Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A cubana Ramona Rodríguez, a médica que não quis ser escrava

A médica está processando a Organização Pan-Americana de Saúde nos EUA, juntamente com três colegas, por danos morais e materiais

Ramona Rodríguez e o, na época, senador Ronaldo Caiado | Foto: Reprodução

De Aveiro, Portugal — Tenho profundo respeito por uma médica cubana chamada Ramona Matos Rodríguez, cuja trajetória acompanho, ainda que superficialmente, desde 2013.

Há seis anos, Ramona chegou ao Brasil, no bojo do programa petista e cubano chamado Mais Médicos. O programa, no dizer dos petistas, destinava-se a atender doentes em comunidades carentes e longínquas, onde dificilmente conseguir-se-ia contratar um médico para trabalho permanente. Esse era o fundo de bondade que existe mesmo nas coisas más. Porque o programa, principalmente para os cubanos que constituíram sua maioria, era algo mau. Mais que mau: desumano, cruel, escravocrata. O programa contemplava a contratação de médicos brasileiros e estrangeiros, estes sem necessidade da revalidação legal do diploma, para trabalho nas comunidades carentes mencionadas.

Logo, os mais inteligentes perceberam que havia uma armação, já que mais de 80% dos contratados eram cubanos. O programa destinava-se, na verdade, a repassar grossa quantia anual à ditadura de Fidel Castro, que sempre vivera de esmolas: inicialmente da União Soviética, até a queda do muro de Berlim, em 1991; e após, da Venezuela, até a morte de Hugo Chávez, no início de 2013. O Brasil socialista de Lula da Silva e Dilma Rousseff era o ajudante da vez.

Ao contrário dos demais contratados para as mesmíssimas funções, os cubanos não recebiam os 10 mil reais do seu contrato. Recebiam apenas 1.000 reais no Brasil (míseros 10%) e mais 1.500 numa duvidosa conta retida em Cuba. A parte maior (75% do total) era confiscada pela ditadura cubana. Ao final de cinco anos, alguns bilhões de reais teriam sido entregues diretamente à família de Raúl Castro, roubados desses abnegados trabalhadores, com a cumplicidade da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), órgão da ONU.

Mas isso não era tudo, e nem era o pior: cada um desses médicos tinha sido recrutado sob condições inaceitáveis nos dias de hoje: não poderiam escolher o local de trabalho; não podiam dele se ausentar sem autorização dos capatazes da polícia cubana enviados para vigiá-los, capatazes que ganhavam muito mais que eles; não podiam trazer parentes consigo — estes ficavam reféns na ilha comunista; não podiam se confraternizar e muito menos namorar brasileiros; e só depois de algum tempo — se se mostrassem comportados — poderiam receber a visita de parentes, por prazo máximo de 90 dias, desde que pagassem todas as despesas (com a miséria que ganhavam!); e outras exigências mais.

Ramona Rodríguez: uma mulher de coragem | Foto: Reprodução

As ameaças de retaliação para quem tentasse asilo no Brasil eram muitas. Os cubanos foram muito bem aceitos por nossos conterrâneos. Embora não tivessem qualificação médica para ir além dos primeiros socorros, eram dedicados, prestativos, atenciosos e simpáticos. Preenchiam boa parte da lacuna antes existente. Em suma: eram vítimas da mais odiosa exploração e restrição, mas, a despeito disso, davam o melhor de si em benefício dos brasileiros carentes.

Não sabemos precisar o número exato, mas entre 4 mil e 6 mil desses cubanos vieram para cá e foram distribuídos, sem que pudessem fazer qualquer tipo de escolha, pelos mais variados lugares do Brasil. Mas esses detalhes — e outros que comentamos a seguir — não eram de conhecimento público. Foi uma médica cubana — Ramona Matos Rodríguez — quem deu um primeiro e corajoso grito de liberdade. Servindo no Pará, depois de passar dois anos na Bolívia, com dificuldades para se manter com os 1.000 reais que recebia e, vendo seus colegas de outras nacionalidades recebendo dez vezes mais, buscou as autoridades brasileiras e protestou, reivindicando seu salário integral, e asilo no Brasil. Isso no início de 2014.

A reação foi pronta: Cuba pediu a extradição de Ramona, e o governo Dilma Rousseff não só negou o seu asilo, como colocou a Polícia Federal em seu encalço.

Deveria ser presa e mandada de volta, como acontecera no passado com dois esportistas cubanos que pretenderam desertar. E na era petista, a PF não falava em autonomia. Mas alguns corajosos vieram em socorro de Ramona: em primeiro lugar, ela conseguiu refúgio na liderança do DEM na Câmara dos Deputados, graças ao apoio do então senador, hoje governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM).

Sebastião Vieira Caixeta, procurador do Trabalho

A Polícia Federal não podia prendê-la ali. Em seguida, obteve suporte do único procurador do trabalho a se pronunciar, então e sempre, contra a injustiça e covardia a que os cubanos eram sujeitos, o goiano Sebastião Vieira Caixeta, que abriu inquérito.

Ramona já sabia que poderia obter, como obteve, asilo nos Estados Unidos. Foi para Miami. Aproveitou uma brecha aberta para os médicos cubanos que quisessem desertar, brecha que viria logo após a ser fechada covardemente por Barack Obama, que agradava Cuba no fim de seu mandato.

Nestes dias, tantos anos depois, fico sabendo que Ramona está processando a Organização Pan-Americana de Saúde nos EUA, juntamente com três colegas, por danos morais e materiais. Tentou fazê-lo no Brasil e não conseguiu. Ocorre que a Opas, ligada à ONU (e que teria por obrigação ser séria e isenta), à época, intermediou o acordo Mais Médicos, aparelhada que era — e é — pelas esquerdas, para dar-lhe aparência de seriedade. Assumiu a paternidade — e a cumplicidade — dos absurdos. Sua presidente de então, até hoje no cargo, a médica Carissa Etienne, de Dominica, vai ter que se explicar com a justiça americana, que não brinca em serviço. Esperamos que Ramona ganhe a causa. Ela merece, por sua coragem e por lutar com denodo pelo mais precioso dos bens: a liberdade.

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