Augusto Diniz
Augusto Diniz

Pagamento do salário de dezembro dos servidores encerra primeira crise do governo Caiado

É cedo para comemorar a resolução de um problema que durou quase oito meses, mas é o primeiro passo diante de tantas adversidades

Caiado superou o primeiro de muitos desafios, que serve de teste inicial para problemas que vão exigir muito mais de sua administração | Foto: Hegon Correa

“É com muita alegria e até um certo alívio que informo a sociedade goiana que na data de hoje [quarta-feira, 28] estamos quitando o salário de dezembro! Foi um processo difícil, visto que tivemos que assumir o calote dado pela gestão passada, numa situação de calamidade financeira. Mas conseguimos!” A primeira frase da declaração do governador Ronaldo Caiado (DEM) é compreensível.

Foram 250 dias de convívio com reclamações dos servidores, que entraram em um esquema de escalonamento do pagamento da folha de dezembro, e ameaças de greve. Uma delas até chegou a ser iniciada. Mas como houve baixa adesão dos professores e funcionários das escolas estaduais, em menos de 15 dias a paralisação foi encerrada.

Caiado soube lidar bem com as insatisfações da principal categoria que simbolizava uma pedra no sapato do governo em seus primeiros meses. Na liberação do pagamento de dezembro na primeira parcela, em março, o governador atingiu em cheio a força de mobilização ao quitar a folha dos servidores da educação com salários mais baixos.

A medida deu tempo para que o escalonamento fosse mais bem compreendido e digerido sem grande impacto ou atos dos funcionários de outras pastas. Enquanto isso, as folhas dos meses correntes eram quitadas dentro do prazo legal. Não de acordo com o que foi prometido na campanha, no mês trabalhado, mas sempre até o dia 10 da folha seguinte do calendário.

A alimentação da disputa eleitoral com ataques ao grupo político que governou Goiás por 20 anos antes de Caiado criou, em alguns momentos, uma cortina de fumaça para as dificuldades financeiras. Mas não chegou a ser tão eficaz para esconder a precariedade das contas do Estado. Tanto que diversos planos foram tentados para socorrer as finanças. Até agora sem qualquer indicativo de um caminho definitivo a ser seguido.

Quando pagou em março o salário atrasado de dezembro para 55% dos servidores estaduais que recebem até R$ 5,1 mil em determinadas categorias, como os celetistas, a educação e a segurança pública, o governo teve tempo para fortalecer acusações a adversários políticos. Uma delas veio na quarta-feira na conta do Twitter de Caiado, sem citar nomes, mas que tem como alvo os ex-governadores Marconi Perillo (PSDB) e José Eliton (PSDB). “Foi um processo difícil, visto que tivemos que assumir o calote dado pela gestão passada, numa situação de calamidade financeira.”

Cicatrizes
Como já deixou claro a secretária estadual da Economia, Cristiane Schmidt, coube ao governador decidir qual a melhor forma de resolver o problema do salário atrasado de dezembro que não foi pago pela gestão passada. Caiado poderia ter optado por atrasar a folha de janeiro e quitado o vencimento do último mês de 2018 do funcionalismo público estadual. Mas a escolha política foi por manter em dia as obrigações salariais do ano de 2019 e lidar com o que estava em aberto do ano passado em seis parcelas.

Poderia ter evitado o desgaste se tivesse usado os recursos para quitar a folha de janeiro e colocado na solução do que estava em atraso de dezembro com os servidores? Sim. Mas foi escolhida a opção política de alimentar a disputa eleitoral com os tucanos que deixaram o poder em Goiás de forma vexatória, acompanhados pelos desdobramentos da Operação Cash Delivery, que chegou a prender Marconi por menos de 24 horas.

Só que Caiado sabe bem que atacar os ex-governadores de terem devastado o Estado, assaltado os cofres do governo e alimentar a disputa eleitoral quase um ano depois de passada a disputa nas urnas não paga a dívida mensal de cerca de R$ 200 milhões da Previdência estadual. Nem mesmo inclui Goiás no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), no Plano Mansueto, dá direito a uso de parte dos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) ou ter acesso aos depósitos judiciais.

Os problemas que o democrata precisa encarar como chefe do Executivo são decisões de gestão muito mais complicadas do que fazer o escalonamento da folha de dezembro. O que se espera é que o alívio trazido por não ter mais o servidor no cangote a cobrar a quitação da última folha de 2018 dê mais liberdade ao governo para focar na recuperação financeira do Estado. Isso vai de fato ocorrer? Depende do gestor público, da melhora da economia goiana e brasileira, além de habilidade do administrador.

Incubadora
Foram oito meses de gestação da administração Caiado. O primeiro desafio foi superado. Mas trata-se de algo bem menor do que as questões que precisarão ser enfrentadas. O que os goianos esperam do governador é que o democrata tenha aprendido, mesmo que minimamente, a migrar de um implacável e feroz opositor nas esferas estadual e federal para um gestor que saiba a hora de ser conciliador, negociador. E o momento exato de defender o que é de direito e preciso para Goiás.

Que o palanque fique guardado até 2022, quando o resultado da gestão estadual poderá ser apresentado ao povo goiano. Ou a falta de ações importantes abrirá espaço para um novo gestor público.

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