Ycarim Melgaço

Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim

Hoje conto a história de uma viagem recente a Belo Horizonte. Conheço a cidade de outros tempos e morei lá quando era criança. Ela ainda me surpreende. A capital cresceu e ficou cheia de carros. O concreto e o asfalto se espalharam por todos os lados. O horizonte continua belo e resiste entre prédios e ruas rápidas.

Desta vez decidi fazer algo diferente e visitei o Instituto Inhotim. Ele é um dos locais mais conhecidos perto da capital mineira. Inhotim não fica exatamente em Belo Horizonte. O museu fica na cidade de Brumadinho.

O nome da cidade lembra logo a tragédia da barragem da Vale. A lama engoliu vidas e casas em um episódio de descuido. Inhotim está nesse município ferido. O museu funciona ao ar livre e une arte moderna com jardins botânicos em uma escala imensa.

O nome Inhotim já me deixava curioso antes da viagem. As pessoas falam esse nome mesmo? Os mineiros gostam de encurtar as palavras e de usar diminutivos. Dizem que o nome vem de um antigo dono inglês chamado Timothy. Ele virou senhor Tim e depois virou Nhô Tim até se transformar em Inhotim. O nome está em placas e guias. É um exemplo do jeito mineiro de transformar um britânico em intimidade.

A primeira impressão é de um paraíso pois Inhotim é muito bonito. São muitos hectares abertos aos visitantes. Trilhas de pedra cortam o vale onde o Cerrado encontra a Mata Atlântica. Há lagos e pavilhões que guardam fotos e esculturas do mundo todo. Algumas exposições são permanentes e outras são temporárias. Cada visita traz uma descoberta nova.

A área é enorme e não dá para ver tudo com calma em um dia. Chegue cedo ao local. A arte exige pausa e silêncio. Em Inhotim a gente caminha e descansa. Bancos feitos de troncos de árvores ficam espalhados pelo parque. Os assentos são belos e fortes.

O terreno tem muitas subidas e descidas. Quem não quer caminhar usa carrinhos elétricos para chegar até as galerias. O serviço é pago e o nome da Vale aparece nos veículos. Essa é a mesma Vale do desastre em Brumadinho. A lama atingiu o rio Paraopeba e os trens de minério de ferro ainda passam pela região.

Inhotim guarda histórias pouco ligadas à arte. O empresário que criou o Instituto veio do setor de mineração. Ele foi acusado de crimes financeiros no passado. A Justiça o inocentou em 2020. As denúncias e a origem do capital deixam uma sombra difícil de ignorar.

Hoje a Vale é uma das principais patrocinadoras desse lugar. Isso é um movimento de marketing claro. A empresa tenta mudar sua imagem com cultura e jardins. O gesto mistura reparação e propaganda. Quem olha com atenção sente um certo incômodo.

No fim do caminho Inhotim entra na lógica do consumo. O visitante termina o passeio em uma loja de presentes e design, como nos parques da Disney. Há objetos bonitos e caros no local. Quem compra leva uma lembrança do paraíso. Quem não compra percebe como a beleza vira mercadoria.

Caminhar por ali é um prazer visual e um exercício de memória crítica. O espaço lembra que por trás do jardim existem lama e dor. O minério está presente em toda a região. Cada visitante escolhe quanto quer lembrar da tragédia. É preciso saber que ela faz parte do contexto de Inhotim.