Augusto Diniz
Augusto Diniz

Recorte momentâneo das eleições reforça disputa PT x Bolsonaro

Eleitor pode até não optar pelo candidato a presidente petista ou o deputado federal do PSL no primeiro turno, mas não terá para onde correr no voto final

Por mais que pesquisas indiquem Marina (Rede), Ciro (PDT) e Alckmin (PSDB) na cola de Bolsonaro, candidato do PSL tem grandes chances de ir ao segundo turno com nome do PT | Fotos: Ricardo Stuckert e Fernando Frazão/Agência Brasil

Antes que o tribunal dos fanáticos das redes sociais comece a despejar seu arsenal de ofensas e xingamentos gratuitos por discordar do título – muitos nem chegarão às primeiras linhas desta coluna –, é preciso uma explicação de lógica e legislação eleitoral. Por mais que uma das alas do PT insista em levar até à data limite a tentativa de ter o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva candidato ao Palácio do Planalto, sua prisão preventiva – autorizada após condenação em segunda instância pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro – o empurrará diretamente aos termos de inelegibilidade previstos na Lei da Ficha Limpa.

Mesmo que a situação se arraste até o dia 17 de setembro, o Partido dos Trabalhadores terá de oficializar seu plano B, que há muito tempo é mais do que a única alternativa, com a substituição do nome de Lula pelo de Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo. Esclarecido esse ponto, tomemos como cenário do momento – e que tende a se consolidar nas próximas semanas – como referência: Lula não só lidera como cresce nas pesquisas de intenção de voto. O petista chegou na última semana, de divulgação de três levantamentos de institutos diferentes, aos 39% na pesquisa estimulada para presidente realizada pelo Datafolha.

O percentual do até então candidato do PT é 20 pontos percentuais de frente ao consolidado segundo lugar do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) na corrida presidencial. O capitão da reserva do Exército tem 19% quando Lula aparece entre as opções de voto do eleitor e pula para 22%, na liderança, sem o ex-presidente na lista de candidatos. O petista e o deputado do PSL se colocam muito à frente do restante dos outros 11 concorrentes – Marina Silva (Rede) tem 8%, Geraldo Alckmin (PSDB) 6% e Ciro Gomes (PDT) no cenário com Lula na disputa e, respectivamente, 16%, 9% e 10% quando é retirado o nome do ex-presidente.

Bolsonaro, ao contrário do que muitos analistas e eleitores acreditavam, mostra um poder de consolidação das intenções de votos e pode, se mantiver o percentual de 22%, surgir como um dos candidatos no segundo turno da corrida presidencial. Antes desconhecido por parte do eleitorado, já bateu na casa dos 79% que sabem quem é o deputado do PSL na disputa e acumula uma rejeição de 39%. Superou, inclusive, o percentual dos que declaram não votar em Lula de jeito nenhum, que é de 34%. Mas o PT tem um problema, pelo menos momentâneo, que é ver o substituto Haddad surgir apenas com 4% da preferência de quem vota quando é colocado no lugar de Lula.

Os dados apresentados de intenção de voto, aliado ao poder de divulgação da candidatura na TV e no rádio de Alckmin, traria um provável segundo turno entre Bolsonaro e o candidato do PSDB. O capitão da reserva, que terá 8 segundos nos blocos de 12 minutos e 30 segundos da propaganda eleitoral a partir de sexta-feira, 31, somados a 11 inserções de 30 segundos nos intervalos comerciais no rádio e na televisão, terá de disputar com o tucano, que abocanhou 5 minutos e 32 segundos do tempo e um total de 434 pílulas entre a programação das emissoras abertas até 4 de agosto. A carta que Alckmin conseguiu para alavancar sua candidatura vem da coligação formada por PSDB, PRB, PP, PTB, PR, PPS, DEM, PSD e SD, a mais poderosa também na divisão do fundo eleitoral.

Disputa da poralização

A dificuldade do tucano tende a ser saber trabalhar bem tanto tem­po de exposição no rádio e na TV sem parecer um candidato cansativo que explora mal toda essa exposição nos 35 dias de propaganda eleitoral nas emissoras abertas. Pelo histórico de Marina, que não conseguiu manter sua boa intenção de voto por muito tempo nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, há uma grande possibilidade de o segundo lugar ser facilmente tomado pelo PT, mesmo que com Had­dad, hoje com apenas 4%, a partir do momento em que Lula oficialmente declarar apoio ao ex-prefeito de São Paulo na campanha. Mesmo que Haddad, no pior dos cenários de transferência de votos, receba apenas um terço dos eleitores que iriam com o ex-presidente nas urnas, o petista entraria na disputa com no mínimo 13%.

Se Lula conseguir transferir dois terços do seu eleitorado para Haddad, o ex-prefeito de São Paulo tomaria o primeiro lugar de Bolsonaro no primeiro turno com 26% da preferência daqueles que podem votar. Há outro dado que não pode ser esquecido. De acordo com a pesquisa realizada pelo Datafolha, quase 60% dos eleitores de Lula não sabem quem é Haddad. Apesar de ser uma tática altamente arriscada, mas chegou ao ponto em que ela é a que restou ao PT, pode haver um repasse ainda maior a Haddad, vindo do apoio aberto e declarado da maior liderança petista.

Caso isso se consolide – algo que já é tratado como uma realidade pelo Palácio do Planalto chefiado por Michel Temer (MDB) – Alckmin ficaria de fora da votação final. O tucano assistiria a Bolsonaro e Haddad disputarem a Presidência da República no dia 28 de outubro. O embate seria a reedição da polarização do segundo turno de 2014, quando eleitores se dividiram entre a rejeição ao PT ou o não ao projeto de Aécio, o candidato antipetista. De acordo com o Datafolha, uma disputa final entre Bolsonaro e PT seria a única chance que o candidato do PSL teria de sair vitorioso por reforçar a posição de ser Bolsonaro a opção contra o partido que venceu as últimas quatro eleições presidenciais e sofre com a antipatia de parcela considerável da população.

Como a rejeição de Bol­sonaro é a mais alta dos 13 candidatos, se a tática do fisiologismo do considerado “candidato do sistema” Geraldo Alckmin – que é tratado por Temer como o presidenciável do governo ao preterir Henrique Meirelles (MDB) –, veríamos o tucano crescer sobre o eleitorado do deputado federal do PSL. Principalmente em São Paulo, reduto no qual o peessedebista demonstra dificuldade de superar Bolsonaro no início da curta campanha eleitoral. Caso a força da máquina partidária e da coligação do tucano se consolide e abafe o mito das redes sociais, aliada a uma transferência bem sucedida de votos de Lula para Haddad, o cenário menos provável dos três se consolidaria no segundo turno: a quinta disputa entre PSDB e PT, como avalia o cientista político Alberto Carlos Almeida no livro “O Voto do Brasileiro” (Record, 2018).

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