Afonso Lopes
Afonso Lopes

Quando os governos se exaurem?

Do alto de sua vasta experiência, o ex-deputado federal e presidente regional do PSD, secretário Vilmar Rocha, entrou num caldeirão de polêmica. Segundo ele, a base estadual se exauriu. É uma percepção sensorial ou mero palpite?

Secretário Vilmar Rocha defendia que seu partido compusesse a chapa majoritária da base que ele diz agora ter se exaurido

O secretário de Meio Ambiente e Cida­des, ex-de­pu­tado Vilmar Rocha, fez uma declaração perturbadora do ponto de vista da base aliada estadual comandada pelo governador Marconi Perillo, e que se mantém no comando político-administrativo do Estado desde 1999. Entre outros pontos de vista, Vilmar decretou a pena de morte para o programa de governo que conduz o Palácio das Esmeraldas. “A base aliada se exauriu”, assegurou ele. Ou seja, morreu, acabou.

Vilmar não explicou o que o levou a pensar dessa forma de maneira repentina. Até muito recentemente, ele defendia que seu partido pudesse participar da composição da chapa majoritária dessa mesma base que ele diz agora ter se exaurido. Mais do que isso, desde o ano passado ele insiste que será candidato a governador ou a senador da República.

Mas, afinal, governos se exaurem? A resposta é sim, governos podem eventualmente perder o entusiasmo. Mais ou menos como ocorre com as pessoas. Com o passar dos anos, o ímpeto juvenil dá lugar a um certo comodismo. Mas também como ocorre com as pessoas, tem velhinhos e velhinhas por aí que esbanjam jovialidade, mais até que muitos jovens. Isso vale também para os governos, que dependem de constante renovação de ideias e de práticas de ação administrativa. Seria o caso de se perguntar ao secretário se ele acha que todos estão desanimados e acomodados ou se apenas ele está.

Por outro lado, a troca de grupamento político é sempre uma equação bem mais complicada. O eleitor topa trocar governos com os quais não se identifica plenamente sem maiores problemas, mas não pula no escuro. Antes de mudar, o eleitor procura saber o que lhe é oferecido como alternativa àquilo que ele tem. Ou seja, normalmente, o curso das mudanças de comando passa pela exaustão do grupamento que está no poder e das propostas que os grupos adversários conseguem oferecer como alternativa.

Uma pergunta pertinente é: o governo atual ainda se renova em termos de ação administrativa e comportamento político? A resposta é simples, fácil e direta: sem nenhuma dúvida. Para ficar em um exemplo do atual período administrativo, basta observar o programa Goiás na Frente. Há inovação na proposta? A base da ideia é idêntica, erguer obras que atendam aos interesses dos cidadãos. A forma como isso está se fazendo é, sim, absolutamente inédita. Qual outro governo adotou o repasse da verba diretamente para os prefeitos para que o próprio município faça a obra de acordo com seu projeto ideal? Até então, a prática era outra. O prefeito subia os degraus do Palácio, pedia a obra, e o Estado ia lá e fazia tudo sozinho. Agora, é a própria cidade quem faz.

E houve alguma mudança na prática política? Os próprios prefeitos filiados a partidos da oposição garantem que sim. Nenhum deles declarou se sentir discriminado pelo governo do Estado por não pertencer a um dos muitos partidos que integram a base aliada que governa o Estado. Como era antes? A obra saía, mas a ficha de filiação sempre antecedia a ordem de serviço. Até mesmo o arquirrival Iris Rezende, um dos maiores líderes políticos da história estadual, teve qualquer forma de constrangimento para ir ao Palácio, e depois receber o governador na Prefeitura, acertar parceria administrativa. Isso seria algo impensável há alguns anos.

Na trincheira do outro lado, o que se vê até agora é somente uma guerra sem quartéis entre os dois principais postulantes ao governo estadual, o deputado federal Daniel Vilela, presidente regional do PMDB, maior partido de Goiás em número de filiados, e o senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM. Sobre propostas, ambos defendem pontos de vista praticamente idênticos: é hora de mudança ou de mudar. É óbvio que eles sabem que vão ter que construir uma plataforma de governo que supere o que o eleitor tem recebido. Só falar em mudança não muda nada. É um discurso que agrada apenas ao já convertidos, sem capacidade de convencer eleitores fora desse círculo.

Também o governo terá que apresentar um leque de propostas que avancem em relação ao estágio que está inserido na percepção do eleitor. Adotar o discurso do “mais do mesmo” é tremendamente arriscado, vide o resultado de 1998, que decretou o fim da era peemedebista no Palácio das Esmeraldas. O PMDB, naquela eleição, cometeu o erro terrível, e que se revelou fatal, se manter tudo como sempre esteve. As propostas do Tempo Novo avançaram e a então oposição, um pequeno exército mambembe de apenas quatro partidos, virou uma eleição improvável.

Talvez por todo esse conjunto de determinantes é que a declaração de Vilmar Rocha tenha gerado um enorme mal estar para ele dentro da base aliada. Vozes discordantes foram ecoadas em vários setores, mas não se ouviu um só curto comentário de apoio a ele. Ao final, a imagem que ficou é que Vilmar se virou contra a base aliada porque percebeu que a sua postulação, governador ou senador, não encontrou eco. Não parece ter sido percepção sensorial ou palpite. Soou como mero desabafo de alguém que não teve acolhida a sua pretensão.

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Luciano Almeida

Na minha percepção quem “se exauriu” foi Vilmar Rocha.
Acompanho suas sucessivas reeleições como deputado estadual e federal. Nem os eleitores de Niquelândia conseguem apontar os benefícios advindos dos mais de 40 anos de vida pública de Vilmar. Bastaria comparar –
seus “feitos” (quais??) na vida pública com as realizações do governador que lhe deu generosos espaços para saber quem “se exauriu” no ‘dolce far niente’. Paro por aqui. É melhor esquecer quem nada fez para ser lembrado.