Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Salazar evitou que os horrores da Segunda Guerra Mundial atingissem Portugal

Ele protegeu judeus portugueses e deu passagem aos refugiados judeus europeus que buscavam Lisboa para embarcar para outros países

Se o leitor aprecia livros históricos, principalmente se é interessado na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), não perca de vista o historiador escocês Neill Lochery. Não fica a dever aos grandes do momento — como Antony Beevor, Ian Kershaw, Richard Evans, Richard Overy e Andrew Roberts. E irá mais longe, pois é duas décadas mais novo (nasceu em 1965) que a maioria dos pesquisadores citados. Tem livros muito bem-sucedidos, como o “Lisbon — War in the Shadows of the City of Light: 1939-1945”, lançado em 2011, e traduzido no Brasil em 2012 pela Editora Rocco com o título “Lisboa: 1939-1945 — Guerra nas Sombras” (311 páginas, tradução de Talita M. Rodrigues). Dele falo mais adiante.

Recentemente (em 2014), Lochery publicou um livro sobre o Brasil na guerra: “Brazil: The Fortunes of War, World War II and the Making of Modern Brazil”, lançado no Brasil em 2015, pela Editora Intrínseca, com o título de “Brasil — Os Frutos da Guerra” (367 páginas, tradução de Lourdes Sette). Embora escreva também sobre o Oriente Médio, três dos dez livros que escreveu são sobre Portugal, inclusive o mais recente, de 2017. Lochery teve de aprender o português para se aprofundar nas pesquisas, que exigiram temporadas em Portugal e no Brasil. Passou três anos na Torre do Tombo estudando documentos para suas publicações sobre Lisboa.

António Oliveira Salazar: líder político que evitou que a Alemanha invadisse Portugal | Foto: Reprodução

Vamos falar do “Lisboa: 1939-1945 — Guerra nas Sombras”. Trata-se de uma história da capital portuguesa nos anos de guerra. Mas é bem mais que isso, e vai daí meu entusiasmo com o escritor. Seu texto é bastante claro, fluido, atraente, no que deve ter sido auxiliado pela excelente tradução de Talita Rodrigues. A documentação citada não dá margem a dúvidas na interpretação da narrativa e vai além — revela verdades históricas que têm sido escurecidas por relatos de autores mais ideológicos e menos dispostos ao estafante trabalho de pesquisa. Dois conjuntos históricos principais se ressaltam nesse livro: 1) A personalidade do líder português Antônio de Oliveira Salazar (1889-1970); e 2) A atratividade exercida por Lisboa sobre a espionagem no período, quer dos aliados, quer das potências do Eixo.

Na Península Ibérica, na época da guerra, vamos encontrar na Espanha um líder forte, Francisco Franco, com uma identificação bastante grande com Alemanha e Itália. Franco assumiu o poder, diga-se, em uma guerra civil cruenta, com o apoio de Hitler (entre 1936 e 1939). A despeito disso, Franco não se envolveu na Segunda Guerra, exceto no envio de uma divisão de voluntários — a Divisão Azul — na invasão da URSS. E em Portugal encontramos outro líder forte, Oliveira Salazar, que se manteve neutro em todo o correr do conflito. Lochery deixa muito claro, e abundantemente documentado, que a neutralidade da península foi inteiramente devida à habilidade com que se houve Salazar no trato com espanhóis, ingleses, alemães e americanos.

De uma maneira geral, a imprensa do pós-guerra vendeu a imagem de Salazar como a de um troglodita, protótipo do ditador brutal, de poucas luzes intelectuais, sobrevivendo no fausto e pela força seus 36 anos de poder. Lochery reverte, de maneira documentada e cartesiana, essa imagem.

Neill Lochery: historiador escocês interessado na história de Portugal e do Brasil e no envolvimento dos dois países com a Segunda Guerra Mundial | Foto: Reprodução

Salazar (1889-1970), apesar de sua origem humilde — filho de camponeses de Vimiero — terminou seus estudos primários e ingressou no seminário de Viseu, onde permaneceu por oito anos, indo depois a Coimbra, onde formou-se em Direito e doutorou-se em Economia Política e Finanças. Foi professor e catedrático em Coimbra. Quando ministro das Finanças, em 1928, saneou as caóticas finanças portuguesas, com energia e competência. Salazar foi, então, um refinado intelectual, comprovado no ensino e na prática e não um bronco, como Stálin (este, sim, um bronco) queria fazer crer.

Sua longa permanência à frente do Conselho de Ministros de Portugal nunca exerceu sobre ele qualquer efeito material. Guardou sempre os hábitos espartanos que adquiriu no seminário: sóbrio à mesa, no vestir, no morar, nos amores e nas posses. Trabalhando em três expedientes, 18 horas por dia, sequer dispunha de aquecimento em seu bem ordenado gabinete de trabalho, o que o obrigava a trabalhar de sobretudo, no inverno lisboeta. Em Santa Comba Dão, a 250 km de Lisboa, dispunha de pequena propriedade rural, havida por herança, que impressionava os poucos visitantes que recebia pela simplicidade monástica, quase pobreza. Centralizador, acumulou durante anos os ministérios das Finanças e da Defesa, enquanto exercia o cargo de primeiro-ministro. Na verdade, um ditador — era época deles —, mas esclarecido. Nem os comunistas portugueses conseguiram pespegar-lhe qualquer mancha de corrupção. Nunca se casou ou teve prole. Foi sempre um defensor ferrenho da Igreja Católica.

Mas foi no conduzir um Portugal absolutamente neutro, em todo o correr da Segunda Guerra, e além disso, em trazer Franco para a neutralidade, que Salazar soube demonstrar sua verdadeira dimensão de estadista. A mais antiga aliança europeia ligava Inglaterra e Portugal desde 1373. Era, por esse tratado, de se supor que Portugal lutaria ao lado dos aliados na Segunda Guerra, como fizera na Primeira.

Por outro lado, Portugal era grande fornecedor de tungstênio, que a máquina de guerra alemã consumia em enormes quantidades. E o arquipélago dos Açores, possessão portuguesa, estava estrategicamente localizado para abrigar uma base antissubmarino no Atlântico.

Salazar conhecia tudo isso. Mas estava disposto a manter Portugal fora da guerra. Sabia dos sofrimentos portugueses na guerra de 1914-1918, como sabia da fragilidade de suas forças armadas e dos horrores de uma guerra dentro de casa. Sabia ainda o que era viver em um país ocupado por tropas estrangeiras.

Salazar era um admirador de Mussolini e se identificava com suas políticas anticomunistas e trabalhistas. Mas se decepcionou quando o Duce se subordinou inteiramente a Hitler. A este, Salazar não admirava, religioso que era. Via em Hitler um paganista, que mais dia menos dia entraria em guerra com a Igreja. E não era antissemita, prática disseminada na Europa daqueles dias.

Salazar protegeu os judeus portugueses e deu passagem aos refugiados judeus europeus que buscavam Lisboa como porto de embarque para outros países, EUA principalmente. Fez um enorme esforço diplomático para não entrar na guerra ao lado dos britânicos, convencendo-os de que, se o fizesse, teria facilmente Portugal ocupada pela Alemanha.

Continuou até o fim da guerra fornecendo o tungstênio aos alemães, convencendo os aliados que a interrupção do contrato de venda seria também um motivo forte para a ocupação alemã, até porque a Alemanha não podia abrir mão desse minério português. Ao ceder os Açores para uma base dos aliados, convenceu os alemães que o fazia em função do velho tratado de 1373, e que essa concessão era uma contrapartida aos ingleses pelo fornecimento de tungstênio à Alemanha.

Salazar convenceu Francisco Franco a não ceder aos apelos de Hitler e também permanecer neutro, resguardando a península ibérica dos horrores da guerra, citando as cicatrizes da recente guerra civil espanhola. Foi vitorioso. Resguardou seu povo, que não experimentou os horrores de uma ocupação, dos bombardeios, da fome, da destruição e das mortes e ferimentos em combate. Se foi um ditador — por vezes, foi duro com os opositores —, deixa um saldo de temperança e patriotismo, que poupou os portugueses dos horrores que assolaram praticamente toda a Europa de 1939 a 1945.

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