Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O periquito australiano que se instalou à força entre periquitos brasileiros

No início era tratado a bicadas. Mas, mostrando persistência, continuando voando e comendo ao lado dos “parentes”. A situação melhorou um pouco

No condomínio onde moro, persistem animais silvestres, graças a algumas reservas de matas existentes, que não foram — ainda — engolidas pela desenfreada especulação imobiliária. Que, diga-se, ao menos em Goiânia, tem contado com a complacência dos órgãos ambientais.

Recebo em meu jardim a visita de muitos desses pequeninos, uns mais, outros menos assíduos. Não sou o único. Tenho mesmo um vizinho que abriga, em seu lavabo, um morcego, convenientemente batizado como Bruce Wayne. Entre os menos assíduos dos meus comensais, há um quati, que aparece de tempos em tempos, com uma frequência próxima a uma semana. Batizei-o Epitácio, pois estudava a biografia do presidente Epitácio Pessoa quando pela janela o vi pela primeira vez, se aproximando do quiosque onde deixo alimento.

O periquito australiano está à direita. Ele é mais claro do que os demais; no destaque, abaixo (na foto menor), é possível vê-lo melhor | Foto: Irapuan Costa Junior

Devo dizer que muito aprecio a presença desses visitantes ariscos, sempre bem-vindos. Outro comensal a períodos é o tiú Epaminondas, assim batizado porque só um nome longo pode se casar com seu comprimento. Entre os quotidianos está o gambá Fiódor, batizado em homenagem a Dostoiévski, e que comparece todas as noites, religiosamente, em busca de uma manga, que não me esqueço de deixar, no fim da tarde.

Há o Dudu, um Udú Coroado extremamente sistemático, que não come em presença de outras aves, e só se aproxima do quiosque quando ali não há ninguém. Parece saber de sua nobreza, já que é uma das mais belas aves de nossa fauna, e não gosta de se misturar com a plebe alada. Há a saracura Sarita, que vem tomar seu banho em minha piscina, sempre no mesmo cantinho, e é muito vaidosa, se se levar em conta o tempo que usa no alisamento da plumagem, após o banho: vinte minutos, pelo menos. Mas os visitantes mais alegres e ruidosos compõem um bando de periquitos, entre 30 e 40 — é difícil contá-los — que vêm, todos os dias, em busca de sua porção de alpiste, banana, mamão e manga. Aprecio sua algaravia duas vezes por dia: pelas seis da manhã e pelas cinco da tarde, religiosamente. Observo-os há anos, e notei, há uma semana, algo diferente.

Ao bando havia se juntado um novo membro, facilmente identificável: um periquito australiano, amarelo, certamente fugido de alguma gaiola aqui no condomínio. Faço minhas suposições: como todos os psitacídeos são gregários, nosso periquitinho australiano, que chamaremos Chico, mal fugido da gaiola, buscou um bando para se agregar a ele. Ocorre que bando de periquitos australianos, fora de gaiolas, Chico só encontraria na Austrália. Por outro lado, no condomínio, não faltam bandos de periquitos comuns. Chico, que não tem espelho em casa, e que se guia pelo seu atavismo, certamente nada encontrou mais parecido com a imagem que guarda em sua memória genética, visual e sonora, do que os periquitos do bando meu comensal. Juntou-se incontinenti a ele.

Acontece que, a despeito de Chico se julgar um periquito igual a todos os outros do bando e não abrir mão dessa concepção, a recíproca não é verdadeira. Nos primeiros dias, encontrou enorme e às vezes violenta oposição. Os demais não o aceitavam no bando. Nas árvores próximas, onde os periquitos assentam, aguardando a ração, Chico, que assentava junto com os outros, era expulso a bicadas se se aproximava de algum membro do bando. No quiosque de alimentação, tinha que abrir caminho à força para se apossar de sua porção de banana ou de alpiste. Mas nada disso, pelo que tenho visto, o demove. É admirável sua persistência em não aceitar a discriminação, escorada na certeza de que é um igual. Está sempre junto do bando, e comparece pelas manhãs e pelas tardes, no meu quintal. Considerando-se um dos demais, não concebe porque o repelem. E os demais, vendo que não têm ali um igual, não o aceitam. Venho me perguntando qual o desfecho final do impasse, que se entre nós, homens, já teria sido objetos de reclamações aos Direitos Humanos, por bullying e racismo, e talvez mesmo um processo na justiça por lesões corporais e danos morais, além de psicológicos.

Observando sempre, já notei uma alvissareira mudança de comportamento no bando. Cessaram as agressões. Chico não é mais recebido a bicadas quando assenta em um galho onde estão seus pretensos semelhantes. Estes apenas voam para outro galho, em solene demonstração de desprezo pelo anão que não se toca. Toleram que coma juntamente com os outros, ignorando sua presença. Espero que terminem por aceitá-lo por inteiro. Mas não me arrisco a pensar nas consequências quando Chico resolver se acasalar com alguma bela fêmea do bando, que terá o dobro de seu tamanho. Principalmente se a “garota” já estiver sob as vistas de outro integrante da turma. Como se sabe, os psitacídeos são monogâmicos. E muito ciumentos.

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