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Veneza, curiosamente, surgiu não para ser cenário de Instagram, mas sim de um refúgio, um temor, uma solução improvisada. Povos em fuga, ali pelos séculos V e VI, buscaram abrigo no pântano, cravando estacas de madeira – inúmeras e hoje invisíveis – para sustentar suas moradias. Essas mesmas estacas, acredite, ainda amparam palácios e igrejas sobre as águas. Quase uma fantasia, mas pura História: uma cidade que desafiou a natureza e, de certa forma, venceu.

Séculos se passaram e a “Sereníssima República” ascendeu como potência comercial, dominando mares, acumulando riquezas, florescendo em arte, música e beleza. Veneza, outrora um milagre humano, hoje se vê reduzida a uma caricatura, infelizmente.

Recordo-me vivamente de minha primeira visita em 1986, ainda um jovem impressionável. A beleza era tanta que parecia impossível tamanha fragilidade resistir por tanto tempo. Retornei outras vezes e, a cada visita, sentia Veneza mais exausta, sufocada pela multidão, refém da própria fama. Quase como se a cidade implorasse: “Volte, mas depressa, antes que eu desapareça de vez”.

E o que contribui para essa degradação? Os navios de cruzeiro, claro. Colossos flutuantes, imponentes, maiores que qualquer construção veneziana, invadem a cidade despejando milhares de turistas ávidos por fotos, para depois partirem sem deixar rastro aparente. Imagine: uma manhã em Veneza, um passeio relâmpago pela Piazza San Marco, uma foto borrada da Ponte dos Suspiros, um sorvete industrializado. À tarde, o retorno apressado ao navio, para um jantar em ambientes climatizados, alheios à verdadeira essência da cidade.

Para as companhias de cruzeiro, Veneza é apenas mais um ponto turístico. Para a cidade, é mais um golpe duro.

O turismo é, obviamente, fundamental. Todavia, quando predatório, a visita se transforma em invasão. Moradores vendem suas casas, substituídas por hotéis e Airbnbs; bairros perdem sua identidade, dando lugar a lojas de souvenirs; e a cidade, antes vibrante de história, agora respira com dificuldade, dependente de auxílio artificial.

A ironia maior reside no fato de Veneza ser um Patrimônio da Humanidade. Ou seja, pertence a todos nós, e não apenas aos venezianos. No entanto, ao invés de protegê-la, a tratamos como um parque temático aquático. Uma espécie de Disneylândia no Adriático, onde os ingressos são caros, mas o verdadeiro valor – aquele que se perde a cada gôndola submergida pela avalanche turística – ninguém parece disposto a preservar.

Não nos iludamos: Veneza está definhando, afogada não pelas águas da laguna, mas pela enchente humana. Veneza suplica por ajuda. Salvemos Veneza!

*Ycarim Melgaço é professor e escritor. Autor do livro: História das Viagens e do Turismo. Ed. Aleph. SP. Instagram: @ycarim