Afonso Lopes
Afonso Lopes

Uma campanha anticampanha

Será que essa nova forma de jogar a política no rádio e na televisão é melhor do que o que se tinha antes?

Na campanha em Goiânia, os candidatos Djalma Araújo e Flávio Sofiati mal conseguiram dizer uma ou duas frases

Na campanha em Goiânia, os candidatos Djalma Araújo e Flávio Sofiati mal conseguiram dizer uma ou duas frases

As mudanças introduzidas na legislação eleitoral que entraram em vigor este ano certamente vão ter que ser revistas. Obedecidas as proporções, simplesmente não houve campanha eleitoral, mas algo parecidíssimo com as eleições da época da ditadura militar, especialmente em relação aos vereadores. Eles mal tiveram tempo de dizer o nome e o número. Posicionamento político zero. Na época da ditadura, os programas se resumiam a apresentação de uma foto 3 por 4 e a breve leitura de um currículo.

A situação foi um pouco melhor para os candidatos a prefeito, embora o tempo de exposição também tenha encurtado bastante. Em Goiânia, por exemplo, os dois candidatos com tempo menor, Djalma Araújo e Flávio Sofiati, conseguiam dizer uma ou duas frases.

Será que essa forma de jogar a política no rádio e na TV é melhor do que o que se tinha antes? Do ponto de vista da pirotecnia eletrônica, sim, é bem melhor do jeito que está. Em relação às discussões sobre os temas da cidade e posicionamentos políticos, não, a fórmula nova não acrescenta nada.

Além de tudo, há uma excessiva judicialização dos programas eleitorais. O resultado é que os programas per­deram o conteúdo crítico. Nin­guém quis correr o risco de ir um pouco além e perder um ou dois programas por direito de resposta. Ficou, então, um joguinho de egos espetaculares, todo mundo muito bonzinho. A realidade das ruas, da opinião que se tem no meio do povo, tornou-se virtual em meio a promessas de nirvanas futuros. Dessa forma, e pelo que se viu na TV e no rádio, qualquer candidato que se eleger vai dar no mesmo: cidades bacanas, trânsito perfeito, segurança total. OK, essa é a intenção de todos eles mesmo, mas onde está o ponto crítico? Tipo: se vamos “construir” essa cidade dos sonhos, por que até hoje isso não foi feito? O que faltou?

Essas perguntas exigem respostas que carregam um importante teor político, e serve como substância essencial para o amadurecimento político não apenas dos candidatos como também, e principalmente, da população em geral. Passar por uma campanha inteira e não aproveitar um só instante para a discussão política dos problemas enfrentados no dia a dia é desperdício total.

Se faltou debates políticos no palanque eletrônico, o mesmo aconteceu nas ruas. De uma maneira geral, a população se comportou friamente, sem nem tentar questionar mais, cobrar alguma coisa. Não no sentido das benesses de chapéu alheio, mas de posições administrativas e políticas. Qual a diferença entre os candidatos? Praticamente, nenhuma. Então, o ato de votar deixa de ser a tomada de uma posição política do eleitor para simplesmente representar o resultado de um jogo de sedução.

Mas será que não é exatamente isso o que a população quer, ficar longe da política? Talvez, não. É maior a possibilidade de toda ojeriza que o cidadão comum sente pelos políticos não tenha correspondência com a política em si. Ou seja, as pessoas não gostam, obviamente, de políticos que deslizam pelos vãos da ética pública e se misturam aos subterrâneos dos negócios escusos. A boa prática política tem, sim, imensa aprovação. O que acontece é que está cada vez mais difícil separar os políticos por aquilo que eles realmente são. Então, bons e ruins acabam sendo atirados num cesto só.

A única forma de mudar essa realidade de mensalões, petrolões, trensalões e etc. e tal é discutir política. Mas discutir do ponto de vista do cidadão, e não necessariamente a partir dos pontos de interesses pessoais dos políticos, neste caso tanto faz se pertencente ao grupo dos bons ou dos ruins. Pra ficar apenas em um exemplo, falou-se um tantão sobre OS na saúde municipal. Todo mundo repetindo o mantra: contra as OS. Tá, mas contra por quê, exatamente? A explicação mais rasa possível, e unânime, é que saúde pública é obrigação do Estado, neste caso, na esfera municipal. Mas não é essa a obrigação, não. Do ponto de vista do interesse coletivo, o que a população quer é posto de saúde que funcione bem. Se é gerida por um funcionário público ou privado, pouco importa para quem necessita de atendimento. O que a pessoa quer é um posto de atendimento com profissionais em número suficiente, e equipamentos em bom estado de funcionamento.

Aliás, a saúde foi uma das vedetes dos programas eleitorais deste ano em todo o Brasil. Se tudo o que foi prometido for realmente realizado, em quatro anos nós teremos cidades de dar inveja aos países de Primeiro Mundo. Hospitais para isso, hospitais para aquilo, e na imaginação coletiva tudo funcionando como os velhos mecanismos de perfeitos relógios suíços. Ah, e tocados por… políticos. Sim, por eles, os odiados. Mas a OS é uma porta escancarada para a corrupção, dizem seus detratores. Será mesmo? Quer dizer que onde não tem a gestão de OS há uma ilha de excelência contra a roubalheira? Quem quiser ouvir a resposta, basta se abrir para as ruas. Elas gritam.

Por fim, e em boa hora, cortou-se o cordão umbilical que ligava as eleições de candidatos aos interesses dos caixas das empresas. Isso é bom? Não, é excelente. O problema é que não se avançou politicamente nesse formato. Sem o dinheiro das empresas e seus interesses, as eleições vão ficar cada vez mais seletivas. O bom candidato será aquele que tiver não uma boa postura política e vivência partidária, mas o que se apresentar com disposição para torrar grana do próprio bolso. Ou seja, a se manter as coisas da forma como se fez este ano, só candidatos ricos e amigo dos ricos vão ter oportunidade de disputar eleições, com raras excessões. A eleição, com a regra deste ano exatamente como está, vai se transformar num vestibular financeiro: quem tiver grana alta, passa. Assim, a campanha eleitoral perderá sua essência.

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