Imagens da mídia estatal iraniana mostram correntes humanas se formando ao redor de usinas termoelétricas e de dessalinização, além de outros locais-chaves que formam a infraestrutura do país — como a usina de energia elétrica de Tarbriz e a ponte de Dezful (a maior do Irã) —, à medida que Teerã se prepara para um ataque maciço dos Estados Unidos e Israel.

De acordo com a agência de notícias Tasnim, a presença de civis nesses locais foi a alternativa do governo iraniano para tentar impedir a destruição de lugares sensíveis que, certamente, estarão na mira de Donald Trump, que alertou para a possibilidade de possíveis ataques contra a infraestrutura iraniana caso o regime islâmico não reabra o Estreito de Hormuz até as oito horas da noite em Washington.

Não é a primeira vez que o regime usa civis como escudos humanos. Em 1981, durante a guerra Irã x Iraque, mais de 1 milhão de iranianos morreram no conflito — pelo menos 500 mil eram civis. Pessoas que foram usadas como escudos humanos para interromper a máquina de guerra de Sadam Hussein.

No recente conflito em Gaza, o Hamas, grupo terrorista palestino financiado pelo Irã, também usou civis como escudos humanos. O Hezbollah, no Líbano, utiliza a mesma tática. Uma forma de manchar a reputação das forças inimigas alegando que civis estão sendo mortos aleatoriamente no conflito — o que é um crime de guerra.

Regimes islâmicos radicais como o do Irã, Hamas e Hezbollah são regidos pela lei islâmica e, por meio dela, garantem às suas populações a “graça de Alá” através do martírio. Por isso, ao convocarem os iranianos para protegerem usinas, pontes e outros locais do país com o próprio corpo, o cidadão religioso sabe que, caso morra num ataque, estará lutando por Alá e pelo Islã. As imagens que vem do Irã mostram muçulmanos xiitas como escudos humanos.

Há poucas horas do fim do prazo final para que o Irã aceite um acordo e abra o Estreito de Hormuz, o presidente dos Estados Unidos afirmou que “uma civilização inteira morrerá nesta noite”. Trump disse ainda que “não quer que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”. Ele responsabilizou o regime dos aiatolás, no comando do país há 47 anos, pela tragédia iraniana.

Donald Trump e a bandeira 2
Donald Trump pode destruir a infraestrutura do Irã | Foto: Reprodução

“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá. Contudo, agora que temos uma mudança de regime completa e total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer. Quem sabe? Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!”, afirmou Trump.

A Guarda Revolucionária recusa cessar-fogo

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, acusa os comandantes da Guarda Revolucionária, tidos como responsáveis pelo fracasso das negociações por um cessar-fogo e pela escalada do conflito. Na segunda-feira, 6, à noite, no gabinete presidencial, em Teerã, Pezeshkian confrontou Hossein Taeb, o último comandante do alto escalão militar que ainda está vivo e que, neste momento, atua como chefe maior da Guarda Revolucionária. Segundo agências internacionais, os dois tiveram um embate pesado logo após o discurso final de Donald Trump.

Durante o encontro, Pezeshkian acusou Ali Abdohalli, comandante geral do Centro Comando Khatam al-Anbyia, de agir unilateralmente e escalar o conflito com ataques aos países do Golfo, especialmente contra as infraestruturas locais. Pezeshkian alegou que esses ataques minaram qualquer possibilidade de um cessar-fogo e que isso levaria a República Islâmica à catástrofe. Ele também alertou que a economia não conseguirá manter o país em guerra por mais tempo e que o colapso econômico do Irã é inevitável sob essas condições.

O confronto entre os dois líderes iranianos demonstra uma mudança radical na estrutura de poder do Irã: de um lado, os militares e os serviços de inteligência e, do outro, um governo legitimamente eleito e o alto clérigo formado pelos aiatolás.

A tensão entre o presidente do Irã e o comando da Guarda Revolucionária, principalmente com Vahidi, aumentou desde que Pezeshkian passou a criticar a forma como a guerra estava sendo conduzida e alertar para o impacto do conflito na vida dos iranianos e da economia do país. A autoridade do presidente continua encolhendo a cada dia de conflito, e os militares resistem às suas decisões, acenando para uma provável tomada de poder.

Segundo a Agência Internacional Iraniana, as condições para a manutenção da Guarda Revolucionária e das forças Basji pioram a cada dia. Já há relatos de falta de comida e suprimentos de primeira necessidade, como de higiene.

Nas últimas 72 horas, com a destruição das bases militares, as tropas já não têm mais onde dormir. Muitos soldados são vistos dormindo nas ruas e muitos têm acesso a apenas uma refeição por dia. Já há contingente sendo forçado a comprar sua própria comida, mas, com a destruição dos bancos e dos caixas eletrônicos, os salários estão atrasados. A falta de dinheiro também é um componente preocupante. O comando da Guarda Revolucionária teme o aumento da frustração entre os pelotões, que poderá levar à deserção em massa.