Augusto Diniz
Augusto Diniz

Tática do PT dá certo e Haddad cola em Ciro três dias depois de virar candidato

Depois de todas as críticas pelo tempo perdido de debates e sabatinas no início da campanha eleitoral, presidenciável do PT está no segundo lugar há 21 dias da votação

Em Caetés, cidade natal do ex-presidente Lula da Silva (PT) no agreste pernambucano, Fernando Haddad (PT) se encontrou com Dona Marina Maria de Jesus, de 93 anos, que costurou as primeiras roupas do líder petista preso, no dia 1º de setembro. Presidenciável mira eleitorado lulista no Nordeste | Foto: Ricardo Stuckert

No dia 22 de agosto, última rodada da pesquisa Datafolha/Folha de S. Paulo a trazer o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como candidato, o petista liderava a corrida presidencial com 39% das intenções de votos no cenário estimulado e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) tinha 19%. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) aparecia no modesto quinto lugar com 5% – atrás de Marina Silva (Rede), que aparecia com 8%, e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), nos 6% da preferência do eleitorado brasileiro.

O ex-prefeito de São Paulo, que ainda era candidato a vice-presidente de Lula, surgia no cenário sem o ex-presidente com apenas 4%, empatado no quinto lugar com o senador Álvaro Dias (Podemos). Os dois atrás do líder de intenções de votos Bolsonaro, que tinha 22%, Marina (16%), Ciro (10%) e Alckmin (9%) quando o então concorrente pelo PT era retirado do levantamento estimulado.

De lá para cá, foram duas rodadas da pesquisa contratadas pela Folha e a Rede Globo. Na primeira delas, divulgada na segunda-feira (10/9), Bolsonaro oscilou positivamente dois pontos e subiu de 22% para 24% quatro dias depois de sofrer o atentado a faca em ato de campanha em Juiz de Fora (MG) que o mantém hospitalizado até hoje no Albert Einstein, na capital paulista. Ciro assumiu o segundo lugar com um crescimento de três pontos, ao chegar aos 13%.

Marina despencou cinco pontos, caindo de 16% na segunda posição para 11% atrás de Ciro. Alckmin oscilou positivamente um ponto e saiu de 9% para 10%, empatado tecnicamente nos dois pontos de margem de erro com a candidata da Rede. Haddad, que ainda era apenas concorrente a vice de Lula, saltou de 4% para 9% e colou nos três que estavam à sua frente com grande distância na rodada da Datafolha divulgada em 22 de agosto.

Na terça-feira (11), prazo final para o PT substituir Lula, declarado inelegível no dia 31 de agosto e com recurso negado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 6 de setembro, Haddad virou oficialmente o presidenciável petista nas eleições a 26 dias da votação do primeiro turno – 7 de outubro. Três dias depois, o ex-prefeito de São Paulo apresentou mais uma alta, desta vez de quatro pontos, na nova rodada Datafolha/Folha de S.Paulo e Rede Globo, e empatou com Ciro nos 13%. O pedetista manteve-se com o mesmo percentual de preferência dos eleitores.

Bolsonaro oscilou novamente dois pontos positivos e chegou aos 26%. De 22 de agosto para sexta (14), o candidato do PSL mostrou que se mantém em curva de crescimento, mesmo que apenas 2% do eleitorado ouvido pela pesquisa diga que o atentado contra o deputado federal tenha qualquer influência na decisão do voto, enquanto 98% afirme que o fato não terá qualquer importância na hora de escolher o candidato a presidente. Marina voltou a cair, desta vez três pontos, e saiu da terceira posição para a quinta com 8%, atrás de Alckmin, que oscilou de 10% para 9%.

Enquanto Alckmin, que tem o maior tempo de TV e rádio na propaganda eleitoral e também mais inserções durante toda a campanha, não consegue romper a dificuldade de disputar eleitores com Bolsonaro, inclusive em São Paulo, Haddad, que oficialmente está há menos de uma semana na disputa, cresceu nove pontos em um intervalo de três rodadas da pesquisa Datafolha e saltou de 4% para 13%. No mesmo período, Ciro subiu três pontos, de 10% para 13%. Marina, que era a segunda preferida do eleitorado no final de agosto, com 16%, viu sua intenção de votos despencar oito pontos, caindo para o quinto lugar.

Ciro chega?

No mesmo intervalo em que petista cresceu nove pontos, Ciro Gomes (PDT) avançou três e chegou aos mesmos 13% nas intenções de votos segundo o Datafolha | Foto: Reprodução/Facebook Ciro Gomes

Os 2.820 eleitores ouvidos pelo Datafolha entre quinta (13) e sexta-feira (14) em 197 municípios confirmaram que Ciro é o candidato que, neste momento, venceria todos os cenários apresentados de segundo turno. Mas a tendência é que o candidato do PDT tenha dificuldade de chegar ao dia 7 de outubro e se consolidar nas urnas atrás de Bolsonaro. Os dados de sexta da Datafolha ainda não trouxeram a totalidade de transferência de intenção de votos de Lula para Bolsonaro. No pior cenário, se Haddad herdar pouco mais de um terço da votação lulista, chegará a pelo menos 15% do eleitorado no primeiro turno.

A dificuldade de Haddad, hoje, é reverter a polarização com Bolsonaro, tratado como o antídoto anti-PT no segundo turno. Pelo cenário mostrado pela Datafolha na sexta, o candidato do PSL teria 41% e o petista 40%, em um imprevisível resultado marcado pelo empate técnico. Se esta for a disputa final da eleição presidencial, teremos uma disputa marcada por forte polarização de eleitores contra Bolsonaro e aqueles que não querem de forma alguma um novo governo do PT numa quinta vitória seguida nas urnas.

Apesar de a rejeição de Haddad ainda ser apenas a terceira entre os presidenciáveis, ela já saltou de 22% para 26%, enquanto a de Bolsonaro oscilou de 43% para 44%. Marina segue no segundo lugar entre os nomes que o eleitor diz não votar em nenhuma hipótese, com oscilação dos 29% a 30%. Mas a tendência é a de que quanto mais conhecido o ex-prefeito de São Paulo se tornar e mais o eleitor ligue a imagem dele à de Lula sua rejeição aumente.

A diferença entre Haddad e Bolsonaro, a partir de agora, será o uso do tempo que resta de campanha nos próximos 21 dias da reta final para se expor e buscar mais votos. Enquanto o petista entrou de vez na campanha como candidato do PT a presidente e poderá viajar o País e participar dos debates, entrevistas e sabatinas, o deputado federal do PSL segue em observação internado no hospital, situação que dificulta sua atuação no meio em que tem mais força entre os presidenciáveis, a internet.

A amarra das ações eleitorais de Bolsonaro gera discussões entre seus apoiadores de coligação, inclusive com seu candidato a vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB) tentando buscar de forma isolada o protagonismo na ausência do nome de frente da chapa. Aguardemos a próxima rodada da pesquisa Datafolha, e os novos levantamentos de outros institutos, para avaliar o desempenho de Ciro, Haddad e Bolsonaro, que tem a vantagem de, na Datafolha, ter 75% de seu eleitorado a se declarar decidido do voto, sem disposição de mudar de candidato. Cada vez mais se aproxima um possível segundo turno entre o “mito” e o herdeiro escolhido por Lula.

A criticada tática de esticar a corda até Lula ser considerado inelegível e sem possibilidade de recorrer mais acabou por dar certo. O ex-presidente, mesmo da cadeia, ungiu seu substituto ao segundo lugar com duas semanas de propaganda eleitoral na TV e no rádio com o discurso de que foi injustiçado e perseguido pelos que não o queriam na disputa. Fez da retórica da vitimização a grande arma de Haddad subir tão rápido nas pesquisas de intenção de votos. E tende a colocar seu abençoado na reta final da disputa.

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