 de fevereiro, reportagem que conta os últimos dias do ditador Bashar al-Assad, de 60 anos, como presidente da Síria e os detalhes sobre o colapso do regime.
O artigo revela que a conselheira mais próxima de Assad, Luna al-Shibl, era sua amante e que ela também arranjava encontros sexuais secretos para o ditador com outras mulheres, algumas casadas com homens que faziam parte do staff pessoal do ditador, ou seja, ministros e militares de altas patentes.
Assad não acreditava que o seu regime poderia colapsar até mesmo há poucas horas de os rebeldes conquistarem Damasco, liderados por Ahmad al-Shaara — que o substituiu como presidente da Síria.
Segundo a reportagem da “The Atlantic”, com a aproximação das forças rebeldes da capital, em 7 de dezembro de 2024, Assad ainda insistia em dizer que a “vitória estava próxima”.
No entanto, pouco depois desapareceu, no meio da noite, a bordo de um avião militar russo — sem dizer, até mesmo às pessoas mais próximas, que tinha um plano de fuga. Nem os assessores pessoais do ditador sírio sabiam que ele iria fugir e, por isso, tiveram que se virar como puderam para deixar o país — enquanto os rebeldes já celebravam nas ruas de Damasco o fim do regime que durou mais de 50 anos.
A traição de Assad, diz o artigo, foi considerada um ato tão covarde e surpreendente que muita gente demorou a acreditar que a fuga era verdadeira.
O autor da reportagem da “The Atlantic”, Robert Worth, escreveu-a baseado em dezenas de depoimentos que colheu, durante todo o ano passado, de pessoas que eram próximas ao ditador ou que pertenciam ao staff do presidente como ministros e militares que também tiveram que fugir da Síria.

Os auxiliares descreveram Assad como uma pessoa que vivia fora da realidade, obcecado por sexo e vídeo games, que poderia ter salvado seu governo se não fosse tão teimoso e arrogante.
Foi a arrogância, disseram, que o impediu de enxergar o perigo e a possibilidade de buscar asilo político em vários países da região que lhe ofereceram ajuda nos últimos dias do governo. “Ele não respondia”, contou uma fonte. Não tinha o hábito de prestar atenção àquilo que lhe diziam. “Parecia estar de mau humor e zangado com a ideia de ter que deixar a Presidência.”
O jornalista explica que essa confidência, quase obstinada de Assad, surgiu após ele sobreviver a várias tentativas de assassinato durante a guerra civil na Síria.
Em 2015, o regime esteve à beira de cair, não fosse a ajuda militar enviada pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, que conseguiu conter os rebeldes e restaurar o controle de Assad em quase todo o país. “Aquela sensação de vitória, os sírios me disseram, foi quando tudo começou a ruir”, escreveu o jornalista.
“Assad não percebeu que aquela foi uma vitória vazia, temporária. A parte do território síria estava em ruínas. A economia foi reduzida a pó e as sanções impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia pesaram ainda mais e impediram uma possível recuperação. Parte da soberania Síria estava sob o controle da Rússia e do Irã, que pressionavam Damasco ao pagamento pela proteção que garantiu a sobrevivência do regime. As tropas do governo e grupos paramilitares que, durante anos de guerra, lutaram pelo ditador, também passaram a exigir compensações.”

Worth esclarece que Assad confiava plenamente no grupo Hezbolah e em seu líder, Hassan Nasrallá. Este garantiu a “destruição total de Israel” e que isso faria com que Assad pudesse negociar a paz como quisesse.
“Em outras palavras, Bashar não teria que fazer tantos sacrifícios, pois tudo seria entregue a ele numa bandeja de prata”, escreveu o jornalista. Um ex-político do Hezbolah que falou com Worth diz que “ele vivia no mundo da fantasia e acreditava que os russos e os aiatolás é que precisavam dele. Se sentia como um rei”.
Quem matou Luna?
Worth descreve o ditador como um lunático que passava o dia jogando vídeo games no telefone enquanto o país tornava-se um narcoestado — cuja economia estava fortemente baseada na produção e venda de anfetaminas, atividades gerenciadas pelo irmão de Assad, Maher.
A reportagem revela que o ditador dispensou os assessores pessoais que havia herdado do pai (Hafez Assad foi o primeiro ditador da Síria) e os substituiu por “jovens figuras duvidosas”. Um deles era al-Shibl, uma ex-jornalista da TV Al Jazeera que se tornou sua amante.
Em julho de 2024, quando os olhos do mundo estavam voltados para a guerra e Gaza, al-Shibl foi encontrada em sua BMW numa estrada nos arredores de Damasco.
A mídia estatal reportou o “incidente” como um trágico “acidente” de carro. No entanto, o veículo estava praticamente intacto, mas o crânio dela havia sido esmagado. “Rumores se espalharam rapidamente de que tinha sido assassinada por ordens que vieram de Teerã ao descobrirem que passava informações para os israelenses”, diz Worth. Outras chegaram a afirmar que foi Assad quem mandou matar a ex-amante.
Worth descreve que o capítulo final do regime de Bashar al-Assad começa em novembro de 2024 quando os rebeldes avançam e tomam a cidade de Allepo.
Quando Allepo caiu, Assad estava em Moscou, na Rússia, para acompanhar a dissertação final do doutorado do filho.
O ditador contava com a proteção de Putin. Mas, quando se encontrou com Assad rapidamente, o presidente deixou claro que a Rússia não iria lutar essa guerra em seu nome.
Quando retornou para Damasco, Allepo já era dos rebeldes. No dia 7 de dezembro de 2024, Assad desligou o telefone. Eram 6 da tarde quando retornou do Palácio Presidencial para sua casa, no bairro de al-Malki.
Assad parecia calmo e reafirmou ao sobrinho lyad Maklouf que não havia com o que se preocupar porque a Arábia Saudita e os Emirados Árabes iriam conter as forças rebeldes. Maklouf seria morto naquela mesma noite enquanto fugia de carro para o Líbano.
Às 8 da noite, o ditador é informado que os rebeldes haviam tomado a cidade de Homs. O pânico toma conta de todo o seu “entourage”. Mas Assad insistia que a ajuda estava chegando pelo sul do país e que a capital seria toda cercada. Não era verdade e ele sabia disso.
“Nas horas finais, ele oscilava em momentos que parecia completamente alucinado, afirmando que a vitória estava próxima, e outras vezes entrava em desespero. Seu estado lembrava Hitler em suas horas finais no bunker em Berlin”, descreve Worth.
Às 11 da noite, Mansour Azzan, seu assessor pessoal, contou a Worth que chegou à casa de Assad acompanhado por um grupo de militares russos. Eles trouxeram para Assad vídeos que mostravam que as tropas do governo não estavam mais lutando.
À uma da manhã, Assad foi informado que seu círculo pessoal de amigos já implementava uma fuga em massa pelo litoral.
Às duas da manhã, Assad reapareceu no Palácio Presidencial e ordenou que seu motorista levasse algumas vans para que fossem carregadas com seus objetos pessoais o mais rápido possível, enquanto militares russos o aguardavam na porta de sua residência oficial.
Seus assessores acreditavam que ele tinha ido ao Palácio para transmitir uma mensagem à nação de que se rendia. Estavam enganados.
Às 4 da manhã, Assad reaparece na porta de casa acompanhado de seu filho e de dois assessores. Foi quando os outros entenderam que estava fugindo. Alguns ainda insistiram em acompanhá-lo, mas o ditador disse, friamente, que não havia espaço para eles.
O motorista que o levou para o aeroporto perguntou: “O senhor vai abandonar seu povo?”. Assad respondeu: “Vocês pretendem ainda lutar por mim?”. Em seguida, virou-se e desapareceu na escuridão. Os russos o esperavam.
Assad foi levado para Moscou, onde sua mulher e filhos o aguardavam. Desde então, o novo governo da Síria vem pedindo sua extradição em troca de uma negociação com os russos sobre as bases militares que sobraram na Síria. Por enquanto, Putin ainda não respondeu.
O presidente russo será leal ao ex-ditador? Como se sabe, no campo político, as lealdades são provisórias. Ademais, qual é a serventia de Assad para Putin? Talvez nenhuma — exceto como instrumento de negociação. Portanto, que o ex-dirigente da Síria coloque as barbas de molho e guarde seus bilhões não apenas na Rússia.

