Afonso Lopes
Afonso Lopes

Pífia gestão de Iris Rezende é complicador para a oposição

A administração de Goiânia, sob comando do ícone do PMDB, deveria ser a grande vitrine administrativa dos oposicionistas. Não deu certo até aqui, e dificilmente terá a imagem recuperada a tempo

Lixo sem recolhimento em muitos locais na capital goiana mostra que os serviços continuam precários | Foto: Jornal Opção

Mesmo com infindáveis desgastes neste começo complicadíssimo de mandato, não há como colocar em xe­que-mate a liderança exercida por Iris Rezende, um autêntico ícone da política goiana. Mas, muito além de seus valores políticos pessoais, que resplandecem sua imagem individualizada, essa sim permanente, a posição ocupada por Iris neste momento deveria fazer dele o principal atrativo para o grupo oposicionista em 2018. Deveria, mas não vai.

A administração de Iris em Goiânia seria a grande vitrine para embasar os discursos na campanha estadual, assim como ocorreu em 1998 com Nion Alber­naz à frente das referências administrativas para o então comboio de o­po­sição nas eleições estaduais. A vi­trine está espatifada pela pedrada des­ferida violentamente pela realidade. O sonho não apenas acabou. Sim­plesmente, não há mais o que sonhar.

O próprio Iris Rezende parece estar profundamente decepcionado, enfastiado. Suas aparições públicas ainda ocorrem, mas não existe nele, ou não se capta nele, qualquer demonstração de vigor e alegria, que sempre lhe foram marcas registradas de sua personagem política. É um outro Iris esse que aí está. É como se fosse um Iris fake, um substituto com cara idêntica, mas com conteúdo nitidamente diferente, pequeno, acanhado e desanimado.
De maneira até um tanto descortês e infantilmente agressiva, alguns de seus críticos dizem à boca pequena e maldita que ele está velho. É óbvio que ele não é jovem, mas compare o ânimo que ele demonstrava há cinco meses, quando da eleição, com o jeito meio macambúzio que ele está agora.

É um outro Iris, bem mais apático, sem criatividade e aparentemente sufocado diante de tantos problemas encontrados na Prefeitura. Aliás, a idade, que também significa experiência acumulada, pode até ser visto como um qualitativo porque lhe concede a possibilidade da paciência.

A imagem que se tem é que a administração como um todo está tão bagunçada que as soluções simplesmente não surgem. O que ele poderia fazer, mas não se viu em condições políticas de fazer, seria um corte dramático nas li­nhas de atuação para conseguir al­gum fôlego. O que se viu, no en­tan­to, foi a manutenção da imensa e caríssima má­qui­na administrativa. Como cortar espaço político diante de uma Câmara Municipal ávida por cargos? Sobrou para os estagiários, demitidos numa canetada só.

E tem faiscado muito também na imagem como um todo. Alguns dos velhos problemas vêm desde os tempos do petista Paulo Garcia, mas alguns pontos foram piorados. A recente demandada de cerca de 400 médicos é um exemplo desse quadro negativo. Não saiu um quantitativo excedente. Ao contrário, ampliou-se a distância entre a demanda imensa e a capacidade de atendimento da rede municipal. Por outro lado, práticas administrativas francamente equivocadas, como mutirões da Comurg para limpeza emergencial por grupo de bairros não resolve nada. Esse tipo de frente de trabalho é útil apenas quando o serviço é de embelezamento. O que resolve realmente o problema com o lixo é a prática do dia a dia em toda a cidade. Ao optar pelos tais mutirões, a Comurg realiza um tremendo esforço para limpar uma área de alguns quarteirões diante de outros milhares que perdem até o pouco serviço que tem recebido. Isso foi feito pelo governo de Paulo Garcia e está sendo repetido agora com idêntico fracasso.

Todo esse quadro não é definitivo. Pelo menos, não parece ser. Está bem pior e mais difícil do que todos imaginavam. É possível que a gravidade da situação tenha surpreendido o próprio Iris, que esperava, sim, se deparar com um quadro bastante sério, mas não nessa dimensão extraordinária, quase de terra arrasada. E o que é pior, sem ter como apelar para caixa extra via aumento de impostos ou com diminuição de espaços dentro da máquina que poderia significar uma boa economia de dinheiro. Talvez por isso, por saber que terá que ter paciência e dar tempo ao tempo para a cura do queijo, que muitas das vezes se tem a impressão de que o prefeito “terceirizou” o comando central. Quem conhece o modus operandi das administrações de Iris sabe claramente que a atual em nada se assemelha às anteriores.
De agora até o final do mandato, em 2020, haverá tempo para recuperação total? Administrativamente, sim. Iris tem conhecimento e liderança suficientes para reverter a situação e dar a volta por cima. Em termos de imagem vai ser bem mais complicado.

O alerta amarelo pisca no Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges avisando que a encrenca é séria, e a imagem negativa começa a se cristalizar. Para o próximo ano, não dá tempo mesmo. A grande vitrine da oposição para as eleições de 2018 não será refeita. Está espatifada. Por mais que Iris consiga remar contra as atuais intempéries administrativas, os opositores não vão poder com o apoio do grande líder. Vão ter que se virarem sozinhos. l

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