O 7 de Setembro de 2026 talvez seja lembrado menos pelo desfile oficial em Brasília do que pela tentativa da extrema direita de transformar a data em um ensaio da campanha presidencial. A escolha da Avenida Paulista não foi casual. O local foi um dos principais palcos de Jair Bolsonaro nos últimos anos e se tornou uma espécie de território simbólico do bolsonarismo. Ao ocupar novamente o espaço, Flávio Bolsonaro tenta fazer algo que é mais difícil do que simplesmente reunir militantes: provar que consegue herdar a capacidade de mobilização do pai.

Essa é a questão central da eleição para a extrema direita em 2026.

Jair Bolsonaro não pode ser candidato. Flávio, escolhido para representar a família na disputa presidencial, precisa convencer o eleitorado de direita de que o sobrenome Bolsonaro continua sendo eleitoralmente competitivo mesmo sem a presença do patriarca na urna. O desafio é transformar herança política em voto.

O ato desta segunda-feira funciona, nesse sentido, como um teste.

A campanha de Flávio apostou na Paulista para medir a capacidade de mobilização do bolsonarismo e produzir imagens capazes de circular nas redes sociais. A estratégia é conhecida: grandes concentrações, bandeiras brasileiras, camisetas verde e amarelas, discursos contra o governo Lula da Silva (PT) e, sobretudo, um inimigo institucional claramente identificado. Esse inimigo é Alexandre de Moraes.

Não se trata apenas de atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal. Mas sim de transformar Moraes em um personagem eleitoral.

A extrema direita brasileira construiu boa parte de sua identidade eleitoral a partir da ideia de confronto. Primeiro foram o PT e Lula. Depois, o sistema político. Em seguida, a imprensa, as instituições eleitorais e o Supremo. A campanha de 2026 acrescenta um novo elemento: a crise interna do STF como matéria-prima para uma narrativa de perseguição.

O slogan “Fora Lula, fora Moraes” resume a estratégia.

A fórmula é eleitoralmente eficiente porque comprime uma realidade institucional complexa em dois adversários facilmente identificáveis. De um lado, o presidente que representa a esquerda. Do outro, o ministro que se tornou o principal símbolo das decisões judiciais contra Jair Bolsonaro e seus aliados.

O objetivo é fazer com que o eleitor enxergue a eleição não como uma disputa entre diferentes projetos de país, mas como um plebiscito sobre dois personagens e, principalmente, sobre a continuidade ou não do bolsonarismo.

A campanha de Flávio tenta, portanto, deslocar o centro da discussão. Quanto mais a eleição for sobre economia, serviços públicos, emprego, saúde e educação, maior a necessidade de apresentar propostas capazes de competir com o governo. Quanto mais a eleição for sobre Bolsonaro, Moraes, STF e perseguição política, mais confortável tende a ser o terreno para o candidato que carrega o sobrenome Bolsonaro.

É uma estratégia de identidade, não necessariamente de programa.

Flávio Bolsonaro tem uma tarefa particularmente difícil: ser Bolsonaro sem ser Jair Bolsonaro.

O pai construiu uma relação direta com seu eleitorado. Era capaz de transformar uma manifestação em demonstração pessoal de força. A imagem do líder no meio da multidão era parte essencial da mensagem. O filho precisa reproduzir esse fenômeno sem possuir exatamente a mesma trajetória, personalidade ou capacidade de mobilização.

Por isso a data ganha importância.

A campanha precisa produzir uma fotografia: Flávio diante de uma multidão, cercado pelas principais lideranças da direita, falando em nome de Bolsonaro e confrontando seus adversários. A imagem funciona como uma espécie de certificado de sucessão.

A questão é que herdar votos é diferente de herdar uma marca.

O bolsonarismo continua existindo como identidade política, mas a eleição presidencial exige ampliar a base para além dos militantes mais fiéis. E esse talvez seja o principal dilema da extrema direita nesta campanha: quanto mais radicaliza o discurso para manter sua base, mais dificuldade pode encontrar para alcançar o eleitor moderado; quanto mais suaviza o discurso para ampliar o eleitorado, maior o risco de perder a identidade que tornou o bolsonarismo eleitoralmente relevante.

O 7 de Setembro expôs essa contradição.

A presença de figuras como Tarcísio de Freitas no ato da Paulista também é reveladora. A direita brasileira não é monolítica. Existe uma parcela que deseja manter a mobilização bolsonarista em seu estado permanente de confronto e outra que pretende transformar essa energia em uma alternativa eleitoral mais ampla.

Tarcísio representa justamente uma possibilidade diferente: preservar parte do eleitorado bolsonarista, mas reduzir o grau de conflito institucional.

Flávio, ao contrário, precisa manter a temperatura alta.

Isso explica a centralidade de Moraes no discurso do 7 de Setembro. A crise institucional oferece ao candidato aquilo que uma campanha presidencial precisa desesperadamente: um assunto capaz de mobilizar sua base diariamente.

Cada decisão do Supremo pode virar conteúdo. Cada divergência entre ministros pode virar vídeo. Cada crítica ao Judiciário pode ser convertida em argumento de campanha.

É uma máquina eleitoral baseada na reação.

O risco é evidente: uma campanha construída exclusivamente sobre o conflito pode ter dificuldade para responder à pergunta mais simples feita pelo eleitor no momento decisivo: “O que esse candidato fará se for eleito?”

A promessa de interferir na composição futura do Supremo, feita por Flávio durante o ato, demonstra que o tema não é periférico em sua estratégia. A Corte tornou-se parte do próprio programa político do candidato.

O raciocínio é simples: se o bolsonarismo considera que foi derrotado ou perseguido por instituições durante os últimos anos, a volta ao Planalto precisa significar também uma mudança na relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Essa narrativa tem potencial para mobilizar eleitores que consideram excessivos os poderes do Supremo. Mas também carrega um risco político importante: transformar a disputa pela Presidência em uma disputa pelo controle das instituições.

A extrema direita precisa, portanto, administrar uma contradição.

Ao mesmo tempo em que procura convencer setores mais amplos da sociedade de que amadureceu politicamente, continua utilizando algumas das mesmas bandeiras que marcaram o período mais radical do bolsonarismo.

A eleição de 2026 será, em parte, uma tentativa de responder se essa combinação funciona.

Há ainda uma dimensão que o 7 de Setembro evidencia: a manifestação de rua já não precisa ser medida apenas pelo número de pessoas presentes. Ela precisa ser medida pela capacidade de gerar conteúdo.

A multidão na Paulista é matéria-prima para vídeos curtos, fotografias, cortes de discursos, transmissões ao vivo e mensagens direcionadas a públicos específicos. A rua produz a imagem; as redes fazem a imagem circular.

A extrema direita brasileira aprendeu essa lógica antes de boa parte dos adversários. O evento presencial é apenas uma etapa de uma campanha digital permanente.

Nesse modelo, uma manifestação pode ser considerada bem-sucedida mesmo que não reproduza as multidões de Jair Bolsonaro, desde que gere material suficiente para alimentar a narrativa de crescimento da candidatura.

É por isso que o tamanho da manifestação importa, mas não é tudo.

A pergunta estratégica é outra: o ato conseguiu produzir a sensação de que Flávio Bolsonaro é capaz de liderar a direita? Essa é a métrica que interessa.

A grande aposta da extrema direita em 2026 é que Bolsonaro seja maior do que Jair Bolsonaro. Ou seja: que o bolsonarismo sobreviva ao próprio Bolsonaro.

Flávio precisa provar que existe uma identidade política capaz de atravessar a família e se transformar em projeto de poder. Para isso, precisa conservar os elementos que deram origem ao movimento, conservadorismo nos costumes, antipetismo, crítica ao STF, discurso de segurança pública, nacionalismo e forte presença digital e, ao mesmo tempo, apresentar uma candidatura suficientemente ampla para disputar o eleitorado que decide eleições no centro.

O 7 de Setembro é uma ferramenta perfeita para essa operação porque reúne todos esses elementos.

É uma data nacional. É carregada de símbolos patrióticos. Permite grandes manifestações. Tem forte apelo visual. E ocorre praticamente na reta final do primeiro turno.

Não há acaso na escolha do feriado. A eleição será maior que a manifestação

O problema para Flávio Bolsonaro é que uma eleição presidencial não pode ser vencida apenas pela capacidade de mobilizar os já convertidos.

A extrema direita possui um eleitorado fiel, organizado e altamente engajado. Isso é uma vantagem enorme. Mas a vitória exige mais do que fidelidade. Exige expansão.

Pesquisas recentes mostram uma disputa mais competitiva entre Lula e Flávio do que aquela observada no início do ano. Um levantamento da Veritá divulgado neste domingo, 6, por exemplo, colocou Flávio numericamente à frente no primeiro turno, com 38,9%, contra 38,4% de Lula, dentro da margem de erro. Outros levantamentos recentes também apontaram aproximação entre os dois nomes.

Isso ajuda a explicar a importância atribuída ao 7 de Setembro.

Se a candidatura está crescendo, o ato pode ser apresentado como demonstração de força. Se não crescer, a manifestação ainda pode servir para manter a militância mobilizada e pressionar aliados de direita a aderirem à candidatura.

É uma aposta de alto valor simbólico. Mas há uma diferença entre parecer forte e conquistar maioria.

O 7 de Setembro pode demonstrar que o bolsonarismo continua vivo. Não demonstra, sozinho, que ele é capaz de voltar ao Palácio do Planalto.

Essa é a verdadeira batalha da extrema direita em 2026: não ressuscitar Jair Bolsonaro, isso já não é possível eleitoralmente, mas transformar o bolsonarismo em uma força política capaz de sobreviver a ele.

Flávio Bolsonaro tenta fazer isso pela fórmula que consagrou o pai: rua, redes, símbolos nacionais, polarização e um inimigo permanente.

Resta saber se o Brasil de 2026 ainda responde da mesma maneira a essa fórmula.

O 7 de Setembro foi, nesse sentido, menos uma comemoração da Independência do que um experimento eleitoral.

A extrema direita colocou seu candidato no palco mais simbólico que possui, o cercou de seus principais líderes, recuperou a bandeira nacional, escolheu o Supremo como adversário e tentou transformar a manifestação em prova de força.

Agora começa a parte mais difícil. Transformar a multidão em voto. E, depois, transformar o voto em poder.

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