Afonso Lopes
Afonso Lopes

Sob nova direção

Em seu primeiro pronunciamento, Michel Temer agrada, mas os desafios que ele tem pela frente são imensos. Henrique Meireles será fundamental

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Qual é o mais sério problema que o presidente em exercício Michel Temer tem pela frente? Difícil especificar um só. Claro que o conjunto da economia é, por óbvio, a linha de partida para o novelo. Os anos Dilma Roussef foram desastrosos. Não há um só fundamento macroeconômico realmente saudável no Brasil. É inegável que ela herdou uma situação de descontrole que veio dos últimos anos do governo Lula, com a quebra da matriz fiscal que alicerçava a base econômica. Mas nada justifica o que ela promoveu depois, através daquilo que se chamou à época de contabilidade criativa e que descambou para as pedaladas monetárias de 2013, 2014 e 2015. Talvez seja nesse ponto que o ministro, Henrique Meireles, da Fazenda, vá se concentrar inicialmente.

Se a economia chama a atenção inicialmente pelo tamanho da encrenca que Michel Temer assume, não é o único problema. A república, simplesmente, deixou de funcionar normalmente nos últimos seis ou sete meses. A saúde, por exemplo, não consegue sequer prever e atender a demanda por vacinas, como se vê atualmente no caso da gripe H1N1. Mas não é apenas essa vacina que está em falta. De uma maneira geral, milhões de crianças deixam de receber as doses necessárias de vacinação básica por falta de estoque.

No setor de infraestrutura, a situação das rodovias não privatizadas é horrível na grande maioria dos casos. Serviços de manutenção e de reposição de massa asfáltica deixaram de ser feitos há meses, e o resultado são trechos praticamente intransitáveis em todo o país.

É claro que o exemplo da saúde e das rodovias se repete como uma grande infelicidade ampla, geral e irrestrita em todos os demais setores de responsabilidade do governo. E as razões são sempre as mesmas: não há dinheiro. É por aí que se percebe a dimensão da tarefa atirada sob os ombros do ministro Meireles. Não será possível, e nunca é quando se trata de economia, da noite para o dia que a situação vai mudar. Ao contrário, analistas econômicos sérios das mais variadas escolas e matizes são unânimes ao prever que o Brasil entrou em uma espiral negativa tão séria que a economia enfrentará o que se chama de década perdida.

É claro que isso não significa que os brasileiros vão sentir o incômodo econômico-financeiro em suas vidas por igual período. Nesse caso, as mudanças surtem efeitos bem mais rápido. A questão é quando se observa para a macroeconomia, onde se firmam os alicerces de sustentação. É aí que a coisa realmente pega, e onde as soluções mágicas conseguem até maquiar — como se fez à exaustão desde 2009 —, mas fatalmente terminam em colapso, como se encontra hoje.

Colocar o Estado brasileiro dentro do Estado não é tão simples, e por isso a tal década necessária para recuperação plena. Temer acertou a mão ao escolher Henrique Meireles para a tarefa. Ele é um sujeito determinado, com ótima visão monetarista. E isso significa dizer que ele é um “linha dura”, quase intransigente. A vantagem é que, ao mesmo tempo, o cara é de fácil traquejo na área política. Em outras palavras, ele tem a rudeza do executivo que sabe o que pode e o que não deve ser feito, mas conhece as sutilezas da melhor forma de dizer “não”.

Onde ele vai atacar primeiro? Provavelmente no realismo econômico. O Brasil viveu sob o domínio da fantasia econômica. Gastou-se tudo o que havia para gastar, ampliou-se ainda mais o rol de obrigações financeiras do Estado e avançou-se sobre um abismo de déficit – sempre devidamente maquiado. Em brevíssimos períodos, emergenciais, não é inusitado que governos ajam dessa maneira. Faz parte do grande gerenciamento da macroeconomia, através do qual consegue se evitar maiores danos na economia durante surtos de crise geral. O problema é quando esse artificialismo se torna corriqueiro, como acontece desde 2009. O mercado percebe que alguma coisa está errada e se retrai, gerando então uma reação em cadeia que leva o país para o buraco.

O retorno para o realismo econômico-financeiro é sempre traumático, e significa rigidez monetária, o que equivale a dizer cortes imediatos nas despesas. Esses cortes atingem todos os setores, e aqui entra a gestão política dos governantes, que devem optar onde se vai agir com mais rigor e onde a situação terá que ser amenizada por ser impraticável cortes mais profundos.

Numa empresa, a crise pode ser resolvida com suspensão de turnos de produção, e demissões, cortes na linha de comando e diminuição geral inclusive no padrão dos fornecedores de matéria-prima. No Estado não há como fazer uma coisa assim. É possível agredir a “gordura”, mas com certa limitação nos efeitos colaterais gerados politicamente.

Não há alternativa para o governo de Michel Temer. Ou ele conserta os rumos da economia, e devolve confiança ao mercado para que ele também apresente reação natural, ou o buraco vai se aprofundar. Meireles é então absolutamente fundamental. Do seu sucesso vão depender todas as demais ações que Michel Temer pretende desenvolver, como a manutenção dos programas sociais, a recuperação da infraestrutura e a devolução da esperança de dias melhores para os cidadãos. Não é à toa que a vacina está em falta. Não há dinheiro. Querendo ou não, é ele que nos move. Ideologia é sempre linda no verbo e no adjetivo. Na prática, vale absolutamente nada. A Venezuela que o diga, e sirva de exemplo.

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