Num amanhecer de 9 de fevereiro de 2026, a polícia montou uma prisão de dar inveja a qualquer diretor de Hollywood. Um Airbus da Latam, voo de Congonhas para o Santos Dumont, pronto para decolar, passageiros embarcados, procedimentos autorizados. Na cabine, um comandante de 60 anos, com décadas de aviação, uniforme impecável, checklist em andamento.

De repente, o roteiro muda: policiais entram no cockpit, algemas aparecem, e alguém registra tudo em vídeo, no melhor ângulo possível. Em minutos, a cena sai do avião e entra no circuito das redes sociais, dos portais, dos telejornais. O piloto é acusado de chefiar, há anos, uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes, um conjunto de crimes que causa repulsa, indignação, vergonha. Se as provas se confirmarem, que a lei seja aplicada com todo o rigor. Não há como relativizar violência contra crianças.

Mas é justamente porque o crime é abjeto que a encenação preocupa. A prisão, que deveria ser um ato de Estado, vira espetáculo. O cockpit, coração simbólico da segurança de voo, transforma‑se em palco de humilhação pública. O uso de algemas, que a Súmula Vinculante 11 do STF reserva a situações de resistência, fuga ou risco concreto, ganha função estética: compor a figura do “monstro capturado” para a plateia. A pergunta é inevitável: um homem de 60 anos, cercado de policiais em um dos aeroportos mais vigiados do país, precisava mesmo ser exibido assim?​

Essa lógica não nasce em Congonhas. Ela foi ensaiada na Operação Lava Jato, com mandados cumpridos ao amanhecer, câmeras já posicionadas, helicópteros de TV sobrevoando casas de investigados, tudo transmitido quase em tempo real. Hoje, esse script se reaplica sobre a aviação comercial. Em vez de um empresário de pijama na garagem, temos um comandante algemado na cabine. Em ambos os casos, a fronteira entre Justiça e entretenimento fica perigosamente borrada.​

Não me cabe aqui narrar um inquérito policial em detalhes, nem advogar por investigados. O que me interessa é o cenário em que tudo isso acontece: um avião comercial pronto para decolar, um cockpit transformado em palco e uma prisão conduzida como cena de cinema. Do ponto de vista de quem viaja, isso é mais do que um detalhe. O passageiro vê a cena e não enxerga apenas um suspeito sendo preso; vê o lugar da técnica e da responsabilidade convertido em cenário de reality show policial.

A operação policial poderia ter ocorrido de outro modo, sem uniforme de comandante, fora da aeronave, longe do enquadramento perfeito de uma câmera de smartphone, sem prejuízo para a investigação. Investigar e punir crimes contra crianças é inegociável. Mas também deveria ser inegociável o respeito ao devido processo legal, à presunção de inocência e à dignidade mínima de qualquer pessoa, inclusive da acusada dos piores delitos.

Quando o Estado opta pela imagem espetacular, entrega ao público um veredito antes da sentença. Na tela, o avião continua parado no finger. Na democracia, corremos o risco de ver, mais uma vez, o Estado de Direito taxiando na pista, sem saber se decola ou se volta para o pátio.

Leia mais: Novo protocola ação contra Lula, PT e Acadêmicos de Niterói por propaganda eleitoral antecipada por samba-enredo de Carnaval