Augusto Diniz
Augusto Diniz

Por que uma simples investigação do Coaf na Alerj assusta tanto o QG do governo Bolsonaro?

Movimentações financeiras atípicas de ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) em seu gabinete na Alerj põem em xeque discurso de honestidade da família

Eleito presidente da República com agenda de punição exemplar a casos de ilegalidades contra quem quer que seja, Jair Bolsonaro começa a ter dificuldade para se blindar em suspeita de ilícitos financeiros que envolvem seu gabinete na Câmara e o do filho Flávio na Assembleia do Rio (Alerj)  | Foto: José Cruz/Agência Brasil

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), figura caricata para alguns eleitores e de discursos assustadores para outros, se tornou o antídoto que mais de 57 milhões de brasileiros escolheram nas urnas em outubro pra não deixar o PT chegar ao governo federal pela quinta vez seguida. Presidente da República eleito e escolhido o idiota do ano por veículo francês, o controverso Jair Messias Bolsonaro usou como plataforma eleitoral nas redes sociais o discurso do combate irrestrito à corrupção e aos desvios de conduta. Em suas palavras, nenhum ato ilícito ou ilegal seria aceito, com direito à punição mais exemplar possível de acordo com aquilo que determina a legislação penal brasileira.

O problema é que o discurso de Jair e da família Bolsonaro – que tem os filhos Flávio, Eduardo e Carlos em cargos eletivos – não se sustenta depois de 5 minutos de pesquisa. O novo caso, revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo na quinta-feira, 6, mostra que o deputado estadual Daniel Messac (PTB) pode ter sido preso na sexta-feira, 7, em Goiás por muito menos do que o clã Bolsonaro pode ter feito em seus gabinetes com funcionários fantasmas.

De acordo com documento da Operação Furna da Onça, desdobramento da Lava Jato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectou movimentações financeiras atípicas na conta do ex-assessor parlamentar do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), o policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz, que chegam a R$ 1,2 milhão. Flávio contestou o valor e disse serem apenas depósitos recebidos no total de R$ 600 mil e os mesmos R$ 600 mil sacados pelo então servidor comissionado de seu gabinete na Alerj.

Entre os depósitos surgiu o registro de um cheque depositado na conta da futura primeira-dama Michelle Bolsonaro no valor de R$ 24 mil. Ao tentar explicar o caso, o presidente eleito afirmou que o dinheiro é parte do pagamento de um empréstimo feito a Fabrício, que já prestou serviços de motorista a Jair Bolsonaro, que chegou a R$ 40 mil. O capitão da reserva do Exército explicou que na verdade foram feitos pagamentos a ele por Fabrício em dez depósitos de R$ 4 mil cada na conta da esposa porque Bolsonaro não teria tempo de ir ao banco.

Desde que o caso foi revelado no dia 6 de dezembro, novas informações surgiram com base nos documentos do Coaf que constam da Operação Furna da Onça, que prendeu dez deputados estaduais e ex-parlamentares fluminenses. Flávio Bolsonaro não era um dos investigados, mas as movimentações financeiras atípicas detectadas pelo órgão de controle demostraram que somente em 2016 o ex-assessor de Flávio, que já trabalhou no gabinete de Jair, chegou a fazer 176 saques, valores incompatíveis com seu rendimento mensal de R$ 23 mil para um patrimônio de R$ 700 mil.

Para complicar a história, que até o momento passa longe de ser um exemplo de honestidade e combate irrestrito aos atos de corrupção no seio familiar dos Bolsonaro, a filha de Fabrício, Nathalia Melo de Queiroz, personal trainer no Rio de famosos como os atores da Rede Globo Bruna Marquezine e Bruno Gagliasso, recebeu salário como assessora parlamentar do gabinete do presidente eleito Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, em Brasília, entre o fim de 2016 e o meio de outubro de 2018, mesmo período em que o pai foi desligado do gabinete de Flávio na Alerj. Mas já se sabe que o pai estava em Portugal em parte do período que constava como funcionário comissionado de Flávio e Nathalia postava fotos em redes sociais dos trabalhos realizados em academias e como personal trainer no horário de expediente da Câmara.

Além da suspeita de serem funcionários fantasmas da família Bolsonaro em seus gabinetes, como aconteceu com a vendedora de açaí Walderice Santos da Conceição, a Wal, que era assessora parlamentar de Jair Bolsonaro e vendia açaí em horário de expediente na Vila de Mambucaba, onde o presidente eleito tem casa de praia, Nathalia é suspeita de repassar a integralidade de seus salários em depósitos à conta do pai, Fabrício, que fazia saques em dinheiro, o que levanta a suspeita de uma prática recorrente no Legislativo em todo o País, mas que é ilegal, de repasses de parte dos salários dos assessores parlamentares para outras pessoas, inclusive o titular do cargo. Prática essa, conhecida como “pedágio” ou “rachadinha”, que a operação do Ministério Público Federal (MPF-RJ), com a ajuda do Coaf, detectou.

Repercussão no QG bolsonarista
Flávio Bolsonaro, que disse ter ouvido explicações “plausíveis” do ex-assessor e amigo da família, afirmou não ter feito nada de errado. Já Jair Bolsonaro, que disse ter rompido a amizade com seu ex-motorista, declarou que “se algo estiver errado, que paguemos a conta”. A primeira tentativa, tanto do pai, o presidente eleito, quanto do filho, senador eleito, foi de jogar toda a culpa, se algo de ilícito tiver sido cometido, nas costas de Fabrício Queiroz.

Três dias antes de a história ser revelada pelo O Estado de S.Paulo, com desdobramentos, como da suspeita de a filha do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Nathalia Queiroz, ser uma funcionária fantasma do gabinete de Jair, Flávio concedeu entrevista ao programa Central da Transição na GloboNews como uma das figuras centrais na formação do governo Bolsonaro.

Sem qualquer informação ainda disponível ou conhecida sobre as movimentações financeiras atípicas que envolvem até oito assessores e ex-assessores da família Bolsonaro, Flávio usava o discurso que o pai mais utilizou para mobilizar e levar ao delírios plateias em seus comícios. Ao ser perguntado se a formação do primeiro escalão da gestão Jair Bolsonaro à frente do Palácio do Planalto não tinha muitos generais, o senador eleito deu a seguinte resposta: “Acho que o Jair foi eleito para botar militar lá mesmo. Se fosse para botar ladrão tinha votado no PT”.

As frases de efeito direcionadas não aos entrevistadores, mas aos eleitores dos Bolsonaro, podem ter alcançado o resultado esperado naquele 3 de dezembro, mas provavelmente não seriam ditas novamente com tanto entusiasmo por Flávio no meio da avalanche do caso Coaf e tudo que ainda não foi muito bem explicado pela família Bolsonaro desde três dias depois de sua passagem pelos estúdios da GloboNews. Tanto que o advogado Gustavo Bebianno, um dos homens de confiança do presidente eleito e futuro secretário-geral da Presidência da República, na quinta-feira, 13, foi à mesma GloboNews e adotou um tom mais ameno do que a autoconfiança mostrada dez dias antes por Flávio Bolsonaro.

Enquanto Bebianno dizia que “o presidente eleito Jair Bolsonaro joga com a verdade” sem atacar adversários ou opositores, ao mesmo tempo tentava achar uma linha racional para explicar o caso Coaf. “Sem sombra de dúvida nada pode ficar obscuro. A nossa bandeira sempre foi a da transparência, do combate à corrupção, do respeito à coisa pública. Então obviamente isso não pode ficar sem uma explicação clara à população brasileira.” E afirmou que confiava, até o momento, como suficiente a declaração dada por Jair sobre o depósito recebido por Michelle Bolsonaro. “Pode ter havido um equívoco que é sanável. Mas não há nenhum ato de corrupção ou de nada do gênero. Agora, evidentemente o ex-assessor tem que vir, tem que explicar, o que aconteceu”, continuou.

O assunto continuou na entrevista, e Bebianno tentou reafirmar sua confiança no presidente eleito. “É sempre ruim você ter que explicar alguma coisa. O ideal é que não tenha nada para ser explicado. Isso é sempre ruim. Não resta dúvidas. Mas eu repito: o presidente eleito Jair Bolsonaro já veio a público, já explicou, não explicou isso por intermédio de um porta-voz, de um advogado, nada disso. Bem ao seu estilo, ele veio, direto, franco, disse o que aconteceu. E em relação a isso eu não tenho nada a acrescentar.”

A primeira reação foi a agressividade do deputado federal Onyx Lorenzoni, que ocupará o cargo de ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro. “Setores estão tentando destruir a reputação do sr. Jair Messias Bolsonaro. No Brasil, a gente tem que saber separar o joio do trigo. Nesse governo é trigo. […] Onde é que estava o Coaf no mensalão, no petrolão?” Esqueceu-se o parlamentar do DEM que o mesmo Coaf atuou e foi fundamental nas operações que ele mesmo citou ao tentar atacar as informações sérias e preocupantes levantadas durante a operação na Alerj. O mesmo Onyx, no dia 7, se irritou demais com as perguntas dos jornalistas sobre a origem do dinheiro e abandonou a entrevista.

Uma das figuras centrais na defesa do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a professora da USP e deputada estadual eleita por São Paulo Janaina Paschoal (PSL) defendeu que o caso seja investigado. “[Jair] Bolsonaro pode ter dado explicação daquilo que ele conhece. Pode haver uma parte da história que ele desconhece, entendeu?”, respondeu Janaina em entrevista ao Terra. Uma das responsáveis por elaborar o bem embasado pedido de impedimento que resultou na destituição do mandato da presidente petista em 2016 não se mostrou tão enfática e certa na tentativa de defender seu líder político e eleitoral.

Tolerância zero?
O discurso da tolerância zero com a corrupção no futuro governo de Jair Bolsonaro deixou de existir até no discurso do braço direito do presidente eleito, o general Augusto Heleno, futuro ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, na Rede Globo. Na madrugada de quinta-feira, 13, Heleno começou ironizando o Coaf. “Estamos aguardando os acontecimentos. Esperar os participantes principais desse acontecimento, que ainda não apareceram, dizerem por que dessa… Fico muito feliz que o Coaf tenha se manifestado porque ficou em silêncio durante muitos anos, né? (risos)”

Em seguida, o general defendeu o investimento nos órgãos de combate a crimes de lavagem de dinheiro e corrupção. “O próprio futuro ministro Sergio Moro já disse que quer fortalecer o Coaf. Acho muito importante.” Especificamente sobre o caso que envolve Flávio Bolsonaro, seu ex-assessor e ex-motorista de Jair Bolsonaro, os gabinetes de Flávio e Jair, a filha de Fabrício Queiroz e outros assessores parlamentares, Augusto Heleno afirmou que “os responsáveis vão ter que assumir a culpa”. “E se houver alguma penalidade vão ser submetidos a essa penalidade”, disse.

Mas quanto ao envolvimento de Jair Bolsonaro no caso, Heleno afirmou que “o presidente está isento disso daí porque não teve nenhuma participação”. Ao continuar a falar sobre a suposta participação do presidente eleito nas movimentações financeiras relacionadas a salários dos assessores parlamentares na Câmara e na Alerj, o general minimizou o caso em uma tentativa de abafar a situação. “O que apareceu dele [Jair] é irrisório, uma quantia pequena, e ele mesmo já explicou. Acredito que não vá atingi-lo.” Disse também que prefere esperar a conclusão do caso: “Vamos ver. Essas coisas… Qualquer opinião sem ter uma comprovação, sem que as investigações sejam… É o mesmo caso da facada. Não concluíram a investigação”.

Ao blog de Bernardo Mello Franco, no site do jornal O Globo, o general Hamilton Mourão (PRTB), vice-presidente eleito, afirmou na quinta-feira, 13, que o caso Coaf deveria ter sido informado por Jair Bolsonaro à sua equipe antes de surgir nos documentos do órgão de controle. Para Mourão, a demora de Bolsonaro a se pronunciar sobre o caso teria aumentado a pressão sobre o próximo governo. “Ele demorou a falar. Podia ter falado antes. Esperou aumentar a pressão. Mas acho que falou bem”, declarou ao O Globo.

Como os outros membros da equipe do presidente eleito, Mourão cobrou na entrevista explicações do ex-assessor de Jair e Flávio Bolsonaro. O vice-presidente eleito defendeu que o caso seja investigado e os responsáveis punidos. “O Exército tem uma sigla para isso: apurundaso. Apurar e punir se for o caso. É isso que deve ser feito.” Na quarta-feira, 12, Mourão declarou à revista Crusoé que seria “burrice ao cubo” a prática suspeita de ter ocorrido no gabinete do deputado estadual Flávio Bolsonaro. E preferiu aguardar a conclusão das investigações: “Não há elementos para emitir juízo de valor sobre o caso”.

O que a população brasileira espera, sejam os mais de 60% que acreditam que Jair Bolsonaro e sua equipe têm condições de fazer um bom governo ou aqueles que desconfiam das propostas apresentadas até agora pelo QG bolsonarista, é que o governo eleito cumpra aquilo que prometeu ao ser tão enfático e repetitivo ao brabar contra a corrupção sem qualquer brecha para ilicitudes ou irregularidades em sua gestão. E que não sejamos novamente vítimas de um estelionato eleitoral, como o que ocorreu em 2014 com a chapa Dilma-Temer, mas que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), depois de muito protelar o caso, resolveu não condená-los pelos crimes de abuso de poder econômico cometidos pelo PT e MDB naquela eleição. O caso Coaf é grave e precisa ser esclarecido.

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