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Augusto Diniz

Presidente da República e comando do Banco Central não falam a mesma língua

Atento aos impactos da Covid-19 no mercado, Roberto Campos Neto contraria Jair Bolsonaro e defende vacinação como forma eficaz de gerar recuperação econômica

Enquanto Roberto Campos Neto, presidente do BC, aposta na vacina como método mais barato e eficaz na recuperação da economia, presidente Jair Bolsonaro investe na desinformação e no pânico contra a imunização | Foto: José Cruz/Agência Brasil

“Não vou tomar vacina e ponto final”, respondeu o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) ao apresentador José Luiz Datena na tarde de terça-feira, 15, na Band à pergunta se iria se vacinar. No mesmo dia, em evento com investidores internacionais, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, afirmou que “investir na vacina agora é mais barato do que prolongar as transferências diretas”. As duas declarações chamam atenção por serem conflitantes. Atraem ainda mais olhares por se tratarem de dois integrantes da mesma gestão. Neste caso, o auxiliar demonstra racionalidade e o chefe do Executivo aposta no negacionismo para causar confusão.

Bolsonaro tem todo o direito de não tomar a vacina, apesar de ser uma decisão pessoal irracional e egoísta, passível de se tornar vetor da contaminação e, que a sorte evite, a morte de outras pessoas durante a pandemia. Economistas de diferentes linhas teóricas defendem abertamente a necessidade de se buscar a imunidade de rebanho da população mundial por meio da vacinação contra a Covid-19 como perspectiva mais razoável na tentativa de recuperar a economia nos países.

O Brasil não tem como fugir da lógica de funcionamento do mundo. Mas o presidente da República insiste em inverter a ordem das coisas e gerar pânico em cima de uma comunicação que deveria ser unificada com outros líderes internacionais para trazer calma e esperança diante de mais de 185 mil mortes no Brasil causadas pela doença e mais de 1,6 milhão em todo o planeta.

Mais da metade

Do pacote extraorçamentário aprovado no primeiro semestre de 2020 para combater a pandemia no Brasil pelo Congresso, 55,73% dos R$ 577,55 bilhões estão destinados ao pagamento das parcelas do auxílio emergencial. O benefício criado para socorrer brasileiros que perderam o emprego, viram o dinheiro da informalidade sumir ou eram considerados invisíveis pelo setor econômico governamental foi fundamental para dar alguma sustentação ao funcionamento financeiro do País desde março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) oficializou a situação de pandemia da Covid-19. Até o dia 31 de dezembro, a União deve gastar R$ 321,84 bilhões com as cinco parcelas iniciais de R$ 600 e outras quatro de R$ 300 aos mais de 65 milhões de beneficiários do programa temporário.

Com o fim do auxílio emergencial a partir de 1º de janeiro, como foi anunciado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, era de se esperar que tudo poderia voltar a reabrir. Mas a chegada do que tem sido chamado de segunda onda da Covid-19 no Brasil já assusta quase todos os municípios. Na semana passada, o País voltou a registar mais de mil mortes confirmadas pela doença em um só dia. O crescimento da curva de casos e óbitos causados pela Covid-19 exige uma ação urgente dos governantes. Sem o auxílio emergencial, o Plano Nacional de Imunização (PNI) deveria estar pronto há mais tempo. Ou pelo menos em estruturação desde o início da primeira fase de testes das vacinas em desenvolvimento no mundo para combater a pandemia.

Compra antecipada

Assim como fez grande parte dos países mais ricos do mundo, o Brasil deveria ter antecipado a compra de doses de diferentes vacinas desde o final do primeiro semestre de 2020. A reação só veio depois de o governo de São Paulo anunciar o cronograma de vacinação contra a Covid-19 no território paulista a partir de 25 de janeiro. Na briga eleitora entre João Doria (PSDB) e Bolsonaro, o governo federal tentou reagir. Antes de considerar a disputa pré-eleitoral do governador de São Paulo e do presidente da República, é preciso reconhecer a precisão da fala de Roberto Campos Neto. O presidente do Banco Central foi mais do que realista ao afirmar para investidores internacionais que a segunda onda da doença deve trazer nova retração econômica.

Diante de fatos, a única medida sensata a se esperar era investir em doses da vacina para começar a imunizar a população assim que possível. Mas o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, que age tutelado pelas vontades de Bolsonaro, já foi desautorizado a comprar a vacina desenvolvida em São Paulo pelo Instituto Butantan em parceria com o latoratório chinês Sinovac e continua a bater cabeça. Encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um esboço do Plano Nacional de Imunização com a assinatura de cientistas que nem sequer viram o texto final do PNI. Quando fez o lançamento oficial, na quarta-feira, 16, o documento já não continha mais a participação dos pesquisadores como autores da proposta.

O Brasil, pela demora em definir o que fazer ou levar a sério a pandemia, prejudica a saúde e a economia. Como o governo federal demorou a entender que precisava comprar doses de outras vacinas em desenvolvimento ao invés de apostar em um só fabricante, não se deu bem ao escolher apenas a pesquisa do laboratório AstraZeneca em parceira com a Universidade de Oxford. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) irá produzir doses da vacina de Oxford no Brasil. Mas como a fase três de testes apresentou dúvidas e problemas nos resultados diferentes identificados de eficácia e na escolha dos grupos de teste, inclusive na dosagem utilizada nos voluntários, a vacina Oxford/AstraZeneca demorará mais tempo para receber até mesmo uma aprovação em caráter emergencial.

Negociação descartada

Temos em uso no mundo a vacina da norte-americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech. Mas o Ministério da Saúde descartou a negociação com as empresas, que tiveram tentativas da Pfizer nos últimos quatro meses. Na negativa do governo brasileiro em ouvir a fabricante, sobrou para o Ministério da Saúde a posição 31 na fila por doses da Pfizer/BioNTech ao resolver mudar de ideia na corrida para iniciar a vacinação antes da Coronavac paulista. Só que sobraram para o Brasil pouco mais de 8 milhões de doses até o final de abril de 2021. A vacina da Pfizer depende de aplicação de duas doses por pessoa imunizada para garantir o efeito. O que atrapalha os planos de Roberto Campos Neto, que acertadamente aguarda uma vacinação ampla dos brasileiros para discutir a atração de investimentos internacionais e a tão falava recuperação em V da economia propagada por Paulo Guedes.

A conta é fácil de ser feita. Sem auxílio emergencial e vacina para mais da metade da população em 2021, a economia irá sofrer os impactos da pandemia no ano que vem. Como o plano apresentado pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, não tem como dizer quando a imunização irá começar, mas já se sabe que o Brasil deve demorar 16 meses a partir da primeira dose aplicada para concluir a vacinação contra a Covid-19, provavelmente chegaremos ao meio de 2022 sem toda a população vacinada. O que significa que o impacto no mercado tende a ser contínuo até ser resolvida a situação da crise sanitária.

Quanto mais o presidente da República apostar na pauta da reeleição de 2022 através do pânico para desencorajar os brasileiros a aceitarem receber as duas doses da vacina contra a Covid-19, mais difícil será tentar recuperar a economia no País. Mais complicado ficará o trabalho do ministro da Economia e o do presidente do Banco Central. Se tivesse juízo, teria ouvido Roberto Campos Neto antes. Como não deve escutar, coloca não só a reeleição em risco, mas insiste em não proteger a economia ou a saúde. Não optar por uma em detrimento da outra. Escolhe abandonar as duas. Só nos resta lembrar o que disse o ex-presidente da Câmara dos Deputados, hoje preso, Eduardo Cunha (MDB-RJ), na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff (PT) em 17 de abril de 2016. “Que Deus tenha misericórdia dessa nação!”

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