A Venezuela entre nuvens e mísseis
12 janeiro 2026 às 19h20

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de História das Viagens e do Turismo
Instagram: @ycarim
Poucos passageiros percebem e eu arrisco dizer que quase ninguém imagina que um voo aparentemente banal, como um Guarulhos–Miami ou Guarulhos–Nova York, cruza um dos trechos mais sensíveis do mapa geopolítico atual. A viagem começa tranquila, sobe, estabiliza, e logo entra naquele ritmo conhecido de voo longo. Tudo parece absolutamente normal.
O passageiro olha pela janelinha e vê nuvens claras recortando um céu azul sem drama. À sua frente, a telinha do sistema de bordo ajuda a reforçar essa sensação de ordem. Um aviãozinho avança lentamente sobre o mapa. Uma linha elegante vai se desenhando, ligando o Brasil ao Caribe e à América do Norte. A tecnologia passa uma ideia confortável de controle total.
Mas há um momento da viagem, discreto, silencioso em que esse voo começa a se aproximar da Venezuela. Não é algo anunciado. Ninguém levanta da poltrona. Nenhum aviso especial é feito. Apenas, em algum ponto invisível para o passageiro, a rota é ajustada, contornada, levemente desviada.
É ali que mora o detalhe que quase ninguém percebe.
Porque, independentemente do traçado exato da rota naquele dia, lá embaixo está algo que a telinha não mostra. E não é pouca coisa. Estamos falando de um verdadeiro complexo militar estacionado no Mar do Caribe, bem em frente à Venezuela. Não um arsenal qualquer, mas uma das mais sofisticadas estruturas bélicas já reunidas pela humanidade.
Imagine você: destróieres de escolta, submarinos nucleares, esquadrões aéreos completos e, no centro de tudo, um porta-aviões nuclear, o mais moderno do mundo. Uma cidade flutuante feita para a guerra, capaz de projetar poder militar em escala continental. Tudo isso repousando exatamente sob uma das principais rotas aéreas que ligam o Brasil ao Hemisfério Norte.
O contraste é quase surreal. O mesmo mar azul-turquesa onde navegam cruzeiros turísticos das maiores empresas do mundo abriga, agora, uma máquina de guerra em prontidão permanente. O Caribe, vendido como sinônimo de lazer e descanso, divide espaço com radares, mísseis de longo alcance e milhares de militares preparados para qualquer cenário.
Lá em cima, porém, nada denuncia isso. O voo segue estável. O café é servido. O filme continua. O passageiro acompanha distraído o aviãozinho avançando no mapa, sem a menor ideia do que existe lá embaixo, no mar ou no solo. Muitos, aliás, nem sequer olham a rota.
E é aí que entra outro detalhe invisível: o céu não é um espaço livre. Ele é dividido em grandes áreas chamadas FIR; Regiões de Informação de Voo. O nome é técnico, pouco poético, mas decisivo. São essas regiões que organizam o tráfego aéreo, determinam frequências, autorizam rotas e coordenam desvios.
Quando o avião cruza uma dessas fronteiras invisíveis, o rádio muda de frequência. Para quem está sentado na poltrona, nada acontece. Para o piloto, tudo é cálculo. Ele sabe exatamente quando sai de uma área tranquila e entra em uma zona politicamente sensível.
A FIR de Caracas é um desses pontos de atenção. O problema não é técnico; é o contexto. O céu ali reflete tensões que não aparecem no mapa de bordo. Abaixo das rotas civis há vigilância constante, diplomacia dura e presença militar ostensiva. Não há guerra declarada, mas tampouco existe normalidade.
Não é a primeira vez que conflitos no chão redesenham o céu. A guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou isso de forma clara: espaços aéreos fechados, rotas redesenhadas, voos mais longos, consumo maior de combustível. A guerra parecia distante, mas chegou, com pontualidade, à fatura do cartão de crédito do passageiro.
No Caribe, o desconforto é mais silencioso. Não há explosões visíveis, mas há porta-aviões ancorados, caças em alerta e mísseis apontados para o horizonte. E, passando por cima de tudo isso, seguem os voos comerciais, eficientes, pontuais e meticulosamente planejados para não chamar atenção.
Para o turista, o Caribe continua sendo o de sempre. Mar azul, coquetéis coloridos, fotos impecáveis para as redes sociais. O que ele não vê é a engrenagem que sustenta essa tranquilidade: rotas ajustadas, desvios calculados, aviões carregando combustível extra “por precaução”.
A ironia é evidente. Sonhamos com férias como se elas existissem fora da política, mas chegamos ao descanso cruzando um céu sustentado por frotas de guerra e interesses estratégicos. O turismo flui porque alguém, em algum lugar, está armado até os dentes garantindo que ele flua.
A Venezuela continua sendo um país de paisagens extraordinárias. Mas hoje o que mais se projeta sobre seu território não é apenas o azul do céu, é a sombra permanente da geopolítica. Aviões civis cruzam com cuidado. A guerra, ou sua ameaça, permanece estacionada logo ali, no mar.
Talvez essa seja a lição para quem escreve e para quem viaja no nosso tempo: nenhum voo é apenas um voo. O bilhete fala em tarifa promocional, bagagem despachada e poltrona reclinável. A telinha exibe uma linha tranquila. Mas seguimos voando entre nuvens e mísseis, sobre um mundo que prefere não se revelar por inteiro.
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