Augusto Diniz
Augusto Diniz

Quando o ódio cega até aqueles que veem a morte diante dos olhos

No momento em que um candidato sofre um atentado, não há espaço para rebolismos retóricos ou pseudojustificativas do ataque contra um adversário

Oportunidade de defender a democracia contra demonstrações de ódio virou combustível irracional da ira política | Foto: reprodução

Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, cometeu um ato inaceitável na tarde de quinta-feira, 6, que deveria ser condenado por qualquer ser humano lúcido. Com uma faca, se apertou entre os apoiadores do candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) nas ruas de Juiz de Fora (MG) e, enquanto o capitão da reserva do Exército e deputado federal era carregado e cumprimentava seus eleitores, Adélio atacou Bolsonaro com um golpe no abdômen. Não basta a gravidade do presidenciável, internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Juiz de Fora, que seria submetido à segunda cirurgia em menos de 24 horas na sexta-feira, 7. Houve quem perdeu qualquer racionalidade e tentou justificar o atentado sofrido pelo concorrente ao Palácio do Planalto. E não foi pouca gente!

Antes mesmo de os canais de televisão repetirem exaustivamente os vídeos de celular que registraram Bolsonaro sendo atacado por uma facada, os memes e piadas com a situação eram o conteúdo mais compartilhado por parte dos usuários do Facebook, Twitter e WhatsApp. Em seguida, ao invés da preocupação com o estado de saúde do candidato, muita gente se colocou na posição de detetive virtual especializado em possíveis falhas de narrativa das mais vergonhosas e começou a discutir teorias conspiratórias sobre o atentado mais esquizofrênicas do que as motivações que podem ter levado Adélio a comprometer a sua vida e a do capitão da reserva que cumpria agenda de campanha e culpa alguma tinha pelo golpe recebido no abdômen.

Inimigo de Bolsonaro, da maçonaria, do MBL, do Temer e quem sabe do curupira, Adélio disse em vídeo, momentos depois de tentar matar o candidato do PSL, que havia agido a mando de Deus. Se o delírio do ódio irracional do suspeito preso em flagrante por tentativa de homicídio já não fosse uma maluquice sem tamanho, começaram a surgir tweets e discussões intermináveis no Facebook sobre o ódio como resposta a agressividade de Bolsonaro em sua campanha, como se o capitão da reserva tivesse pago na mesma moeda por ter ameaçado “metralhar petralhas”. Os mesmos petistas que, quando tinham Luiz Inácio Lula da Silva (PT) presidente da República, defendiam o fim da oposição. Mas tudo bem. Enquanto o discurso de ódio não gerava ações violentas muitos pensavam que a retórica irracional poderia ser inofensiva.

O autor da facada estava na delegacia da Polícia Federal (PF), já que tentou matar um candidato a presidente da República, o que deveria chocar até o mais fervoroso inimigo de Bolsonaro, quando comentários como “se tivesse usado uma faca maior teria feito o serviço completo” e “nem para matar esse maldito”. A palavra usada não era “maldito”, mas prefiro não reproduzir o que não acrescenta ao debate. Ao ver a imagem do deputado federal sendo atingido por uma facada, além da torcida para que ele se recupere o quanto antes e volte a fazer campanha e defender seu projeto – independente de ter algum ou estar tudo nas mãos do Paulo Guedes –, a saudade das agressões da eleição presidencial de 2010 logo vieram. Há oito anos, uma bolinha de papel rendeu uma semana de discussões com um ato inaceitável de violência e ódio contra um presidenciável. Hoje vivemos da ameaça de tiros contra caravanas e facadas em políticos durante eventos de campanha.

Eu não senti a dor da ponta da faca perfurar meu intestino grosso, delgado e a artéria mesentérica, nem fui submetido a um procedimento cirúrgico – laparotomia exploradora –, mas percebi que uma das instituições que mais defendo foi gravemente ferida pelo golpe desferido contra Bolsonaro. A democracia, que duramente é atingida por malucos e bots nas redes sociais, se viu encurralada em um beco quase sem saída. Quanto mais atitudes irracionais ganham palco no debate coletivo e eleitoral, maior é a dor e a possibilidade de catástrofe até o dia 7 de outubro. Se o candidato do PSL é seu inimigo no projeto que tem a apresentar para a economia, o convívio e o resgate da dignidade do País, tente derrotá-lo nas urnas. Não como quem abate um animal de forma violenta. Estamos em um processo de análise de propostas para os próximos quatro anos na Presidência da República, no governo de Goiás, no Congresso Nacio­nal e na Assembleia Legislativa. Ninguém aqui tem o direito de decidir se uma pessoa, por mais absurdas que pareçam suas ideias para você, deve continuar viva ou morrer. Acho. Só acho… que a pena de morte não existe e nem é permitida pela Constituição. Me corrijam por favor se eu estiver errado.

Montagens de fotos falsas com Adélio ao lado de Lula ou que não condizem com o evento tratado, como a de um compromisso de campanha de Bolsonaro pela manhã de quinta, para retratar a suposta chegada do candidato andando – o que não aconteceu – à Santa Casa na tarde do mesmo dia, após a facada, viraram o combustível do ódio despertado em 2013 no Brasil. Blogueiros e sites duvidosos resolveram também dizer que o homem que tentou matar o candidato seria filiado ao PDT, PT, quando na verdade foi do PSOL de 2007 a 2014. Como se o PSOL tivesse culpa por um ódio incompreensível por maçonaria, políticos e sabe-se lá mais o que “a mando de Deus”, o que também não passa de uma maluquice. Se os partidos políticos tivessem como controlar quem se filia aos seus quadros, o presidenciável Cabo Daciolo (Patriota) nunca teria sido do mesmo PSOL, que nada tem a ver com suas propostas.

Se você acredita que a facada dada em Bolsonaro se justifica de qualquer forma, cuidado. Caso a cena – e tudo que ela simboliza – ainda não lhe preocupe com o futuro dos tempos de ódio que temos observado e vivenciado, reflita. Na quinta um homem aparentemente perturbado esfaqueou um candidato a presidente. Amanhã pode ser você em uma conversa de bar com um colega de serviço. E torça para ser só uma faca. Porque da bolinha de papel em 2010 para uma facada em 2018, daqui a pouco teremos pessoas mortas a tiros porque não votarão no mesmo candidato a presidente, governador, senador ou deputado. E lembre-se: o ódio que você defende ou trata como justificado e aceitável hoje contra Bolsonaro pode ser o motivo da sua morte amanhã. Enquanto isso, continuarei a defender a democracia, mesmo quando tentarem provar com violência que a barbárie é um caminho sem volta. l

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