A escolha de Erika Hilton para assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados reacendeu um debate sensível e necessário na sociedade brasileira. Trata-se de um tema que exige serenidade, respeito e capacidade de ouvir diferentes pontos de vista. Ao mesmo tempo em que o país avança na discussão sobre diversidade e inclusão, também precisa refletir, com responsabilidade, sobre a representação institucional em espaços criados para tratar de demandas específicas.

É fundamental afirmar, antes de qualquer coisa, que pessoas trans devem ser respeitadas em sua dignidade, identidade e direitos. A defesa da cidadania plena para todos é um princípio básico de qualquer sociedade democrática. Combater preconceitos, violência e discriminação contra pessoas trans é um dever coletivo e uma pauta legítima dentro das instituições públicas.

No entanto, a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher possui um simbolismo próprio. Esse colegiado foi criado justamente para discutir, propor e acompanhar políticas públicas voltadas às mulheres, considerando desafios históricos como desigualdade salarial, violência doméstica, saúde feminina, maternidade e participação política. São temas profundamente ligados à trajetória social e biológica das mulheres ao longo das décadas.

A indicação de uma mulher trans para presidir esse espaço acaba levantando questionamentos sobre a adequação dessa escolha. Não se trata de negar direitos ou espaço político a quem quer que seja, mas de refletir sobre a natureza da representação em determinadas estruturas institucionais. Em um país com tantas mulheres atuantes, qualificadas e experientes no debate sobre políticas públicas para mulheres, a decisão desperta estranhamento.

A política é também feita de símbolos. A forma como cargos são ocupados transmite mensagens à sociedade. Quando uma comissão criada para tratar de questões específicas das mulheres é presidida por alguém cuja trajetória se insere em outro debate identitário, abre-se inevitavelmente um campo de controvérsia que poderia ser evitado.

Isso não significa que Erika Hilton não tenha legitimidade política ou capacidade de atuação parlamentar. Pelo contrário, sua eleição demonstra que ela conquistou espaço no debate público e possui representatividade entre seus eleitores. A questão, porém, não é sobre capacidade individual, mas sobre a coerência institucional da escolha feita dentro da Câmara dos Deputados.

O Brasil enfrenta desafios urgentes quando se trata da proteção das mulheres. A violência doméstica continua alarmante, as desigualdades no mercado de trabalho persistem e muitas políticas públicas ainda precisam avançar. A Comissão da Mulher deveria concentrar seus esforços em fortalecer essas pautas e ampliar a voz das mulheres que vivenciam diariamente essas realidades.

Diante disso, surge uma reflexão legítima para o debate público: em um país com tantas lideranças femininas experientes, preparadas e engajadas na defesa dos direitos das mulheres, não haveria outras parlamentares mais adequadas para ocupar esse espaço? Afinal, não temos mulheres capacitadas para assumir esse cargo?

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