Ainda que haja grande expectativa pelos números dos institutos, a cada rodada há apenas mais do mesmo. Bom para Lula, ruim para Bolsonaro

Geraldo Alckmin e Lula fecham chapa conjunta para eleições presidenciais | Foto: Reprodução / CNN Brasil

Há mais de dois meses e meio, esta coluna publicou um texto em que arriscava como título, não sem alguma base: “As pesquisas mostram: se as eleições forem nas CNTP, vai dar PT” (edição 2438). O termo CNTP é uma gíria conhecida principalmente por estudantes secundaristas – aqueles que décadas atrás cursavam o 2º grau, ou seja, a nomenclatura predecessora de “ensino médio”. Significa “condições normais de temperatura e pressão”, de acordo com o conceito do cientista italiano Amedeo Avogadro ainda no início do século 19.

Tudo isso para dizer, naquele texto, que, se tudo corresse normalmente, o ex-presidente Lula Inácio Lula da Silva (PT) teria tudo para vencer o pleito de outubro sobre a concorrência, notadamente contra o atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL).

Dois meses depois, no texto “Bolsonaro contra Bolsonaro – e Lula, ‘parado’, vai ganhando pontos” (edição 2447), a sensação era de que, após as diversas rodadas de pesquisas de intenção de voto, nada mudava: o petista mantinha a frente com tranquilidade nos diversos institutos, com variâncias aqui e ali entre as metodologias, mas oscilações dentro da margem de erro de um levantamento para o anterior.

Foi assim que a pesquisa Datafolha de maio foi interpretada, dois meses depois de sua edição anterior. Agora, o trabalho veio com a diferença de apenas um mês, mostrando o mesmo: nada de novo debaixo do sol, como diria o Eclesiastes, um dos livros mais filosóficos do Antigo Testamento – e, infelizmente, pouco citado nos púlpitos e altares.

O sentimento que toma conta da população, e mesmo dos atores políticos diretamente envolvidos, é de que apenas espera-se o encontro com as urnas chegar. Lógico, ninguém passa recibo de que a coisa parece imutável, mas em “off”, nos bastidores, tanto um lado como o outro, quem ocupa a frente e quem está desesperado para reverter a desvantagem, se mostram descrentes quanto a uma mudança no cenário.

Ainda no início do ano, o cientista político Alberto Carlos Almeida, conhecido por seus livros A Cabeça do Eleitor e A Cabeça do Brasileiro, já havia prognosticado: vai ser uma eleição monótona. Em seu canal no YouTube, onde tem quase 80 mil inscritos, ele havia publicado, como primeiro vídeo depois da virada do ano, um vídeo com o título “Eleição entediante”.

“Vamos ter muita emoção no noticiário e muito tédio do ponto de vista das pesquisas”, sentenciou. Ele relembrou, ainda nessa postagem de janeiro, que líder passou a liderar os levantamentos eleitorais praticamente desde que retomou sua elegibilidade após a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). “Vem sendo entediante há seis meses e minha previsão é de que continuará entediante até outubro.”

Para Alberto Carlos Almeida, Lula continuaria “firme na primeira posição e Bolsonaro, firme na segunda posição”. Chance para terceira via? Só na cabeça dos muito iludidos, deixava a entender o pesquisador, que já previa desistências de alguns coadjuvantes, citando Sergio Moro (então no Podemos, hoje no União Brasil) e Ciro Gomes (PDT). Apostava que João Doria (PSDB) talvez continuasse e se tornasse o nome alternativo. Ou seja, ainda que com alguns percalços aqui ou ali, o cientista político acertou boa parte das previsões.

A contagem regressiva para as eleições já começou: faltam menos de cem dias para o primeiro turno e hoje tanto Lula como Bolsonaro, os efetivos protagonistas da disputa, se já eram bastante conhecidos pelo eleitorado no início do ano, são ainda mais agora. “Conhecidos” em termos de “ouvir falar de” bem como sobre suas ações.

Como atuam em polos ideológicos opostos – Bolsonaro é efetivamente de extrema-direita e Lula é visto como centrista, de centro-esquerda, esquerda e até extrema-esquerda, dependendo de quem o observe –, ambos têm exatamente a polarização como aliada. A tendência, como apontou Almeida, era de que não houvesse – como ainda não houve nem deve haver – espaço para nenhum nome alternativo.

Sem nunca ter sabido governar – um “detalhe” que, inclusive, Alberto Almeida ressalta no início do mesmo vídeo –, Bolsonaro apelou há muito tempo para o ritmo de campanha: faz comícios por todo o Brasil a qualquer obra inaugurada, mesmo que, de autoria de seu governo, seja apenas 10% do total – como fez na entrega da transposição do Rio São Francisco. Também faz passeio com seus apoiadores de todos os tipos: com motos – eventos já há muito batizados de “motociatas”, com lanchas e até com jegues. É preciso expor que tem “o povo” a seu lado, enquanto seu lado provoca o rival petista, dizendo que o Nine (referência a “nove”, em inglês, para remeter aos nove dedos das mãos de Lula, em uma infeliz alcunha que impuseram ao ex-presidente no círculo bolsonarista) não tem coragem de sair às ruas.

Jair Bolsonaro participa de motociata com deputado Vitor Hugo na garupa | Foto: Alan Santos / PR

De fato, o PT e seus líderes têm priorizado outras formas de lidar com estes meses de pré-campanha: fecharam acordos formais ou apalavrados com vários partidos importantes; trouxeram o ex-governador de São Paulo, ex-tucano e também ex-desafeto, Geraldo Alckmin (PSB) para ser vice na chapa com Lula a ser referendada nas convenções; conversaram (e continuam conversando) com lideranças empresariais, do mercado financeiro e de movimentos sociais, com vistas a ampliar o leque de governabilidade num eventual e cada vez mais provável governo; e também não se esqueceram de fazer a lição de casa com os militares, já que a categoria é claramente um foco de grande apoio ao atual presidente, mas as Forças Armadas e as polícias precisam se manter no papel de instituições de Estado.

Bolsonaro não se preocupa tanto com alianças. Na verdade, nunca gostou de conversas em rodinhas com outros políticos, ao contrário de Lula. Era um “outsider” no sentido literal quando deputado, porque não buscava aproximação com os colegas e também porque eles não viam por que buscarem afinidades com aquele capitão da reserva. Sendo assim ainda hoje, o presidente tem a força do cargo para ter apoio forte pelos Estados e já fechou palanques em 23 unidades federativas; do outro lado, Lula tem apenas 15 Estados com pré-candidaturas com as quais já bateu o martelo, mas em lugares como Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Serão palanques fortes.

A questão é que, noves fora a movimentação que os políticos fazem sempre nessas épocas – até porque há as eleições para os governos estaduais e também a disputa pelo Legislativo –, nada tem mudado nas intenções dos eleitores. Bolsonaro se consolidou com cerca de 30% dos votos dos brasileiros e Lula com algo em torno de 45%. Para a turma restante, a soma não costuma passar de 12%. Com isso, abrem-se novas expectativas: haverá voto útil para acabar com a eleição no primeiro turno? Como reagirá Bolsonaro, que emite declarações de desconfiança no sistema eleitoral dia sim, outro também, diante da aproximação do primeiro domingo de outubro sem que reduza em nada a diferença que o separa do arquirrival? E Lula, como vai lidar com essa folga na dianteira, diante de debates eleitorais? Ir ou não ir, eis a questão.

O fato é que, faltando pouco mais de três meses para o dia fatal, Alberto Carlos Almeida parece estar mesmo certo: Lula pode ter uma vitória “entediante”. Mas é preciso combinar, ainda, com o italiano Avogadro e seu conceito da química.