Por que o Irã quer destruir Israel?
23 março 2026 às 18h54

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Em 1979, após a Revolução Islâmica, a República do Irã estabeleceu a destruição de Israel como essência de sua ideologia e política de estado. Foi Ali Khamenei, o ex-líder supremo, que, em 2015, marcou a data para aniquilação do estado judeu: 2040. Três anos depois, em 2018, o então ministro do interior do Irã, Hossein Amir-Abdollahian revelou que o regime dos aiatolás preparava um plano operacional que seria implementado, em breve, para a destruição de Israel, mas que não poderia dar mais detalhes. No entanto, em 2024, documentos encontrados na Faixa de Gaza pelas Forças de Israel revelaram ampla coordenação entre o Hamas, Hezbollá e o Irã que acabou resultando no massacre de 07 de outubro de 2023.
Um exame sobre as motivações iranianas para destruir Israel evidencia uma complexa rede que abrange questões ideológica, religiosa, geopolítica, política e histórica que, juntas, formam a visão de Teerã sobre Jerusalém.
Primeiramente, a essência da hostilidade do regime islâmico está enraizada em puro antissemitismo que sempre permeou a ideologia do fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini. No seu principal trabalho “O governo islâmico”, Khomeini retrata os judeus com “inimigos do Islã”, uma força ardilosa que vem agindo ao longo da história para ferir e enfraquecer o Islã.
De acordo com a visão do aiatolá, os Judeus procuram, desde o início do Islã, minar sua expansão distorcendo o Alcorão. Seu sucessor, Ali Khamenei, deu continuidade a essa ideia. Apesar de Khamenei ter dito várias vezes que sua oposição era direcionada ao Sionismo e não aos Judeus, na prática, ele sempre promoveu a política de antissemitismo. Khamenei negava repetidamente o Holocausto, recebia os que negavam o Holocausto mundo afora, descrevia Israel como um câncer e promovia propaganda antissemita através do sistema educacional do Irã e da mídia estatal. O material educacional e cultural distribuído no país descreve os Judeus como um povo que busca dominar o mundo.
Paralelo ao antissemitismo, a hostilidade contra Israel também é baseada numa visão mundial anti-imperialista. De acordo com a ideologia do regime, Israel é visto como um posto avançado do imperialismo Ocidental, liderado pelos Estados Unidos, no Oriente Médio. Essa percepção foi profundamente influenciada pelo teórico da Revolução Islâmica, Ali Shariati, que misturou ideias Marxistas com a interpretação islâmica. Rouhulla Khomeini adotou os termos “opressores” e “oprimidos” e os infundiu ao entendimento teológico, em contraste às questões sócioeconômicas estabelecidas pela Sharia, a lei islâmica.
Na visão de Khomeini, os “oprimidos” são os Muçulmanos que sofrem sob o domínio ocidental, enquanto que os “opressores” são as forças do Ocidente e seus aliados regionais. Neste contexto, Israel é apresentado como parte da hegemonia americana e sua destruição é vista como condição necessária para libertar a região da influência ocidental e o estabelecimento de uma ordem regional que tem o Irã como força central.
A questão geopolítica é outra motivação chave que serve ao Irã como instrumento de influência no mundo árabe e Muçulmano. Apesar de ser um país Xiita numa região predominantemente Árabe-Sunita, o Irã conseguiu manipular a questão Palestina ao ponto de desenvolver legitimidade regional para exportar a Revolução Islâmica. Lá em 1979, Khomeini declarou o “Dia de Jerusalém” ou “Qudsday”, que acontece todos os anos na última sexta-feira do Ramadã e serve como motivo de manifestações contra Israel em todo país.
Ao enfatizar o comprometimento do Irã pela “Libertação da Palestina”, o país conecta-se automaticamente ao mundo árabe. Foi através dessa estratégia que o país estabeleceu o “Eixo de Resistência”, uma rede organizações e milícias que inclui o Hamas e a Jihad Islâmica em Gaza, o Hezbollá no Líbano, os Houties no Iêmen…, e fez da oposição à Israel uma “língua comum” entre esses grupos de diferentes localidades, o que permitiu que se consolidasse como uma de influência regional mitigando a suspeição Sunita de suas ambições.
As questões ideológicas e geopolíticas caminham juntas à justificativa religiosa-jurisprudencial. Segundo a doutrina desenvolvida pelo regime, Israel/Palestina é considerado uma “waqf”, uma doação religiosa que não pode ser abandonada. A partir destes termos, surge a versão de que a soberania judaica sobre a área que constitui Israel é uma violação da lei divina.
Dessa forma, o conflito não se resume apenas a questões políticas, mas pela disputa por um lugar considerado sagrado. Foi nesse contexto que Khomeini emitiu uma “fatwa” (um parecer jurídico baseado na lei islâmica que deve ser cumprido por qualquer muçulmano) conclamando os muçulmanos a agirem pela destruição de Israel, estabelecendo essa luta como uma obrigação religiosa. Nos últimos anos, figuras centrais do regime, entre eles, o Comandante das Forças Quds, Esmail Qaani, em 2021(eliminado por Israel no atual conflito), o Comandante da Guarda Revolucionária Ali Fadavi, em 2017 (assassinado por Israel no atual conflito) assim como o aiatolá Nuri Hamedani, em 2023 (eliminado por Israel no atual conflito) lincaram a “destruição de Israel” à chegada do “Hidden Imã” que, de acordo com a crença Xiita, vai aparecer na Terra nos “últimos dias”. A vitória sobre Israel e o enfraquecimento do Ocidente são as condições para o reaparecimento do “Hidden Imã” que chegará trazendo a redenção aos Xiitas.
A hostilidade aos israelenses também está diretamente ligada à luta durante a Revolução contra o Xá Reza Pahlavi. Oficialmente, de acordo com o discurso iraniano, Israel é retratado como uma das forças que ajudaram e treinaram a SAVAK, polícia secreta do Xá, incluindo métodos de interrogatório e tortura usados contra a oposição, entre eles discípulos de Khomeini. Por isso, a destruição de Israel é colocada como “justiça histórica” e vingança por aquele período.
Finalmente, a hostilidade do Irã contra Israel serve como justificativa do regime pela falência de assuntos domésticos como questões econômicas e sociais. A existência permanente de um inimigo externo ajuda a consolidar apoio em torno da liderança e justifica a natureza do sistema autoritário. Sem um inimigo como Israel, o regime teria dificuldade para explicar as crises persistentes.
A destruição de Israel é um dos elementos que compõe a identidade e a estratégia regional do regime dos aiatolás. Portanto, não há remota possibilidade de mudança de rumo nessa questão, mesmo com a chegada do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, ou qualquer outra figura, enquanto essa ideologia permanecer enraizada pela Revolução Islâmica. Dessa forma, para Israel, a permanência do regime no poder significa que, no futuro, essas duas forças regionais têm encontro marcado numa próxima batalha em que o Irã vai tentar cumprir o legado de Khomeini e Khamenei.

