Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O romance “1984”, de Orwell, pode ser considerado plágio de “Nós”, de Zamiátin?

Há “coincidências” nos dois romances, mas a literatura do escritor britânico é ainda mais sombria. Os dois livros deveriam ser lidos por todos que vivem a liberdade, ainda que relativa, pois nem sempre se sabe o que ela vale

“Nós”, do russo Ievguêni Zamiátin, e “1984”, do britânico George Orwell, são romances poderosos de interpretação e crítica do fenômeno totalitário | Fotos: Divulgação

O crítico literário e filósofo George Steiner, com a argúcia que marca tudo o que escreve, elaborou, em 1983, um ensaio intitulado “Matando o Tempo”. Estava se antecipando à torrente de artigos que no ano seguinte viriam brindar o romance distópico de George Orwell, indiscutivelmente seu livro mais famoso, “1984”.

Steiner, ao comentar o livro, um sucesso traduzido para mais de sessenta línguas e que vendeu milhares de exemplares em cada uma delas (uma estimativa global está em dez milhões ao todo), comenta sobre outros do mesmo teor, e elegante como é, se abstém da insinuação de que Orwell foi além da inspiração em outro livro quando produziu sua obra-prima. Mas essa desconfiança de plágio é uma erva daninha, e como todas, bastante renitente para brotar nas entrelinhas.

As obras distópicas que marcaram a literatura não são muitas. Steiner não menciona a primeira delas, talvez por ser apenas um conto, ou pequena novela, a “Nova Utopia”, que Jerome K. Jerome escreveu em 1891. Mas a ideia central deste tipo de literatura saiu dali: a sociedade igualitária, utopicamente igualitária, de homens e mulheres reduzidos a números, integralmente submetidos, no pensar e agir, à vontade de um ditador que personifica o Coletivo.

Os demais livros importantes sobre o tema, Steiner os comenta: “Tacão de Ferro”, do americano Jack London (cuja ação se passa, também, no ano de 1984), escrito em 1900, “Nós”, do russo Ievguêni Zamiátin, escrito em 1920, “Admirável Mundo Novo”, do britânico Aldous Huxley, saído em 1932, e “Fahrenheit 451”, do americano Ray Bradbury, este de 1953. Não nos esquecendo que “1984” foi escrito em 1948, e publicado nos dias finais de Orwell, que estava com tuberculose avançada. Não teve como contemplar seu sucesso, e nem dar explicações.

Vamos falar de dois, desses livros marcantes, pois estão muito interligados: o de Zamiátin e o de Orwell. Ievguêni Zamiátin (1884-1937), engenheiro naval, lutou ao lado dos bolcheviques na Revolução Russa de 1917. Escritor por vocação, já havia publicado um livro de sucesso em 1913 (“Coisas de Província”), e nos anos de 1920 escreveu artigos e publicou revistas. Também traduziu autores americanos, como Jack London. Talvez mesmo tenha se influenciado, então, para escrever “Nós”, com “Tacão de Ferro”, como também com “Nova Utopia”, de Jerome K. Jerome, que já circulava na Rússia antes de 1917.

Crítico da censura soviética, teve a sorte de ser amigo de Maxim Górki, que conseguiu autorização para sua mudança para Paris, em 1931, onde viveu até sua morte em 1937. Tivesse permanecido na Rússia e teria sido fuzilado ou desterrado para uma morte lenta no Gulag, com o endurecimento da ditadura stalinista. Escrito em 1920, “Nós” só foi publicado em 1924 em Nova York, e em inglês. Na União Soviética, só em 1988. No Brasil, temos uma boa tradução, diretamente do russo, por Clarice Lima Averina, de 2004, pela editora Alfa-Omega. E há uma tradução mais recente, direta do russo, pela editora Aleph.

George Orwell (1903-1950), cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, foi socialista até a morte, tendo até lutado na Espanha, ao lado dos “rojos” contra o general Franco. Isso não o impediu de criticar os excessos stalinistas, como fez quando escreveu “A Revolução dos Bichos” (“Animal Farm”) em 1945, outro sucesso seu, mas que não igualou “1984”.

Contudo, ainda que dissesse não ser “1984” uma sátira do socialismo, mas um alerta quanto aos excessos do nazismo e do comunismo e contra a perda de privacidade no mundo ocidental, cada vez mais industrializado e automatizado, é inegável que o romance tornou-se um protesto contra a ditadura, cujo símbolo maior chega até nós como o sendo o do despotismo soviético, o totalitarismo de Stálin. Facetas do stalinismo brilham ali, no seu livro.

“Nós” é a descrição de um coletivismo perfeito — o Estado Unificado — onde a Felicidade Matematicamente Infalível foi obtida. Zamiátin não o situa geograficamente. Como liberdade e crime estão associados, “o único modo de livrar o homem do crime é livrá-lo de sua liberdade”, aparece no texto de Zamiátin. Toda ação é tabelada, regulada matematicamente em seus horários. Funciona um taylorismo social aplicado a cada máquina e a cada ser humano, como peças que são do Estado (Zamiátin menciona Taylor várias vezes). Até os encontros sexuais são minuciosamente programados, e quem pretende um, tem que buscar o cupom correspondente com a autoridade concedente. Um ente — o Benfeitor — zela pelos membros da coletividade, identificados não por nomes, mas por números. Todos vivem em habitações de paredes transparentes, e tudo o que fazem é perfeitamente público, coletivo.

Uma polícia política — os Guardiões — é onipresente. Cabe aos Guardiões descobrir quando um número (leia-se um homem ou uma mulher) contraiu a doença chamada Fantasia, que se manifesta por risos ou suspiros, que pode ser curada por uma cauterização cerebral. O personagem central do romance, D-503, é um engenheiro, que tem um diário de anotações. Ele se apaixona por uma rebelde, a I-330. D-503 adere a uma rebelião contra o Benfeitor, encantado que está por I-330, mas questiona-se, vê que adoeceu — “está adquirindo uma alma” — cede à natureza coletiva, trai os rebeldes, vê I-330 ser torturada e executada e volta a ser o que era — uma peça do Estado Unificado, um perfeito integrante do Coletivo.

Já em “1984”, que se passa numa Inglaterra totalitária, a organização é o Partido, e o chefe é o Grande Irmão. Há em cada habitação uma Teletela, televisão interativa, ao mesmo tempo única fonte de informações e olho espião onipresente. A Polícia do Pensamento é a polícia política em “1984”. E o personagem de Orwell, Winston Smith, que mantém também um diário, se apaixona por Julia, integrante de um grupo revolucionário que pretende afrontar o Grande Irmão. Smith, descoberto, trai a revolta, Julia faz o mesmo, não sem a dose de tortura indispensável. Ambos, curados de sua paixão mútua e da rebeldia, reintegram-se no Coletivo, voltam a ser peças obedientes do Partido.

São muitos os pontos de contato entre os dois livros para que não pensemos em algo muito próximo da cópia. Steiner em seu artigo informa que Orwell leu e resenhou o livro de Zamiátin, fato que torna indesculpável a identidade das narrativas. A resenha foi publicada em janeiro de 1946 na “Tribune”, uma revista inglesa de esquerda. E fala que “Nós” deve ter influenciado Huxley na escrita de “Admirável Mundo Novo”. É evidente que influenciou, até a fronteira do plágio, o “1984”.

Mas há muito mais no livro de Orwell, e Steiner se estende muito bem nesse campo. Há passagens que tornam “1984” não apenas mais sombrio, mas principalmente mais profundo que “Nós”.

Escrito após a Conferência de Teerã, de 1944, quando os aliados dividiram o mundo entre si (deixando que Stálin levasse a parte do leão e dando chance à Guerra Fria), o livro de Orwell pretendia alertar para as implicações de dividir o mundo em zonas de influência. Ao introduzir o elemento guerra, em “1984” (que não aparece no livro de Zamiátin), parece induzir outro alerta, para as implicações da indústria bélica na economia, o que poderia sempre levar a um estímulo, pelo menos aos conflitos limitados.

E ao lançar como que um alerta sobre o uso da linguagem como ferramenta política de dominação, ao usar termos que se incorporaram ao ambiente literário, como “novilíngua”, “duplipensar”, “crimideia”, Orwell foi brilhante. Aponta para um hiperautoritarismo possível, onde o uso da linguagem, com restrições cada vez maiores, agiria como elemento de consciência a ser usado pelo autoritarismo na eliminação da realidade. Se a linguagem se restringe, se palavras são suprimidas, as ações correspondentes, os objetos que representam, tendem a desaparecer com elas. Se não há uma palavra para descrever uma pessoa, ela não existiu. Quando se fala no “duplipensar”, descrito em “1984”, no “certo é errado”, o Partido sempre está certo, mesmo quando penso que ele está errado. Ou eu estaria abrigando uma “crimideia”, que não pode ter sequência, pois o Partido não erra. Stálin já eliminava dissidentes, como Trotsky (que aparece, simbolicamente, em “1984”) das fotografias e dos livros de história. Era uma “impessoa”. Esses livros deveriam ser lidos por todos que vivem a liberdade, ainda que relativa, pois nem sempre se sabe o que ela vale.

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