Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Um perfil de Augsburg, a terceira cidade mais antiga da Alemanha

A fábrica da cidade produzira 35 mil aviões de combate, e os jatos alemães da Messerschmitt deixavam os oficiais da aviação aliada em polvorosa

De Augsburg, Alemanha — A cada movimento no caleidoscópio que é a Europa, nos deparamos com fatos históricos instigantes, marcantes, importantes. Como aqui em Augsburg. Essa cidade alemã do sul da Baviera, é bem um exemplo. Não é uma cidade grande, para os padrões brasileiros — cerca de 280 mil habitantes. No entanto, guarda mais de dois milênios de história. Seu nome vem da fundação: nasceu sob o império romano de Augusto (ano 15 a.C.), com o nome de Augusta Vindelicorum, e é a terceira cidade alemã mais antiga. Sempre foi um município próspero, por ser um entroncamento das rotas de comércio importantes da Europa, a despeito de três saques devastadores, um pelos Hunos, no século III d.C., um por Carlos Magno, no século VIII d.C. e outro pelo rei Guelfo da Baviera, no século XI d. C.

Augsburg foi cidade-Estado de 1276 até o início do século 19, quando se dissolveu o Império Romano e foi anexada pelo Reino da Baviera. Há fatos marcantes e ao mesmo tempo curiosos na história deste burgo que ostenta uma invejável qualidade de vida nos dias de hoje. Um dos mais marcantes diz respeito à presença de duas importantes famílias, que cresceram em riqueza e empreendedorismo no século 16: os Fugger e os Welzer.

Comerciantes, mineradores, industriais e banqueiros, os integrantes dessas duas famílias (cujos descendentes ainda vivem na cidade) dominavam boa parte da economia europeia da época. Estabeleceram um entreposto em Lisboa, graças ao rei D. Manuel (O Venturoso), e financiaram expedições portuguesas, para a Índia, e também para o Brasil. Enquanto os portugueses se dedicavam à geopolítica dos descobrimentos, os Fuggers a eles se associavam para exercer sua atividade de exportadores, importadores e banqueiros.

Hans Jacob Fugger (1459-1525) foi o mais importante — e rico — dos membros da família Fugger. Ainda hoje existe — e os turistas a visitam — uma vila social por ele criada em 1521. A Fuggerei (assim se chama a vila) é seguramente a cidade social mais antiga do mundo, com suas oito ruas e suas 140 habitações. As bases de seu funcionamento são hoje as mesmas de sua fundação: acolhe pessoas em comprovado estado de necessidade e lhes proporciona morada, alimento, aquecimento (algo desimportante para nós, tropicais, mas essencial para os invernos europeus) e cuidados médicos. Os beneficiados devem em contrapartida participar dos trabalhos de conservação e manutenção da vila. Só um homem muito à frente de seu tempo para implantar, há cinco séculos, tão importante obra social — e que ainda funciona tal e qual na época de sua implantação.

Jacob Fugger está sepultado na Igreja de Sant’Anna, em Augsburg, por ele construída de 1509 a 1515, e que está ativa. Mas nem tudo são flores, em qualquer lugar deste mundo. Não apenas os saques devastaram Augsburg. Na noite de 25 de fevereiro de 1944, ela sofreu um dos mais fortes bombardeios de toda a Segunda Guerra Mundial. Oitenta e cinco por cento da cidade foram destruídos, inclusive a vilazinha social Fuggerei. O ataque aliado tinha sua razão de ser: Augsburg abrigava a fábrica de aviões Messerschmitt, de onde saíram o caça ME-109, tido como o melhor da Segunda Guerra, e o ME-262, primeiro avião a jato produzido em série.

A fábrica de Augsburg produzira 35 mil aviões de combate, e os jatos alemães da Messerschmitt deixavam os oficiais da aviação aliada em polvorosa. Eram muito mais rápidos do qualquer outro avião e dispunham de foguetes, algo inovador para a época. Derrubavam com facilidade os bombardeiros americanos B-29, chamados fortalezas voadoras. Se fossem produzidos em grande quantidade, poderiam ameaçar a supremacia aérea dos americanos e ingleses, e prolongar a guerra. Daí o ataque maciço de fevereiro de 1944.  Mas a devastação, hoje em dia, muito dificilmente pode ser imaginada por quem percorre as ruas dessa aprazível cidade, totalmente reconstruída, respeitando os projetos originais de seus prédios, monumentos e igrejas. Ou pela alegre multidão de alemães ou de turistas que invadem suas cervejarias e seus cafés.

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