Turismo de parto: quanto custa, afinal, vir ao mundo no lugar ‘ideal’?
06 outubro 2025 às 17h44

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Thomas Cook, o visionário do turismo moderno no século XIX, provavelmente se remexe no caixão. Imaginava ele excursões, momentos de lazer e a alegria da descoberta. Jamais poderia prever que o próprio ato de nascer se tornaria uma atração turística.
Pois bem, estamos na era da cidadania de berço – um mercado tão bem estabelecido que transforma o parto em um pacote turístico e o berço, no destino final.
Existe todo um sistema complexo por trás desse aparente milagre: empresas especializadas, consultores, tradutores, advogados e, claro, obstetras focados em partos internacionais. É a globalização da maternidade, com agências que oferecem desde a escolha do hospital até o enxoval completo, mas com um bônus que nenhuma agência tradicional pode prometer: um passaporte novinho em folha para o bebê.
O preço? Aproximadamente R$ 140 mil. Um investimento considerável para quem busca garantir o “nascimento certo” no “lugar certo”. A futura mamãe viaja com visto de turista, mas o hotel é apenas uma breve parada. A verdadeira meta é a sala de parto. É um tipo de turismo que, curiosamente, não é turismo – um pseudo-turismo, com um objetivo bem definido: gerar um cidadão americano.
Alguns cruzam fronteiras às escondidas, com a ajuda de coiotes, buscando a sobrevivência. Outros, viajam com malas repletas de roupas de bebê e contratos assinados, guiados por consultores e advogados, em busca de cidadania.
O impulso é essencialmente o mesmo, a busca por uma vida melhor, mas em classes de voo bem diferentes. Nos EUA, esse negócio prospera sob a proteção da 14ª Emenda, que assegura a cidadania a todos que nascem em solo americano (o famoso ius soli, ou “direito do solo”).
Entretanto, nem todos os países adotam essa regra. A Suíça, por exemplo, segue o ius sanguinis, o “direito do sangue”: para ser suíço, é preciso nascer de pais suíços. Simples assim. O que antes era uma questão de sorte, transformou-se em estratégia: um bebê meticulosamente planejado para nascer onde o futuro parece mais promissor.
Enquanto isso, o movimento se inverte. Mulheres russas e ucranianas, escapando da guerra, buscam o Brasil para dar à luz em paz. Santa Catarina se tornou um refúgio para o chamado “parto tropical”, com clínicas discretas, a promessa do sol e um futuro mais tranquilo.
No céu, seus destinos se cruzam: umas indo, outras vindo, todas movidas pela mesma lógica. A fronteira, agora, passa pelo ventre. Donald Trump, durante sua incansável campanha, prometeu acabar com a cidadania por nascimento. Afirma que os Estados Unidos se transformaram em um “berçário de oportunistas”. Talvez não tenha se dado conta de que o oportunismo se tornou um fenômeno global.
Alterar a Constituição não é tão simples quanto apagar uma postagem nas redes sociais. Trump pode até se considerar o dono do berçário, mas ainda não tem o poder de controlar o útero americano. A verdade é que essa indústria da maternidade não é exatamente uma novidade – apenas se tornou mais organizada.
Antigamente, as pessoas sonhavam com o “sonho americano”. Hoje, elas contratam uma agência para dar à luz ao sonho americano. Tudo documentado em contrato, com anestesia e a promessa de um futuro melhor.
Se Thomas Cook estivesse vivo, talvez inaugurasse uma nova linha de negócios: “Cook & Baby Travels”, Cidadanias Sob Encomenda, com conforto garantido e anestesia inclusa no pacote. Afinal, o turismo evoluiu. Atualmente, o primeiro destino da vida é o hospital e a primeira lembrança, um passaporte.
E, entre o absurdo e a ironia da situação, permanece a pergunta que ecoa através de oceanos e úteros: qual o valor de uma cidadania e quanto custa nascer do lado certo do mundo?
Ycarim Melgaço é professor e escritor, também autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros livros). Acompanhe em @ycarim no Instagram.

