Rafael Jardim
Rafael Jardim

Existem os insubstituíveis. São raros. Eduardo Campos era um deles

A unanimidade não existe, e nem deve existir. Mas a admiração e o respeito entre quem conheceu o neto de Miguel Arraes era quase unânime. Quem conheceu sua obra viu: como gestor público, o Brasil, hoje, não tem igual. Eduardo Campos foi o melhor presidente que o Brasil nunca teve

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Frase de Eduardo Campos

Quando iniciei meu curso de Administração, lembro-me de, não um, mas alguns professores dizerem que “ninguém é insubstituível”. Aliás, se me recordo bem, já tinha ouvido isso de um ou outro professor no ensino médio. Na faculdade, alguns colegas, ávidos por jargões de negócios e frases de efeito, começaram a repetir essa tese. Eu, na verdade, não discordava por completo. Concordava em parte. No mundo dos negócios, no mercado de trabalho, acho que sim, é muito difícil encontrar aqueles que todos considerem realmente insubstituíveis. Mas sempre tive certeza que, por mais raros que sejam, eles existem. Eduardo Campos era um deles.

Não, eu não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Mas tive a felicidade de poder conhecer, de perto, o que ele conquistou em e para Pernambuco. Já escrevi aqui sobre essa experiência, inclusive. Conversei com membros da sua equipe de governo, participei de reuniões de alguns programas, pude ver em números e em depoimentos de pernambucanos os resultados da pequena revolução que Campos liderou naquele estado. Naquele momento, eu, que “apenas” o admirava, passei a tê-lo como minha grande referência de gestor público.

Como consultor de gestão pública, em mais de quatro anos pude conhecer de perto o que gestores públicos estavam fazendo Brasil afora. Ministérios, governos estaduais, prefeituras, do Sul ao Nordeste. Vi alguns modelos interessantes, boas experiências, algumas com bons resultados, mas nunca tinha visto nada parecido com o que aquele governo tinha feito em Pernambuco. E tive uma certeza, que depois pude ver que era compartilhada por muitos: Eduardo Campos era o futuro do Brasil.

Talvez não fosse em 2014, mas com 49 anos, não me resta dúvida de que ele iria se tornar presidente. Talvez em 2018, 2022 ou 2026, ou até mais pra frente. Por isso, quem mais perde com essa tragédia é o Brasil. É estranho colocar isso em números, mas fico imaginando como se o Brasil fosse um veículo e sua trajetória de desenvolvimento socioeconômico fosse uma estrada. Se o Brasil avançar nessa estrada numa velocidade de, digamos, 95 por hora, não vou resistir a pensar que, se tivéssemos Eduardo, poderíamos andar a 100, 110 por hora. Mais uma vez: é estranho colocar isso em números, mas essa comparação ilustra o que ele representou enquanto gestor público – Eduardo Campos, com sua inteligência, sensibilidade, ousadia e habilidade política e gestora, era capaz de acelerar o processo de mudanças. Como ninguém. E o principal: para o bem de quem mais precisa. Alguns poucos não enxergaram isto, mas, assim como seu avô Miguel Arraes, ele respirava justiça social. Essa sempre foi a sua missão.

Pode parecer que, por idealismo ou por egoísmo enquanto cidadão, eu esteja sendo insensível ao dizer que quem mais perde com a morte de Eduardo Campos é o Brasil. Claro, a Renata perdeu o marido. O João, o Pedro, o José, a Maria Eduarda e o pequeno Miguel perderam o pai. Um bom marido e um bom pai, conforme relato unânime de todos que convivem com essa família. E claro, igualmente temos que lembrar que outras seis vidas se perderam naquele trágico acidente. Profissionais no auge de suas carreiras, um potencial futuro ministro, um homem recém-casado, pais de família, esposos. São sete tragédias, sete famílias.

Não posso, porém, esconder minha profunda tristeza enquanto cidadão. Se essa minha admiração ao gestor público Eduardo Campos pode parecer exagerada, tenho certeza que não o é para quem conheceu o que ele conquistou como homem público (em especial para o povo pernambucano) e para quem teve a alegria de conhecê-lo em pessoa. Meu sentimento, e sei que é o mesmo de alguns milhares, talvez milhões, é um misto de tristeza com raiva. Ora, justo agora, com 49 anos, no auge da sua vida política, prestes a se apresentar ao Brasil, prestes a mostrar aos brasileiros quem ele era, o que ele fez para chegar até ali, o que ele queria para o país e do que ele era capaz?

Num primeiro momento, fiquei pensando que Deus está de mal com a gente. Porém, refletindo um pouco, passei a pensar de outra forma. Não sou daqueles mais religiosos, mas alguns acontecimentos pessoais, comigo e com meu pai, me fizeram ter a certeza não só da existência de Deus, como também de sua bondade. Após pensar melhor, concluí o seguinte: um acontecimento como esse, a morte trágica de uma jovem liderança nacional, em plena campanha eleitoral para a presidência de um país de 200 milhões, não tem como ser obra do acaso. Não pode ser outra coisa se não o tal do “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mais uma vez, quero deixar claro: minha “religiosidade”, ou melhor, minha fé, está na média do brasileiro, não tenho a intenção nenhuma (nem a capacidade) de fazer pregações. Mas quero crer que isso estava nos planos de Deus, por algum motivo, algum bom motivo, que nunca conheceremos.

O que fica de concreto é que o Brasil perdeu um de seus raros insubstituíveis. E os brasileiros perderam a chance de conhecer a capacidade que ele tinha de transformar a realidade. Eduardo Campos foi o melhor presidente que o Brasil nunca

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