Rafael Jardim
Rafael Jardim

Deus não estava na Marcha “da Família”

Sequer em São Paulo conseguiram levar mais do que 100 à marcha dos fascistas. E Deus não foi um deles. Não o Deus cristão em que quase 90% dos brasileiros acreditam. Esse Deus não apoia torturadores sanguinários

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Quando meu pai comentou comigo que estavam organizando uma nova “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” em algumas cidades do país, eu respondi: “Eu não levaria isso muito a sério. Não merece essa repercussão toda”. Não que eu não soubesse que as viúvas do regime ainda estão por aí, mas por saber que é um grupo que não tem a menor condição de influenciar a pauta nacional de discussões sérias a respeito dos rumos do país. Em resumo, é um grupo que hoje fala sozinho e, mesmo sendo tristemente maior do que é em outros países que passaram por ditaduras e reconheceram mais rapidamente que o Brasil os seus efeitos nefastos, não deve ser levado a sério. Sim, é verdade: a loucura fascista ainda está presente em todos os cantos do Brasil, e as redes sociais estão infestadas de gente que tenta espalhar para todo lado suas tentações autoritárias.

Mas a risível e pateticamente baixa adesão à marcha provou o que muitos já sabiam, e mostrou que há uma distância enorme entre o mundo virtual – onde brotam comentários, textos, propostas e correntes de e-mail fascistas por todo canto – e o mundo real. É que o mundo virtual é onde os extremistas-de-qualquer-coisa aproveitam para destilar suas paranoias e visões de mundo completamente desconectadas de qualquer coisa que tenha a ver com a realidade concreta. E enquanto isso, as pessoas centradas e moderadas, que representam a grande maioria das pessoas, não ficam dando corda e nem perdendo tempo fazendo comentários óbvios para serem achincalhadas por meia dúzia de extremistas mimados e desequilibrados. Por isso, pelo silêncio da maioria e pelo barulho desses radicais, quem passa muito tempo na internet começa a achar que o país está tomado por fascistas desnaturados (é provável que o espaço de comentários logo abaixo reflita isso; a conferir).

Mas o mundo real bateu à porta: em São Paulo, mal conseguiram levar 100 pessoas à marcha. 100. Na maior cidade do país. Numa marcha que (sabe-se lá por que) foi mais do que ampla e insistentemente divulgada por praticamente todos os meios de comunicação, e com bastante antecedência. 100. Ou seja, como eu afirmara a meu pai, de fato não se deveria ter levado esse “movimento” a sério, e a repercussão que eles mereciam deveria ser diretamente proporcional à sua magnitude e importância no cenário político: nenhuma.

A ideia ridícula por trás das marchas que, no país todo, conseguiram a adesão de uma massa impressionante de menos que 1000 pessoas, é de que o Brasil sofre atualmente uma ameaça comunista. É tão ou mais tragicômico que a afirmação, feita pelo Tea Party, de que o sistema de saúde apelidado de Obamacare é o socialismo. Estados Unidos socialista. Brasil comunista. Precisa alguém perder tempo argumentando contra isso? Acho que não, né?

Perdoem a franqueza, mas de vez em quando certas coisas precisam ser ditas: apenas um imbecil completo ou um fascista com grave mania de perseguição pode realmente acreditar que o Brasil está virando comunista. E perdoem novamente, mas também apenas um imbecil completo pode realmente achar que não houve corrupção na ditadura militar. Só para se pensar que na democracia, de Sarney a Dilma, passando por Collor, Itamar, FHC e Lula, houve mais corrupção do que na ditadura (quando não havia imprensa livre e muito menos qualquer nível de transparência), é preciso ser absurdamente alienado. Sobre isso, diga-se, a belíssima reportagem de Elder Dias publicada no Jornal Opção há algumas semanas intitulada “Bom era na ditadura, quando não tinha corrupção. Ah, não?” é leitura obrigatória.

O fato, que essa minoria de fascistas desvairados ignora, é que o Brasil piorou durante a ditadura. Não é que avançou pouco, ou não avançou. Não. Piorou. A desigualdade social aumentou exponencialmente (o Índice de Gini chegou a absurdos 0,62 em 1977), e o pior: por decisão desavergonhada dos próprios militares. Ou seja, adotou-se um modelo econômico em que se soube desde o início que o abismo entre ricos e pobres aumentaria. Mais trágico que isso, impossível.

Paralelamente, desmantelou-se a educação pública, e os reflexos também trágicos disso o Brasil sente até hoje. Os militares tiveram a capacidade de interrompero Plano Nacional de Alfabetização, um programa de alfabetização de adultos altamente promissor criado por Paulo Freire e implantado por João Goulart, e que poderia ter erradicado o analfabetismo ainda antes dos anos 70. E o resultado é que ainda temos 13 milhões de analfabetos adultos no Brasil, boa parte idosos que deveriam ter sido alfabetizados lá atrás. O Brasil só melhorou na ditadura para os ricos, que nunca precisaram do Estado para prosperarem, mas tiveram uma ajuda e tanto para isso no período militar, como prova o aumento estarrecedor da desigualdade naqueles tempos.

Enquanto isso, desde a redemocratização, mesmo com perrengues aqui e ali, o Brasil melhorou, e muito. Muito mais rapidamente do que se esperava, e muito mais rapidamente do que o resto do mundo considerado “em desenvolvimento” ou “subdesenvolvido”. E nossa democracia, felizmente, está se consolidando aos poucos, com uma imprensa livre, instituições se fortalecendo e a transparência governamental gradualmente se ampliando. Somos uma das poucas democracias em que se permite até mesmo defender abertamente uma ditadura, e isso se pode fazer até de dentro do Congresso Nacional!

De fato, não se vê em nenhum outro país que passou por ditaduras militares um movimento saudosista como no Brasil que, se não é significativo e nem tem relevância alguma no cenário político, com certeza é maior do que deveria ser em um país sério. O Brasil é o único país que passou por ditadura militar em que qualquer movimentação para discutir – discutir – o que aconteceu nos seus porões vira ameaça comunista. O Brasil é o único país da América Latina que, tendo sofrido uma ditadura militar, continua passando a mão na cabeça dos militares envolvidos. É o único país, também, o único, cujo cinismo fascista de alguns chega ao ponto de se tentar fazer valer o argumento de que torturadores e torturados devem ser colocados na mesma balança. Só no Brasil se ouve isso com tamanha frequência.

Falando em fascismo: na Itália, há mais de 50 anos a Lei Scelba tipifica como crime a apologia ao fascismo. Na Alemanha, igualmente, ainda que eles tenham dificuldade em fiscalizar isto, é proibido fazer manifestações explícitas de apoio ao nazismo. No Brasil, temos um deputado que sobe no plenário da Câmara para fazer apologia não só à ditadura militar, mas aos métodos mais nefastos utilizados por eles. Enquanto isso, a ONU continua apontando o Brasil como “o mais atrasado” dos países da região na investigação dos crimes cometidos por agentes públicos na ditadura. Ingenuidade, ONU. Só poderia haver atraso se essas investigações estivessem efetivamente sendo realizadas, só que lentamente, mas nem isso o país consegue fazer.

Marcha da Família, com Deus… Deus… não sei dizer se o inferno existe, não sei dizer se acredito em um lugar de condenação eterna. Mas algo entre 85% e 90% dos brasileiros – eu incluso – acredita nesse Deus cristão. Boa parte destes, certamente, acredita no inferno. E se as coisas que o homem tem que fazer para “ganhar” sua passagem apenas de ida a esse lugar são as coisas que nós cristãos lemos e ouvimos, é de se supor que devem residir ali Adolf Hitler, Josef Stalin, Benito Mussolini, Augusto Pinochet, Saddam Hussein e alguns outros ditadores sanguinários.

Ora, mas se estes camaradas, conforme muitos acreditam, estão no inferno por terem feito o que fizeram (todos por uma “boa causa”), então é de se supor também (aplicando os mesmos critérios) que aqueles militares, Brasil afora, que torturaram e trucidaram centenas, milhares de civis, e que no Brasil continuam andando impunemente com suas mãos sujas de sangue, também têm passagem garantida para se tornarem vizinhos eternos de Hitler, Stalin, Mussolini e companhia. Portanto, seria inteligente e respeitoso, para todos nós cristãos, que os que defendem torturadores e assassinos parassem de usar o nome de Deus para isso. Pois Deus não estava nessa marcha. Não o Deus que nós acreditamos.

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