Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Greene e Philby espionaram em Lisboa e ator de …E o Vento Levou foi morto por alemães

Livro de Neill Lochery mostra que, por ser um país neutro, Portugal serviu de campo para a espionagem na Segunda Guerra Mundial

A descrição que o escocês Neill Lochery, de 54 anos, faz da atividade de espionagem em Lisboa, enquanto os exércitos do Eixo (Alemanha-Itália-Japão) e dos Aliados (Inglaterra, União Soviética, Estados Unidos, Brasil) se enfrentavam na Europa no livro “Lisboa — Guerra nas Sombras: 1939-1945” (Rocco, 311 páginas, tradução de Talita M. Rodrigues), o credencia como excelente historiador.

O subtítulo de seu livro — “Guerra nas Sombras” — prestar-se-ia bem a título de um filme de ficção com base nos fatos passados na Lisboa daqueles anos. Por que tanta atividade na capital portuguesa?, pergunta-se.

Graham Greene: escritor espionou para os ingleses em Lisboa | Foto: Reprodução

A espionagem em países neutros rende mais do que em países em guerra declarada. Nos países neutros, convivem forçosamente os inimigos. Existem as embaixadas das duas partes, e são as embaixadas, no estrangeiro, que prestam apoio aos seus espiões, quase sempre. Pelos portos e aeroportos dos países neutros entram e saem autoridades estrangeiras e grandes comerciantes, dos dois lados em guerra. Os fugitivos de quase toda Europa, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tinham poucas opções para escapar do Continente em boa parte ocupado por Hitler, além de Lisboa, de onde poderiam buscar segurança na América.

Existiam linhas regulares de navios de passageiros e de aviões, os “clipers” da Pan American, que faziam voos Lisboa-New York, e os da BOAC que faziam Lisboa-Londres. O tungstênio — ou volfrâmio — português era vital para os dois lados em guerra. Era preciso acompanhar sua extração, transporte e entrega, fosse para aliados, fosse para inimigos. Além disso, o risco dos espiões é menor nos países neutros. Por tudo isso, eles pululavam em Lisboa. Os havia nas mais diferentes camadas.

Leslie Howard: morreu, em 1943, porque seu agente foi confundido com Churchill | Foto: Reprodução

Os ricos, os nobres, que se abrigavam em Lisboa aguardando o final da guerra ou uma oportunidade de ida para os EUA, por exemplo, se hospedavam nos melhores hotéis e frequentavam os pontos elegantes de Lisboa e dos arredores, como o cassino de Estoril. Era para lá que acorriam os agentes alemães e britânicos, principalmente, na busca de informações que pudessem escapar de um nobre europeu, um industrial ou banqueiro que negociasse com um dos lados.

Em maio de 1941, hospedou-se no hotel Palácio, em Estoril, e passou a frequentar o cassino, um agente britânico chamado Ian Fleming. Espionava sobre a possibilidade de uma invasão da Espanha pelos alemães. Os rumores eram falsos, mas a experiência de Fleming lhe seria de muita valia anos depois. Como escritor, Fleming criaria o espião James Bond, o 007, uma figura romanceada dele próprio, Fleming, e adotaria em sua ficção os ambientes suntuosos dos cassinos, que havia conhecido no Estoril.

Kim Philby: o agente duplo que espionava para os ingleses e, sobretudo, para os soviéticos | Foto: Reprodução

Se por um lado se espionava nos ambientes elegantes de Lisboa, por outro lado não era menos intensa a atividade nos prostíbulos da área portuária da capital. Agentes dos dois lados se desdobravam. Compravam prostitutas para que obtivessem dos marinheiros que as frequentavam informações sobre cargas, rotas e destinos dos navios. Pagavam donos das tascas para que abrissem os ouvidos e guardassem o que poderiam revelar de importante os marujos bêbados.

Agentes alemães buscavam proximidade com membros da polícia política portuguesa, onde militavam simpatizantes do Eixo e agentes britânicos buscavam informantes na alfândega e nos caminhos de ferro para se inteirarem dos números relativos à exportação do tungstênio de Portugal para a Alemanha. Artistas — em geral simpatizantes do comunismo — que fugiam dos países ocupados pelos alemães, bem como judeus refugiados também eram seguidos pelos agentes de espionagem que abundavam em Lisboa.

Ian Fleming, criador de James Bond, espionou em Lisboa | Reprodução-montagem

Outro refugiado que viria a se tornar famoso foi Arthur Koestler. Judeu húngaro, havia vivido na Palestina, em Viena, em Paris e Moscou. Em 1936, era refugiado em Lisboa. Judeu, fugia do nazismo. Comunista ameaçado de prisão, escapava dos expurgos de Stálin. Acabaria por se mudar para Londres. Seu livro “O Zero e o Infinito” (Amarilys, 304 páginas, tradução de André Pereira da Costa) é uma denúncia bem forte do stalinismo e do comunismo em geral.

Outros agentes, que iriam se tornar personalidades no pós-guerra, estiveram envolvidos na espionagem lisboeta. Um deles foi o escritor Graham Greene, que trabalhou sob as ordens de Kim Philby na espionagem britânica. Como se sabe, Kim Philby foi o mais famoso agente duplo do lado aliado, posteriormente (em 1963), refugiado na URSS, ao ser descoberto.

Alfred Chenhalls, empresário de ator, foi confundido com Winston Churchill | Foto: Reprodução

O famoso ator Leslie Howard, que atuara no filme “… E o Vento Levou”, foi vítima da espionagem em Lisboa. O avião de passageiros da BOAC que o levava de Lisboa para Londres foi abatido, em 1943, por um caça alemão. Há uma versão de que um agente alemão que operava no aeroporto de Lisboa teria confundido Alfred Chenhalls, o empresário de Howard, com o primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill (os dois eram praticamente sósias), e alertado a Luftwaffe. Os alemães sabiam que Churchill não estava na Inglaterra e tentavam encontrá-lo. Estava no Norte da África nesse dia.

Uma estada do duque e da duquesa de Windsor em Lisboa, vindos da Riviera Francesa durante a invasão da França pelos nazistas, assanhou os espiões de ambos os lados, a começar pelos embaixadores alemão e inglês em Lisboa. O duque, em choque com a família real, era tido como simpatizante dos alemães, o que não era de todo mentira. Achava que uma aliança com a Alemanha seria o melhor para o Reino Unido. Mas daí a ser um traidor havia uma distância infinita.

Neill Lochery, historiador escocês que estuda a Segunda Guerra Mundial, Portugal e o Brasil | Foto: Reprodução

Mas os alemães haviam preparado uma Operação Willi, que consistiria em impedir a volta do duque e da duquesa à Inglaterra, e convencê-lo a atuar para uma paz Alemanha-Inglaterra, afastando Churchill do governo. A improvável operação jamais aconteceu, apesar da movimentação dos dois lados, com ajuda espanhola. O chefe de espionagem alemão Walter Schellenberg chegou a ir a Lisboa, mas voltou de mãos vazias, quando duque e duquesa se dirigiram às Bahamas, onde ele foi designado governador. O Brasil chegou a personagem indireta nesse jogo de espiões: os americanos, com quem Salazar não tinha bom diálogo, cansados de pressionar os ingleses para que conseguissem de Salazar autorização para estabelecer uma base naval nos Açores, tentaram uma ação de guerra indireta: o presidente Roosevelt tentou convencer Getúlio Vargas a ocupar os Açores com tropas brasileiras. Getúlio não concordou.

O brasileiro Plínio Salgado manteve contato com alemães em Lisboa.

Trecho do livro de Neill Lochery

“Uma das poucas estatísticas básicas confirmam a história de sucesso da economia portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial. Antes da guerra, de 1937 a 1939, havia um déficit comercial por volta de 40 milhões de dólares (50 milhões em exportações e quase 90 milhões em importações). No final de 1942, o déficit se transformara num excedente comercial de 68 milhões (240 milhões em exportações e quase 172 milhões em importações). Durante o período de cinco anos que durou o conflito, do final de 1939 até o final de 1944, Portugal teve um saldo comercial positivo total de quase 45 milhões.

“Em termos dos bancos portugueses, durante os anos de guerra, o nível de bens guardados em bancos privados dobrou, enquanto os mantidos no Banco de Portugal mais do que triplicaram. Em 1943, a receita recolhida pelo governo, em Lisboa, principalmente impostos de exportação, havia aumentado 44% acima de seu patamar no início da guerra. Simplificando, o país havia lucrado muito com a guerra econômica entre os aliados e as potências do Eixo.”

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