Elder Dias
Elder Dias

Sergio Moro vai às eleições. Pela 2ª vez, dizem as más línguas

Em 2014, ele esteve no colo da população, mesmo de parte da esquerda, como paladino da justiça; hoje virou piada “a torto e à direita”

Era 1º de novembro de 2018 quando Sérgio Moro anunciou que aceitava ser ministro da Justiça e da Segurança Pública do presidente eleito Jair Bolsonaro. Foi quando o ator
Eric Carvalho gravou para o YouTube um vídeo cercado por bandeiras do Brasil – várias na parede, uma enrolada no pescoço – e segurando um livro sobre a Operação Lava Jato, com a foto do então juiz na capa.

Em meio a isso, extremamente empolgado, ele parodiava a letra de Pingos de Amor, clássico de Paulo Diniz, para declarar a boa nova: “É Lava Jato! Sérgio Moro é o novo ministro da Justiça e também da Segurança Nacional, eu te amo, Sérgio Moro!”, cantarolava envolto em verde e amarelo, quase em transe, como se comemorasse um título de Copa do Mundo.

Como é um ator, não dá para saber até que ponto Eric interpretava ou exalava um entusiasmo à beira do inacreditável com a notícia.

Exageros performáticos à parte, a verdade é que, naquele momento, o desgaste do ainda juiz já era grande com boa parte da população brasileira. Essa parcela acreditava que Moro havia ultrapassado em muito seu papel de magistrado e não julgado, mas também conduzido o destino da Operação Lava Jato durante a investigação. Mais do que isso, ele teria interferido na política nacional em momentos-chave: o primeiro, o vazamento ilegal de um áudio – como ele próprio admitiu, dizendo tratar-se de um “erro” – entre a então presidente Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, a quem convidara para ser ministro de modo a conseguir evitar seu impeachment; e depois, outro vazamento, de um depoimento do ex-ministro petista Antônio Palocci às vésperas do primeiro turno das eleições de 2018.

Esses de olhos desconfiadíssimos para o juiz eram na grande maioria eleitores de Lula, mas não apenas e não necessariamente de esquerda, mas todos os críticos a arbitrariedades que a Lava Jato havia cometido em nome do combate à corrupção. A pressa em condenar o ex-presidente também não passou em branco a essa parcela. Do outro lado, a direita comemorava, nem todos, claro, no embalo de Eric Carvalho.

Bastou menos de um ano e meio para que a ala “conservadora” também defenestrasse o então já ex-juiz. Sergio Moro não gostou da mudança da chefia da Polícia Federal, na qual perdia seu indicado, Maurício Valeixo, para um amigo da família Bolsonaro, Alexandre Ramagem. Entregou o cargo e acabou ganhando no presidente um novo inimigo. E, no racha entre bolsonaristas e lavajatistas, a conta ficou bastante desfavorável ao ministro demissionário. Para os “patriotas”, passou a estar ali apenas mais um traidor do “mito”.

Antes disso ocorrer, porém, os velhos contestadores de Moro já diziam seu “eu não disse?”. O trabalho do site The Intercept Brasil abriu uma caixa de Pandora que foi chamada de “Vaza Jato”. Dela, saíram diálogos comprometedores entre procuradores e o então juiz da Vara Federal de Curitiba, com combinações nada republicanas sobre os destinos dos acusados na Operação Lava Jato – principalmente Lula.

Sérgio Moro: é a segunda vez dele participando das eleições? | Foto: Lula Marques

Tudo isso culminou, em março, na anulação das provas contra o ex-presidente. Lula passava a ter novamente ficha limpa, o que não apagava o período de 1 ano e 8 meses de cadeia. O passo seguinte foi Sergio Moro ter sido considerado parcial em seus julgamentos, o que equivale a dizer que foi corrupto – no sentido de corromper o Estado de Direito – ao proferir suas sentenças.

É nesse cenário que ele agora resolveu se filiar ao Podemos e se lançar na política. Diga-se: sob a desconfiança de quase todo o mundo da política. A direita que está no poder não confia nele; a esquerda, obviamente, muito menos; os deputados e senadores do Centrão, além de muitos ministros, têm sede de vingança – o que fica claro nas votações contra o Ministério Público e pró-blindagem de políticos que têm tentado conduzir no Congresso.

Então, o que sobra de margem a Sergio Moro? Um punhado de admiradores entre os militares e uma meia dúzia no partido – entre eles o senador Álvaro Dias (PR).

O que quererá o juiz? Concorrer à Presidência? Não dá para dizer que não tem chance, mas a capacidade de crescimento de sua pré-candidatura parece mínima no cenário atual, em que o País tem milhões passando fome, todos estão preocupados com a economia e a saúde e a corrupção foi assimilada, inclusive pela direita bolsonarista, como algo para se “pensar depois”. Talvez uma mais realista opção de entrada para a política de mandato seja o Senado, herdando a vaga do admirador e correligionário Álvaro Dias.

E Dallagnol?
O que pode deixar Moro mais acolhido é o fato de não ser a única personalidade da Lava Jato a buscar mandato em 2022: Deltan Dallagnol deixou o Ministério Público Federal para se lançar na corrida eleitoral, também pelo Podemos.

O que não há é o que pague e apague o bom humor gerado por essas postulações. Tudo pode ser sintetizado pela publicação do site Sensacionalista, com o título: “Moro e Dallagnol decidem participar das eleições pela segunda vez”.

Para quem em 2014 já esteve no colo da população, mesmo entre boa parte da esquerda, como os paladinos de um Brasil sem corrupção, o que se tornaram faz a piada ser merecida e apropriada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.