Augusto Diniz
Augusto Diniz

Política real e Poder Judiciário começam a ensinar Bolsonaro que gritos e conspirações não governam um país

Cada vez mais acuado por investigações contra si e seus filhos, Bolsonaro começa a dar sinais de que talvez tenha entendido que é preciso ceder para administrar 

Jair Bolsonaro transposição do São Francisco no Ceará - Foto Alan Santos PR

Poses animadas para fotos durante inauguração de trecho da transposição do Rio São Francisco entre Pernambuco e Ceará foram dos poucos momentos em que Bolsonaro não parecia assustado na última semana | Foto: Alan Santos /PR

A prisão do ex-policial militar Fabrício Queiroz, amigo da família Bolsonaro e ex-assessor parlamentar do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e hoje senador, assusta e muito o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A repercussão imediata foi o adiamento da agenda do ministro da Justiça e da Segurança Pública, André Luiz Mendonça, que correu para o Palácio do Planalto e lá ficou reunido com o chefe do Executivo.

A manhã da quinta-feira 18 de junho assombra o Palácio da Alvorada, que já não chama mais tanta atenção desde que veículos de comunicação resolveram parar de dar atenção aos ataques e gritos do presidente da República. Além de não pautar o noticiário com frases agressivas, quase sempre sem sentido ou respaldo legal, Bolsonaro perdeu parte do poder de inflar a militância contra a imprensa.

Antes da prisão de Queiroz, que Bolsonaro fez questão de defender, mesmo ao dizer que não era advogado do ex-assessor parlamentar da família, na live semanal do mesmo dia da detenção, o presidente já havia abandonado à própria sorte os menos de 30 extremistas que se intitulavam de 300 do Brasil.

Abandono dos conspiracionistas

Com o Supremo Tribunal Federal (STF) sobre seus ombros e a Polícia Federal (PF) na sua cola, Bolsonaro fez a opção da sobrevivência: abandonar os conspiracionistas das causas sem sentido, deixar os militares no governo negociarem cargos e apoio no Congresso com o Centrão e se calar. Nos poucos discursos que fez, a aparência era sempre de uma pessoa amedrontada, um menino – como o presidente chama os filhos – acuado.

Da defesa incondicional da criação de um partido político para chamar de seu, Bolsonaro olhou para as pouco mais de 14 mil assinaturas e falou que está fora da disputa municipal de 2020. Se quiser que o Centrão mude de ideia e vote a PEC 18/2020, terá de sangrar ainda mais a agenda liberal nunca implantada do ministro Paulo Guedes, da Economia.

Aliás, aprovar a PEC que adia as eleições para os dias 15 e 29 de novembro seria a chance de Bolsonaro mostrar que, em algum momento, passou a se importar com os mais de 57 mil mortos pela Covid-19. Mas vai custar caro para os cofres do governo. O apoio da ala fisiológica do Congresso não vem por ideologia, como o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, xingava os ministros do STF por acreditar que ser parte de um governo é estar acima da lei.

Bye bye, Weintraub
Abraham Weintraub - Foto Fabio Rodrigues Pozzebom Agência Brasil

Quem achou que Bolsonaro defenderia o ex-ministro Abraham Weintraub a qualquer custo, se enganou | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por falar em Weintraub, o episódio da demissão do ministro, com a substituição por um nome do agrado dos militares no governo e do Centrão, mostrou a falta de respeito com o Diário Oficial e as trapalhadas que a gestão Bolsonaro é capaz de fazer. Não só alterou um documento oficial para fingir que nada tinha a ver com Weintraub, o ministro que o presidente mais defendia nos 14 meses que o olavista passou no governo, como abandonou o ex-titular do MEC nos Estados Unidos como imigrante ilegal.

O caso gerou uma interpretação nos apoiadores conspiracionistas digna de internação: Weintraub seria um exilado político de um governo que pode ter ajudado o ex-ministro a entrar nos Estados Unidos. Na criatividade carcomida para criação de mulas sem cabeça, o conto da carochinha virtual bolsonarista é até mais eficaz do que o gabinete do ódio. Que anda sumido.

Muita gente se apoiou em ataques baseados em mentiras feitos por “jornalistas” apoiadores de Bolsonaro. Bastou que alguns deles fossem investigados, virassem alvos de operações da PF para muito vídeo ser apagado do YouTube, páginas sumirem da internet e perfis desaparecerem de redes sociais. Coincidência ou não, suspeita não falta para que se investigue a tentativa de destruição de provas.

Destruíram provas?

Se tentaram destruir provas, sabiam que a atuação era criminosa, imagino. Para ficar no campo do palpável e possível, deixemos a Polícia Federal investigar, indiciar os que entender culpados, e o Poder Judiciário analisar as provas contra os acusados.

Enquanto isso, Bolsonaro foi obrigado a entender – ou ao menos fingir momentaneamente – que não se governa sozinho, que nada é aprovado na base do grito, que é preciso dialogar, inclusive com quem não votou naquele projeto sem propostas de 2018, até mesmo com a oposição.

Bolsonaro se viu sem saída a não ser compreender que cargo de ministro de Estado não é lugar de discípulo de guru que xinga Deus e o mundo, mas precisa fazer vaquinha on-line para pagar indenização dos que ofende injustamente. Falta ainda escolher alguém para a Saúde que possa substituir um interino que nada entende do assunto.

Apoio do auxílio

E precisa compreender que na hora em que cortar o auxílio emergencial de quem necessita – e começou a apoiar o governo por R$ 600 na conta que antes vivia no negativo -, o apoio que substituiu a classe média lavajatista, cansada das novas suspeitas de corrupção no governo, vai embora na mesma rapidez do dinheiro, que é usado para comprar comida. Comida essa que, se acabar, fragiliza ainda mais Bolsonaro no poder.

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