Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Brasil transferiu à ditadura de Cuba cerca de 4 bilhões de reais. Retirados dos médicos cubanos

O programa Mais Médicos, ou Mais Ditadura, se tornou mais um instrumento do governo do PT para dar sobrevida à ditadura da família de Raúl Castro

Ramona Rodríguez, médica cubana: luta contra a escravidão imposta pela ditadura de Raúl Castro

A história do programa petista Mais Médicos merece ser contada um dia, em sua verdadeira grandeza. Enquanto tal não acontece, como o sabiá no incêndio da floresta, faço minha modesta parte, e comento algumas coisas.

Relembrando: em 2013 o governo Dilma Rousseff lançou o programa, alardeando que visava dar atendimento às áreas carentes de nosso território, onde não se conseguiam contratar profissionais de saúde. Consistia a medida — dizia o governo — em atrair médicos brasileiros formados no exterior ou mesmo estrangeiros, com um salário inicial relativamente atrativo e ausência de revalidação de diploma. Algo até elogiável, à primeira vista e socialmente falando, mas que afrontava a legislação vigente.

Dilma Rousseff, ex-presidente, jogou pesado para financiar a sobrevivência da ditadura cubana

O governo firmou com Cuba, por intermédio da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), um convênio, pelo qual seriam contratados pelo governo brasileiro alguns milhares de médicos cubanos, que atuariam no programa. Começavam as coisas a ficar claras: a esmagadora maioria dos médicos do programa era constituída de cubanos. Houve, das entidades de classe, principalmente da Associação Médica Brasileira (AMB) e Conselho Federal de Medicina (CFM), protestos, e com fundamento: os médicos cubanos, a rigor, não são médicos, ao menos nos termos da medicina brasileira. Seu curso de formação profissional é resumido e não contempla especialidades. Seriam mais próximos de enfermeiros de nível médio, embora de certa forma aptos a uma clínica geral aceitável em casos de pouca gravidade ou curativos em ferimentos corriqueiros. A experiência anterior ao programa mostrava que os formados em Cuba, e muitas foram as tentativas, não conseguiam validar seus diplomas em medicina em terras brasileiras, como manda a lei.

O governo petista fez ouvidos-moucos, e os cubanos chegaram aos milhares, debaixo de certa hostilidade em alguns casos, sendo designados para os municípios ou localidades mais distantes, ao que obedeceram, disciplinadamente. Dedicados, gentis, atendiam os pacientes dentro de suas limitações. Faziam o que podiam, e os pacientes gostaram deles. Ponto para o programa. Mas as verdades começavam a aparecer, verdades desagradáveis, que os petistas tentavam a todo custo escamotear. Elas surgiam da pena dos poucos repórteres investigativos descompromissados com as esquerdas, principalmente da revista “Veja” e do jornal “O Estado de S. Paulo”, e tinham fundamento no depoimento, a princípio anônimo, dos próprios cubanos.

Médicos assaltados

A primeira verdade a surgir não era muito surpreendente, embora fosse bastante cruel: os “médicos”, ao vir para o Brasil, deveriam deixar na ilha todos os dependentes. Ficariam como reféns, a garantir um comportamento de silêncio, de total obediência à ditadura por parte dos mesmos “médicos”, e a volta deles ao fim do programa. A segunda era do mesmo naipe: agentes secretos da polícia cubana integravam as equipes médicas, encarregados de espionar os “médicos” e assegurar que não confraternizassem com os brasileiros fora dos consultórios. Namorar brasileiros, nem em sonhos. Quem o fizesse seria imediatamente repatriado para Cuba. A revista “Veja”, em fevereiro de 2014, chegou a publicar na capa a foto de uma meganha da gestapo cubana, Vivian Isabel Chávez Pérez, presente no Brasil para vigiar os “médicos” e afrontar nossa soberania.

Uma verdade mais estarrecedora surgiria logo depois: os “médicos” cubanos recebiam apenas a quarta parte do que recebiam todos os seus colegas das outras nacionalidades. Não que o Brasil não pagasse integralmente. Mas 65% de seu sofrido salário era confiscado pela ditadura cubana, com integral apoio do governo petista, da Opas e dos jornalistas e congressistas da esquerda.

Calcula-se hoje que o Brasil transferiu à ditadura da ilha cerca de 4 bilhões de reais, roubados dos “médicos” cubanos. Ouviram-se então, em 2014, dois gritos de revolta, coragem e dignidade, em meio a tanta exploração da pessoa humana: o primeiro, de uma “médica”, Ramona Rodríguez, que proclamou sua independência ao dizer em alto e bom som que era explorada, humilhada e coagida pela ditadura de seu país e que buscaria asilo nos Estados Unidos, graças a uma medida do presidente George W. Bush, de 2006, que assegurava acolhida a esses “médicos” como refugiados em seu território.

Sebastião Vieira Caixeta, procurador do Trabalho: contra a escravidão dos médicos cubanos no Brasil

Ramona Rodríguez obteve o apoio de uns poucos políticos (entre eles o senador goiano Ronaldo Caiado) e de setores mais conservadores da imprensa. Tão-somente. O outro grito foi o do procurador do trabalho Sebastião Vieira Caixeta, que protocolou denúncia contra o que classificou, acertadamente por sinal, como trabalho escravo dos “médicos” cubanos. Seus colegas, procuradores do Ministério Público do Trabalho, que se contam às centenas por esse Brasil afora, foram de uma covardia assombrosa. Embora debaixo do nariz de cada um desses procuradores se encontrasse um desses cubanos sacrificados, trabalhando muito, vigiado pelos esbirros castristas, com filhos menores deixados em Cuba e proibidos de visitá-lo, ganhando um quarto do que ganhava seu vizinho brasileiro, argentino ou boliviano também partícipe do programa, todos eles, à exceção de Sebastião Caixeta, se calaram. Covardemente se calaram, mesmo os que sempre foram arrogantes no trato com fazendeiros que cometeram deslizes mínimos nas exigências trabalhistas. Mostraram ao mesmo tempo sabujice ao governo petista e insensibilidade ao sofrimento do próximo, além de desleixo funcional, no meu entender. Mas isso fica com a consciência de cada um.

Obama e Battisti

Outra covardia se seguiria, essa vinda dos Estados Unidos e de Barack Obama. No afã de deixar algo marcante ao final de seu governo populista, o presidente americano resolveu reatar relações com Cuba. A ditadura comunista da ilha concordou, mas fez várias exigências e nenhuma concessão. Obama concordou com tudo.

Uma das exigências era suspender a concessão do refúgio aos “médicos” cubanos que trabalhavam — sempre como escravos — pelo mundo afora. O desfile de covardias ainda não teria fim. Com a queda dos governos petistas e o impedimento de Dilma Rousseff, era de se esperar que o governo de Michel Temer removesse o “entulho petista”, revogando ou alterando muitas das medidas absurdas implantadas pela ideologia ultrapassada da esquerda revolucionária apeada do poder. Começando pelo esbulho aos “médicos” cubanos. Pouco ou nada se fez.

O terrorista e assassino Cesare Battisti continua refugiado no Brasil, mas os “médicos” cubanos que recorreram à justiça (são cerca de 150) para obter equiparação salarial e asilo não o conseguem, não só pela oposição do Ministério da Saúde, como pela insensibilidade de alguns juízes. Sequer conseguem receber integralmente seus salários, como todos os seus colegas do programa “Mais Médicos” de todas as outras nacionalidades. Os juízes que decidem contra eles, terão se esquecido da hierarquia das leis? E do artigo 5º da Constituição, lei acima das demais leis, que reza: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”?

Quando for contada por inteiro, no futuro, a história do programa “Mais Médicos”, ver-se-á que foi uma história de muitas covardias: covardia do governo petista, que usou trabalho escravo para dar dinheiro a ditador “companheiro” de ideologia; covardia da imprensa de esquerda (quase todas as redações) que se calou sobre as iniquidades; covardia do Ministério Público do Trabalho; covardia do Congresso Nacional, que nunca se mobilizou contra os abusos; covardia do ministro da Saúde, Ricardo Barros, que não só não denuncia o programa, ou ao menos seus abusos, como atua na Justiça contra as pretensões — mais que justas — dos abnegados cubanos.

Mas será também uma história de dignidade e coragem, que homenageará o procurador Sebastião Vieira Caixeta, voz isolada e destemida de funcionário público honesto e consciente; homenageará os poucos congressistas que deram apoio aos cubanos; reconhecerá o brilho dos poucos jornalistas que afrontaram a patrulha esquerdista. Mas há de reconhecer a mais profunda coragem, abnegação e dedicação desses “médicos”, arrancados de suas famílias como se fazia com os antigos escravos africanos; ameaçados com o pior dos açoites, o que poderia cair sobre seus filhos; espoliados na mais valia de seu trabalho. Dian­te desse infortúnio, ainda se dedicaram a minorar o sofrimento dos brasileiros mais distantes e mais pobres. E se nem todos puderam gritar, uns tantos falaram em nome deles, como a “médica” Yaili Jiménez Gutierrez, na semana passada, ao jornal “New York Times”, clamando por asilo brasileiro: “Você se cansa um dia de ser escravo”.

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Rogério

Enquanto isso, os líderes comunistas com seus bolsos forrados de grana!!!