Afonso Lopes
Afonso Lopes

Por que Demóstenes tem crescido na base?

É nítido: na corrida interna na base aliada estadual por uma das vagas para candidatura ao Senado, o ex-senador, agora no PTB, tem aparecido cada vez mais, e vai ganhando espaço

Ex-senador Demóstenes Torres: ele apareceu, cresceu e já conta com aliados na base para a candidatura ao Senado Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Se não há disputa na cabeça da chapa, com a candidatura do governador José Eliton (PSDB) à reeleição completamente pacificada — com o devido registro de divergência isolada do ex-deputado federal e ex-secretário Vilmar Rocha, presidente regional do PSD —, e uma das duas vagas para o Senado destinada ao ex-governador Marconi Perillo, a última vaga nesse grupamento tem disputa bastante acirrada.

O afunilamento foi iniciado ainda no segundo semestre do ano passado. A primeira pretendente à va­ga a desistir foi a deputada federal Mag­da Mofatto, presidente regional do PR. Ao perceber que a luta se­ria desgastante, ela de forma in­te­ligente anunciou sua desistência e não perdeu tempo, dando início ao trabalho visando a reeleição. O se­gundo nome a se afastar um pou­co da vaga é exatamente o de Vil­mar Rocha. Ao entender que não te­ria preferência para sua pretensão, exagerou nas reclamações, ata­cou até aquele que hoje é go­ver­nador do Estado, e se distanciou do processo.

O episódio Vilmar pode ter servido de alerta para os políticos com maior vivência política e convivência partidária. O senador-herdeiro Wilder Morais, que chegou a receber sinal verde para avançar com sua candidatura à reeleição de ninguém menos que Mar­coni Perillo, não entendeu que a peleja não estava en­cerrada previamente. Após a lua de mel inicial, ele se tor­nou distante, qua­se alheio às mo­vimentações den­tro da base. Foi nes­se vácuo que surgiu com muita força a também se­nadora Lúcia Vânia (PSB), vitoriosa, co­mo Demóstenes Torres, nas elei­ções de 2002 e 2010.

Wilder demorou a perceber que a fila tinha andado e estava fo­ra dela. Quando finalmente con­seguiu avaliar a situação já era tar­de demais. Reclamou nos bastidores, com alguma, mas não total, dis­crição, e obteve no máximo uma suplência como prêmio de con­solação. E não foi qualquer su­plência, mas a do atual líder das pesquisas e quem detém a maior perspectiva de vitória este ano, Marconi. Não acei­tou, se distanciou ain­da mais e passou a admitir que poderia, e foi, conversar com os candidatos oposicionistas Da­ni­el Vilela (MDB) e Ronaldo Cai­ado (DEM). Ele tinha co­mo trunfo a presidência re­gional do PP, e provavelmente imaginou que ar­rastaria todo o partido com ele nessa empreitada inusitada. Isolado, e derrubado com a che­gada do deputado federal e mi­nistro Alexandre Baldy, retornou ao DEM, de onde saiu em 2012 ao assumir a vaga até então de Demóstenes.

Lúcia Vânia tinha, dessa for­ma, caminho livre para consolidar de maneira peremptória e absoluta sua candidatura à reeleição ao Senado pela chapa da base aliada es­tadual. Um a um, todos os seus con­correntes diretos foram deixando a área livre, ou por perceber dificuldades, ou por errarem de forma a permitir um vácuo na atu­ação política permanente junto à base, perto e no dia a dia da mi­litância.

Sinal amarelo
Essa situação confortável permaneceu inabalável até que um si­nal amarelo passou a piscar. No Su­premo Tribunal Federal, o ministro Dias Tof­foli concedeu, provisoriamente, autorização para a elegibilidade do senador cassado Demóstenes Tor­res. O ministro entendeu que, do ponto de vista da Jus­ti­ça, Demóstenes venceu todas as etapas, através de derrubada de provas obtidas ilegalmente, ou no julgamento do mérito de algumas acu­sações, inclusive dentro do pró­prio sistema de controle in­terno do Mi­nis­tério Pú­bli­co, não restando, no entender dele, qualquer im­pe­di­men­to legal para a recuperação de seus direitos políticos, suspensos por decisão do Se­na­do em 2012. De­po­is disso, a segunda tur­ma do STF con­firmou o parecer de Dias Toffoli.

Desde o primeiro mo­men­to, o ex-senador, que foi re­cebido com tapete vermelho no PTB, avisou que lutaria para dis­putar, pela base aliada e so­men­te dentro dela, a condição de candidato ao Senado. Sobre a possibilidade de disputar vaga de de­putado federal, Demóstenes Tor­res deixou claro: não mata e mor­re para ser candidato, mas se vier a disputar a eleição, será para o Senado. E acrescentou: candidato ou não, continuará na base aliada estadual.

Surgiu nesse ponto a velha má­xi­ma de que não existe vácuo na po­lítica. Como a senadora Lúcia Vâ­nia tem estilo mais isolacionista de atuação, Demóstenes encontrou total liberdade para estreitar la­ços com a base, e vem recebendo cada vez maior número de apoio à sua candidatura. Enquan­to isso, embora ela própria não te­nha sinalizado nessa direção, al­guns adeptos da senadora insinuaram que se for preterida internamente poderá encontrar abrigo em outra chapa, nesta caso, na opo­sição.

O que se sabe é que Demós­te­nes Torres cresceu e apareceu após a liberação do STF, mas a dis­puta pela segunda vaga ao Se­na­do dentro da base aliada estadual está longe de ser definida. O que mudou é que Lúcia Vânia não es­tá mais sozinha, e tem contra ela um sobrevivente que já esbanjou garra suficiente para ser levado a sério. Quem vai terminar o pro­cesso à frente é uma outra história, cujo final só se saberá de­po­is. Que o jogo será muito interessante parece não haver dúvidas. São dois craques, cada um com seu estilo. l

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