“População aguarda para ver Charles e Camilla acenarem da sacada do Palácio”. O título é, sim, em português e estampava a capa do UOL, considerado o maior portal de notícias do País, nesta manhã de sábado, 6. Abaixo e ao lado na página, mais fileiras de chamadas sobre o mesmo tema.

É de ficar impressionado como as emissoras de TV e os principais portais noticiosos do Brasil e do mundo, ainda se rendem a uma cobertura interminável das cerimônias da família real do Reino Unido.

Mas, pior do que ficar refém dos órgãos de comunicação de massa que insistem em noticiar um ritual exógeno e decadente, é quando a pantomima caríssima tem como protagonista Charles Philip Arthur George, o ex-príncipe Charles, o agora rei Carlos III, ou “rei Charles” – nome que é quase uma cacofonia para os mais antigos, nos quais desperta memórias afetivas de sons agradáveis nas antigas vitrolas.

Noves fora o tom das transmissões, mais maçantes do que sessão de homenagens na Assembleia Legislativa. O novo monarca britânico é uma mala sem alças que parece acreditar que seu sangue é mesmo azul. E quem entra no portal de notícias se vê obrigado a ler que ele disse “não vim para ser servido, mas para servir”. Uma frase que já saiu de bocas bem menos hipócritas, diga-se.

Não que a imprensa brasileira não devesse cobrir, até porque o Brasil está lá oficialmente representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e há mais na Inglaterra do que a vã filosofia do Palácio de Buckingham. Porém, a overdose de algo que pouquíssimo diz respeito a nossa realidade por aqui – mais do que isso, à contemporaneidade por inteiro – chega a ofender quem tem um pouco mais de senso crítico. Nessas horas, é fácil entender os punks londrinos e com eles se solidarizar…

Antes de o rei Charles – o verdadeiro Ray não sai da cabeça – acenar da janela para sua plebe nada rude, melhor desligar a TV e iniciar uma leitura, talvez sobre Dom Pedro II, alguém realmente nobre e interessante (sugestão: “As Barbas do Imperador”, de Lilia Schwarcz).

Ou, então, se quiser descansar os olhos, depois desse circo armado, abra os ouvidos para “Georgia on my Mind”, na voz do Ray Charles legítimo.