Augusto Diniz
Augusto Diniz

Qual Bolsonaro governará o Brasil?

O presidenciável que venceu o segundo turno das eleições mostrou duas possibilidades completamente diferentes na noite de domingo (28/10) em seus pronunciamentos

Acompanhado de agentes da PF e da mulher Michelle, Bolsonaro votou no Rio no domingo (28/10) | Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Uma vitória esperada e merecida. Esperada porque as pesquisas de intenção de votos dos institutos Ibope (54% a 46%) e Datafolha (55% a 45%) – todas com dois pontos para mais ou menos de margem de erro – trouxeram no sábado (27/10) um registro do momento eleitoral na corrida presidencial. Merecida porque 57.797.847 dos 115.933.451 eleitores brasileiros que foram às 454.490 seções eleitorais no domingo (28) votaram no deputado federal e capitão da reserva do Exército Jair Messias Bolsonaro (PSL-RJ), que foi eleito presidente da República com 55,13% dos votos válidos.

Jair Bolsonaro nada tem a ver com o fato de que a votação válida ter sido de 90,43% dos eleitores que optaram por um dos dois candidatos a presidente e fizeram uso do seu poder de decisão, se 2.486.593 brasileiros apertaram a tecla branco – 2,14% -, outros 8.608.105 anularam se voto – 7,43% – e outros 31.371.704, o que dá 21,30% do eleitorado brasileiro, nem quis ir às urnas no domingo. Mas Bolsonaro precisa ter ciência de que precisará moderar seu discurso e governo porque sabe que, além dos votos brancos, nulos e as abstenções, seu projeto foi rejeitado por 47.040.906 eleitores, e que muitos desses 44,87% dos votos válidos entenderam que o “Projeto Fênix” ou “O Caminho da Prosperidade” como uma ameaça à democracia no País.

Cabe também ao candidato derrotado nas urnas, o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), avaliar os erros cometidos pelo Partido dos Trabalhadores ao se afastar de suas bases ao longo dos dois governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os cinco anos e cinco meses de gestão Dilma Rousseff e a autoavaliação e reconhecimento do envolvimento de filiados com os escândalos de corrupção do Mensalão Petista e os revelados pela Operação Lava Jato. O excesso de vitimização no discurso da legenda cansou grande parte dos brasileiros, que não se viu mais identificado com o projeto de governo de um partido que não teve a humildade de reconhecer seus erros.

Ainda há muito mais a ser feito pelo PT após a derrota nas urnas no domingo para um candidato de extrema-direita. Mesmo que o adversário tenha dito que iria “fuzilar a petralhada” em discurso de campanha no Acre, cabia como gesto de cordialidade um ligação que fosse ao presidente eleito por parte de Haddad. Um tweet na segunda-feira (29) para quem demonstrou que pretende respeitar o resultados das urnas. Urnas essas que não foram fraudadas, e também mereciam um pedido de desculpas de Bolsonaro aos brasileiros que acreditaram nesse discurso vazio e eleitoreiro, inclusive à Justiça Eleitoral, que foi desafiada, ameaçada e descredibilizada por mentiras ao longo da disputa por votos.

O PT precisa aprender a separa as lutas de defesa do que chamam de um julgamento justo, com base na lei, do ex-presidente Lula da Silva, condenado a mais de 12 anos de prisão, do projeto eleitoral e de governo. Reclamar da postura adotada pelo ex-candidato Ciro Gomes (PDT) no segundo turno depois de ter dado uma rasteira no apoio do PSB à candidatura do pedetista ainda na pré-campanha não é nada justo ou correto. A candidatura de Haddad, que antes era de Lula, foi derrotada por erros estratégicos, principalmente de 2013 em diante, do próprio partido, não de agentes políticos de outras legendas. Acusar é sempre o caminho mais fácil quando há dificuldade de se curvar e olhar para o próprio umbigo.

Mas o que nos interessa é o que podemos esperar do governo Bolsonaro a partir do dia 1º de janeiro de 2019. Desde a noite de domingo, analistas, jornalistas, cientistas políticos, economistas e outros profissionais tentam desvendar junto à equipe do presidente eleito o que serão sua gestão em cada área. Por enquanto, o que paira é uma enorme incerteza sobre quase tudo. Como vivemos uma eleição extremada por uma polarização artificial do discurso político de campanha, inclusive na qual o PT optou por disputar o segundo turno com Bolsonaro, nada ou pouco se sabe do programa de governo do candidato eleito do PSL além do que está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na noite de domingo, Bolsonaro fez dois discursos quase que completamente antagônicos. No primeiro, em uma live nas redes sociais, dirigidos aos seus apoiadores, o tom foi agressivo e segregador. Quando se dirigiu ao pronunciamento ao vivo em uma rede de emissoras de TV, o tom foi mais ameno e de união de todos os Brasis existente em nosso País. A dúvida que fica é qual dos dois Bolsonaros governará a partir do Palácio do Planalto, em Brasília.

Bolsonaro da live
Ao lado da mulher Michelle Bolsonaro, de 36 anos, e Angela, intérprete de Libras, o presidente eleito Jair Bolsonaro, de 63 anos, as cumprimentou no início da transmissão da live e agradeceu a Deus pela oportunidade e, junto com os médicos, o salvaram depois do atentado no dia 6 de setembro em Juiz de Fora (MG), quando levou uma facada no abdômen. “Com toda certeza ele reservou algo para mim e para todos nós aqui do Brasil. Esse 1º contato meu, via live, deve-se ao respeito, à consideração, à confiança que tenho no povo brasileiro. Eu também só cheguei aqui porque vocês, internautas, povo brasileiro, realmente vocês acreditaram em mim.”

Bolsonaro lembra que, há quatro anos e na mesma cadeira, decidiu sozinho disputar o cargo de presidente. Até aqui, o discurso é de otimismo. “Não por obsessão, não por querer ocupar a cadeira presidencial por 1 motivo pessoal. Ocupá-la sim para que juntamente com uma boa equipe, boas pessoas ao meu lado, nós pudéssemos ter sim, mais que a esperança, mas a certeza de mudar o destino do Brasil.” Volta a citar a Bíblia no trecho que fez parte de sua campanha, João 8:32: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Em seguida começa os ataques. O primeiro deles é à imprensa, com a adoção de um discurso no qual se diz perseguido. “Alguém, sem um grande partido, sem Fundo Partidário, com a grande parte da grande mídia o tempo todo criticando, colocando-me em uma situação muitas vezes próximo a uma situação vexatória sobre aquilo que falavam a meu respeito, e passou a acreditar na gente, e passou a ser sim integrante de um grande exército que sabia para onde o Brasil estava marchando e clamava por mudanças.” Como a live era direcionada aos eleitores que o acompanham nas redes sociais, conclamou seus apoiadores contra aqueles que classifica como inimigos.

“Não poderíamos mais continuar flertando com o socialismo, com o comunismo e com o populismo e com o extremismo da esquerda.” Esta talvez seja a fala mais curiosa e que deu certo em sua campanha. Bolsonaro apela para uma falsa ameaça para inflar seus eleitores a apoiarem seu governo contra um medo inexistente, mas que de tanto ser repetido virou uma verdade, como já vimos em outros momentos da história do mundo e do nosso País. Logo depois fala em respeitar a Constituição, ironicamente logo depois de atribuir aos adversários a classificação de “extremismo da esquerda”, “socialismo” e “comunismo”.

Aqui Bolsonaro deixa claro que as pautas de seu governo não passarão pela oposição. “Todos os compromissos assumidos serão cumpridos, com as mais variadas bancadas, com o povo em cada local do Brasil que eu estive presente.” Fica claro o desenho de que o governo Bolsonaro não tende a ser um governo para todos os brasileiro, mas apenas para aqueles com os quais conversou e que concordam com o presidente eleito.

Outro Bolsonaro
Já ao vivo em transmissão feita por diversas emissoras, Bolsonaro chama o senador Magno Malta (PR-ES), que diz que o Brasil demorou a se livrar dos “tentáculos da esquerda”. De mãos dadas, Malta puxa uma oração. Ao começar a se pronunciar ao povo brasileiro, Bolsonaro abre seu discurso com o mesmo versículo do livro de João, da Bíblia Sagrada. “Orações de homens, mulheres, crianças, famílias inteiras que, diante da ameaça de seguirmos por um caminho que não é o que os brasileiros desejam e merecem colocar o Brasil, nosso amado Brasil acima de tudo.”

No segundo discurso, o presidente eleito é mais enfático no respeito às instituições, algo que ficou praticamente apagado no pronunciamento feito para seus apoiadores na internet. “Faço de vocês minhas testemunhas de que esse governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade. Isso é uma promessa, não de um partido, não é a palavra vã de um homem, é um juramento a Deus”, se comprometeu Bolsonaro.

Depois, o político do PSL fala sobre a condução de seu governo: “O compromisso que assumimos com os brasileiros foi de fazer 1 governo decente, comprometido exclusivamente com o país e com o nosso povo. Garanto que assim o será. Nosso governo será formado por pessoas que tenham o mesmo propósito que me ouvem neste momento. O propósito de transformar o nosso Brasil em uma grande, livre e próspera nação”. Notem que não há qualquer referência ao “flerte com o socialismo e o comunismo”, mas um apelo aos brasileiros para ajudarem a fazer o País prosperar.

O discurso segue com mais um compromisso, o de garantir a liberdade de todas as pessoas. “Podem ter certeza que nós trabalharemos dia e noite para isso. Liberdade é 1 princípio fundamental, liberdade de ir e vir, andar nas ruas, em todos os lugares deste país. Liberdade de empreender. Liberdade política e religiosa, liberdade de informar e ter opinião. Liberdade de fazer escolhas e ser respeitado por elas.” Aqui, ao contrário da live, Bolsonaro diz que aceitará ideias e posicionamentos diferentes, e que as pessoas terão o direito de escolher como acharem conveniente a forma de tocar suas vidas, o governo não interferirá nas escolhas individuais dos cidadãos.

“Este é um país de todos nós, brasileiros natos ou de coração. Um Brasil de diversas opiniões, cores e orientações. Como defensor da liberdade, vou guiar um governo que defenda e proteja os direitos do cidadão, que cumpre seus deveres e respeita as leis. Elas são para todos, porque assim será o nosso governo, constitucional e democrático.” Bolsonaro mostra no pronunciamento na TV um outro político, bem diferente do que guiou e fez declarações de separação entre o eles e nós durante a campanha. O presidente eleito disse, inclusive, que respeitará “um Brasil de diversas opiniões, cores e orientações”.

Como disse durante a campanha, voltou a falar em redução da burocracia, diminuir a estrutura do governo, “cortando desperdícios e privilégios, para que as pessoas possam dar muitos passos à frente”. “Nosso governo vai quebrar paradigmas. Vamos confiar nas pessoas. Vamos desburocratizar, simplificar e permitir que o cidadão, o empreendedor, tenha mais liberdade para criar e construir e seu futuro”, promete Bolsonaro.

Voltou também a citar que pretende destinar os recurso diretamente a Estados e municípios, sem o controle do governo federal, no que o presidente eleito define como “desamarrar o Brasil”. “Colocaremos de pé a federação brasileira. Nesse sentido, é que repetimos que precisamos de mais Brasil e menos Brasília. […] Esse não será um governo de resposta apenas às necessidades imediatas.”

Bolsonaro defendeu reformas “para criar um novo futuro para os brasileiros”. “E quando digo isso, falo com uma mão voltada para o seringueiro no coração da selva amazônica e a outra para o empreendedor suando para criar e desenvolver sua empresa.” É possível notar uma diferença do pronunciamento ao vivo nas emissoras de TV para o que defendeu em entrevistas, debates e sabatinas no primeiro turno, quando falava apenas em um empresário penalizado e um trabalhador que procurasse outra alternativa se faltasse emprego na sua área de atuação.

“Porque não existem brasileiros do Sul ou do Norte. Somos todos um só país. Somos todos uma só nação. Uma nação democrática. O Estado democrático de direito tem como um dos seus pilares o direito de propriedade. Reafirmamos aqui o respeito e a defesa deste princípio constitucional e fundador das principais nações democráticas do mundo.” Outro tema da campanha que retorna em seu discurso de vitória, o direito a propriedade. Mas sem tocar no assunto da criminalização de movimentos sociais e “ativismos”, como uma ameaça feita durante a campanha a quem quiser se opor ao seu governo.

Bolsonaro se compromete em lugar contra o “círculo vicioso do crescimento da dívida, substituindo-o pelo círculo virtuoso de menores déficits, dívidas decrescentes e juros mais baixos”. “Isso estimulará os investimentos, o crescimento e a consequente geração de empregos. O déficit público primário precisa ser eliminado o mais rápido possível e convertido em superávit. Este é o nosso propósito.”

“Governaremos com os olhos nas futuras gerações e não na próxima eleição”, diz aos jovens desempregados Bolsonaro. E volta a tocar no assunto relações internacionais com viés ideológico, como se o seu discurso não defendesse determinada ideologia. “Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos. O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas. Buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valor econômico e tecnológico aos produtos brasileiros”, declarou.

O presidente eleito fala em um propósito de “colocar o Brasil no lugar que merece”. “Nesse projeto que construímos, cabem todos aqueles que têm o mesmo objetivo que o nosso.” Encerra o discurso reforçando a confiança que tinha em vencer as eleições, mesmo depois do atentado em Juiz de Fora, “quando, por obra de Deus e da equipe médica de Juiz de Fora, ganhei uma nova certidão de nascimento”.

“É com esta mesma convicção que afirmo: ofereceremos a vocês um governo decente, que trabalhará, verdadeiramente, para todos os brasileiros. Somos um grande país, e agora vamos juntos transformar esse país em um grande nação. Uma nação livre, democrática e próspera! Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”

E agora?
Ao comparar os dois discursos, vemos que, até quando parte dos assuntos se encontram, muita coisa não bate. E fica a incerteza, mesmo já vendo a movimentação da equipe de Bolsonaro de se aproximar do governo Temer e do centrão, de qual dos dois Bolsonaros governará o Brasil. Torcemos para que seja o do respeito às diferenças e que saiba que presidirá o País para todos os brasileiros, os que votaram no candidato eleito, no adversário, apertaram nulo, branco ou nem foram votar.

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Adalberto de Queiroz

Uma boa matéria opinativa, Augusto Diniz.

jANSEN JOSÉ C E DA SILVEIRA

Parabéns pelo artigo, mas tenho a minha convicção de que a imprensa precisa ter cuidados que, hoje, não tem. Não é só sair publicando para depois ver o que acontece. O cuidado, o zelo e a responsabilidade deve haver em qualquer atividade profissional, inclusive na imprensa. É só se lembrar do caso IVES OTA em SP, lembra-se?