O turismo e o apagar das luzes em Cuba
26 fevereiro 2026 às 11h46

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
Há lugares que brilham mais do que deveriam no mapa. Cuba é um deles.
Praias desenhadas à mão, coqueiros inclinados com precisão estética, mar em três tons de azul. Nos resorts de Varadero, o Caribe parecia ter parado em 1989: pulseira no pulso, coquetel na mão, buffet infinito, música alta. Do lado de fora, o país aprendia a racionar comida e energia. Agora, até a bolha começou a falhar. O combustível acabou.
Em 2026, o embargo norte-americano apertou o cerco sobre navios petroleiros da Venezuela. O México, diante de retaliações comerciais, recuou nos embarques. A ilha passou a viver de chegadas incertas. A crise não ficou nos postos: chegou às pistas dos aeroportos de Havana e Varadero. Companhias estrangeiras foram avisadas de que talvez não haja querosene suficiente para a volta. Alguns aviões desviam para abastecer em países vizinhos. Outros simplesmente deixam de voar, o que, no fundo, parece cada vez mais provável.
A crise não começou agora. Quando a União Soviética desapareceu, Havana perdeu o espelho e perdeu a tomada. O “período especial” ensinou a sobreviver sem ônibus, sem carne e sem luz. Foi ali que o socialismo passou a depender daquilo que dizia combater: o turismo e sua moeda forte. Hoje, essa dependência deixou de ser estratégia e virou sobrevivência.
O turismo transformou-se na principal fonte de divisas. E é depende de energia elétrica constante, de transporte regular e de alimentos que a ilha não produz. A falta de combustível não paralisa apenas carros e aviões. É ela que move as bombas de água. Sem diesel e sem eletricidade, a água encanada deixa de subir para as caixas d’água das casas. Em muitos bairros, as torneiras passam dias secas. Hotéis e pousadas dependem da mesma lógica invisível: sem energia para bombear, não há banho, não há lavanderia, não há funcionamento. O turismo não entra em colapso por falta de praia, entra por falta de água. Claro, por derivação, o turista não chega à Ilha.
Há também um apagão simbólico. A narrativa épica da ilha resistente convive além das filas para pão, há outra, coadjuvante, a fila da espera por navios-tanque. Isto é, o clima de Cuba deixou de ser ideológico e tornou-se logístico: quem controla o combustível controla o cotidiano. A ironia histórica é inevitável.
Nos anos 1950, antes da Revolução, Havana era um cassino tropical para americanos: máfia, hotéis luxuosos, prostituição elegante, dólares fáceis. A Revolução fechou cassinos e expulsou aquele país-parque-temático. Décadas depois, pressionada economicamente, Cuba voltou a depender do visitante estrangeiro, não mais como vício político, mas como necessidade material.
A diferença é que agora nem o turismo consegue salvar.
Quando falta querosene, falta visitante. Quando falta visitante, falta comida. E quando falta comida, as pessoas partem. Cada vez mais partem.
Nos últimos anos, o Brasil voltou a receber cubanos pedindo residência, trabalho, qualquer estabilidade possível. Médicos que antes chegavam por acordos governamentais agora chegam sozinhos. Famílias inteiras desembarcam sem saber exatamente para onde vão, apenas para longe. Não é escolha ideológica nem cálculo sofisticado. É simplesmente sair de um lugar onde a energia acabou, literal e simbolicamente.
Quando um país começa a exportar seus habitantes, é sinal de que o voo mais importante já não é o do turista que chega, mas o do morador que parte. E talvez essa seja a fotografia mais fiel da ilha hoje: não a do mar azul de Varadero, mas a fila silenciosa no embarque internacional.
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