As redes sociais parecem potencializar o uso da mentira e da produção de ignorância por parte de setores da sociedade no debate público. Em uma sociedade com informação abundante, de todas as origens, profundidade e alcance, vive-se a insegurança de não saber se aquilo que se chegou no celular é uma verdade ou uma mentira. O sujeito iluminista que usava a razão para desconfiar de doutrinações e dogmas cede lugar para a busca de informações que apenas comprovem suas crenças. Diversos analistas recorrem ao pensamento de Hannah Arendt para compreender esse processo, já que a autora se debruçou para analisar as estratégias que são usadas por quem quer manipular a opinião pública.

Em pleno século XXI e diante de tantas informações, como falar de ignorância?  “A ignorância é resultado desse mundo apequenado pela ausência de possibilidade de interlocução”. A resposta é de Adriano Correia, professor de filosofia na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estudioso da autora que se tornou uma das teóricas políticas mais influentes do século 20 e desenvolveu o conceito de pluralismo político – um dos princípios básicos das democracias modernas. O professor Adriano é o entrevistado da edição impressa deste domingo, 14, do Jornal Opção. 

Adriano explica que Arendt analisa a ignorância por um período de 25 anos, desde “As origens do Totalitarismo” até seus últimos textos. De acordo com ele, a autora entende o fenômeno da ignorância no sentido de uma incapacidade de compreensão, que deriva do isolamento das pessoas e da ausência de espaços de interlocução. “É preciso colocar conhecimento em perspectiva, onde exista o contato com o contraditório, para que se aprofunde as questões e os pontos de vista”, explica.

O professor comenta que Arendt dizia que quem se encantou com o nazismo foram as pessoas que nunca participaram sequer de uma discussão ou uma reunião de condomínio. “A ignorância tem uma dimensão muito profunda, já na origem do totalitarismo, com essa experiência de você ter um mundo apequenado pela ausência de possibilidade de interlocução”, ressaltou Adriano.

Sobre a mentira

O professor explica que Arendt se preocupou com o tema da mentira na área da política. Ela se assustou quando o livro dela Eichmann em Jerusalém foi difamado por coisas hiperbolizadas e aspectos que ela não disse.  Adriano explica que a autora criou um conceito em um texto que tem relação direta com os fenômenos contemporâneos das fake news que seria a mentira organizada – com a criação de narrativas. A mentira organizada atacaria verdades factuais.

O pesquisador explica “os nazistas sabiam que pessoas isoladas acreditam em teorias da conspiração. Pessoas que não tem interlocução nem familiar. Se você não tem nenhum tipo de espaço contraditório, tem dificuldade de entender o sistema político (…) e passa a existir uma hipersimplificação dos processos”.

Adriano explica que “a consciência em grande medida também tem relação com essa capacidade de julgar. Mas, como julgar quando você está o tempo inteiro diluindo o tecido da realidade factual sem ter um ambiente que permita um manejo complexo desses dados, um distanciamento desses fatos manipulados, como compreender o fenômeno da mentira? Como compreender que as pessoas sistematicamente promovam a mentira?”, reflete.

De acordo com ele, a ideia de um adormecimento da consciência – no sentido de uma recusa a julgar – depende de uma manipulação consentida. “A manipulação não funciona se você não for um agente engajado do processo de auto engano e de engano generalizado”, explicou.