Há algo de profundamente perverso, e cínico, na ideia de um “Conselho de Paz” liderado por Donald Trump. Não apenas pelo histórico do presidente dos Estados Unidos em política externa, mas sobretudo pela lógica que estrutura o grupo: um arranjo personalista, hierárquico, sem legitimidade internacional e conduzido por líderes que, direta ou indiretamente, acumulam responsabilidade por guerras, ocupações, genocídios e violações sistemáticas de direitos humanos.

Chamar de “paz” um conselho presidido indefinidamente por Trump é uma inversão moral gritante. Trump é um líder que apoiou irrestritamente o genocídio israelense em Gaza, relativizou crimes de guerra, deslegitimou organismos multilaterais e tratou conflitos internacionais como peças de barganha eleitoral ou negócios imobiliários. A proposta não nasce de um compromisso com a diplomacia, mas de uma obsessão pelo controle e pela centralização do poder.

O desenho institucional do conselho deixa isso explícito. Trump como presidente vitalício, com poder de veto, de destituição de membros e influência direta sobre decisões globais. Mandatos temporários condicionados a pagamentos bilionários para se tornarem permanentes. Nenhuma clareza sobre instrumentos legais, mecanismos de execução ou relação com o direito internacional. O que se apresenta não é uma arquitetura de paz, mas um clube político comandado por Washington, onde a fidelidade ao líder importa mais do que princípios universais.

A tentativa de esvaziar, substituir ou rivalizar com a ONU não é coincidência. O multilateralismo sempre foi um incômodo para projetos autoritários e unilateralistas. Organismos internacionais impõem limites, regras, constrangimentos morais. Já um conselho sob medida permite decisões rápidas, arbitrárias e alinhadas a interesses estratégicos específicos, ainda que isso custe vidas civis, soberania de povos ou estabilidade regional.

O elenco de nomes que orbitam a iniciativa também diz muito. Diplomatas de guerra, operadores de bastidores, figuras associadas a intervenções fracassadas no Oriente Médio e a processos de “pacificação” que deixaram rastros de destruição. São arquitetos do caos travestidos de mediadores. Gente que fala em reconstrução enquanto normaliza bombardeios, deslocamentos forçados e cercos humanitários.

Não é por acaso que países tradicionalmente críticos aos EUA demonstram cautela, enquanto aliados mais frágeis ou regimes isolados veem no conselho uma oportunidade de reabilitação política. A adesão não se dá por convicção pacifista, mas por cálculo. O risco, nesse cenário, é transformar a paz em moeda diplomática e a guerra em ferramenta de gestão global.

O convite feito ao presidente Lula (PT) expõe um dilema relevante. O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma política externa baseada no diálogo, na mediação multilateral e no fortalecimento do sistema internacional. Participar de um conselho concebido para concentrar poder nas mãos de um único líder significaria romper com essa tradição e legitimar um projeto que flerta com o autoritarismo global.

No fim das contas, o Conselho de Paz de Trump não resolve o problema central dos conflitos contemporâneos: a desigualdade de poder, a impunidade dos fortes e a banalização da morte de civis. Pelo contrário, ele cristaliza essas distorções. Um conselho formado por líderes que toleram, promovem ou se beneficiam da violência não constrói a paz, administra o massacre.

Chamar isso de “paz” é uma afronta às vítimas. E aceitar esse arranjo, sem crítica, é compactuar com uma ordem internacional onde genocidas se sentam à mesa como árbitros morais do mundo.

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