Elder Dias
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O “rei” está nu: o governo de Thanos acima de todos

Ironia que Bolsonaro tenha seu próprio corpo como instrumento para reverter a impopularidade de um governo que se tornou moribundo sem ter existido de fato

A foto de Jair Bolsonaro (sem partido) exposto seminu no leito do hospital, prostrado como um homem fragilizado, não foi vazada por um enfermeiro antiético ou um curioso desrespeitador do corpo de outrem. O flagrante foi postado no próprio perfil oficial do presidente da República – provavelmente pelo filho Carlos Bolsonaro, que, como o próprio pai admitiu, tem as senhas das contas das redes sociais.

Justificam que é o jeito transparente de ser de Bolsonaro. Que é para deixar claro que ele é presidente, mas é também um homem comum. No entanto, a mesma “vontade de transparência” não houve, quando, no ano passado, até a Justiça teve de ser acionada para que o presidente apresentasse o resultado de seu teste para Covid-19, num caso que acabou virando uma novela desnecessária. Uma exposição dessa forma parece só coisa de gente sem noção. Só parece: o que flerta com a loucura, na verdade, é método.

O jornalista Reinaldo Azevedo, em seu programa O É da Coisa na rádio BandNews, apresentou uma comparação muito pertinente entre a foto divulgada no perfil de Jair Bolsonaro e uma pintura do século 15 – Lamentação Sobre o Cristo Morto, de Andrea Mantegna, hoje exposta na Pinacoteca de Brera, a mais importante de Milão. Pode ser apenas coincidência, mas a semelhança das duas composições é intrigante: o ângulo, a postura dos corpos, das mãos, a simbologia das pessoas que os contemplam.

“Lamentação Sobre o Cristo Morto”, pintura do século 15 e a foto de Bolsonaro no hospital: em meio às quase incontáveis mortes, de novo um “quase mártir” | Fotos: Reprodução

Apesar de em muitos aspectos – como no negacionismo científico – realmente parecer comandar um governo de séculos passados, Bolsonaro, mesmo em condições adversas, articula bem com as novas tecnologias, quando lhe interessam. O clique foi feito ainda no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, na quarta-feira, 14, antes de o presidente ser transferido, levado por um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), para o Vila Nova Star, hospital da rede D’Or concorrente do Albert Einstein e do Sírio-Libanês, em São Paulo.

O texto que acompanha a foto do presidente enfermo nas redes sociais deixa claro o objetivo: fazer política, e política eleitoral. Basta ver o começo: “Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil. Um atentado cruel não só contra mim, mas contra a nossa democracia.” Ora, o PSOL existe justamente como uma dissidência que não perdoou os erros do PT. Condenar esse partido por uma atitude isolada de um ex-membro do primeiro, perturbado mentalmente, é um malabarismo que só compra quem não tem dois neurônios ou alugou o cérebro.

O post de Bolsonaro/Carluxo segue com várias expressões religiosas entremeadas ao moralismo característico: “por Deus foi nos dada uma nova oportunidade”, “agradeço a todos pelo apoio e pelas orações”, “peço a cada um que está lendo essa mensagem que jamais desista das nossas cores, dos nossos valores”, “com honestidade, com honra e com Deus no coração é possível mudar a realidade do nosso Brasil”, “que Deus nos abençoe e continue ilumando (sic) a nossa nação”, “Brasil acima de tudo; Deus acima de todos!”.

O texto e a foto, portanto, se “casam”, para usar outra metáfora frequente do próprio hospitalizado. Na imagem, à esquerda de Bolsonaro, aparece uma vestimenta preta e um crucifixo pendente, provavelmente, do peito do arcebispo militar do Brasil, dom Fernando Guimarães. Fez ele na imagem o papel das senhoras que contemplam o Senhor morto, na pintura renascentista.

Relação abusiva com a morte
A morte – ou o flerte com ela – foi e é o combustível do grupo que está no poder. Foi como subcelebridade de programas de variedades na TV que, ao fazer pouco da vida de marginais, gays e adversários políticos, Jair Bolsonaro se tornou o “mito”. Foi também literalmente dando o sangue que ganhou votos com uma facada, na absurda tentativa de homicídio protagonizada por Adélio Bispo, o ex-psolista citado acima, em Juiz de Fora (MG). Usaram a filiação encerrada para acusar a esquerda de querer matar Bolsonaro para ganhar as eleições. O resultado eleitoral, no entanto, só foi positivo para a vítima: a situação de “quase mártir” comoveu o suficiente para garantir vitória nas urnas. Se já havia a insatisfação com o PT, digamos que a facada foi a cereja no bolo.

Outro momento que expôs o dueto do bolsonarismo com a morte foi o lançamento, em 2019, da Aliança Pelo Brasil, o partido sonhado e não concretizado pelos autodenominados conservadores cristãos. O número eleitoral escolhido foi o 38, o mais famoso calibre; e, na entrada do evento, uma escultura apresentava em 3D a logo do novo partido… com cartuchos, cápsulas e projéteis de diversas pistolas, revólveres e outras armas de fogo.

Mas, obviamente, nada evidenciou tanto a natureza mórbida da atual gestão quanto a pandemia de Covid-19. O encontro de Bolsonaro com o coronavírus formou uma parceria difícil de ser vencida – que o diga mais de meio milhão de famílias. E, pelo que está apurando a CPI da Pandemia, “parceria” não é modo sarcástico de falar, apenas: o governo federal teria apostado todas as fichas nas recomendações de um gabinete paralelo, o qual considerava que, por meio da contaminação de 70% da população, o País se livraria da doença alcançando a imunidade de rebanho. Ou seja, como o próprio presidente disse e repetiu, a melhor vacina seria o vírus. Não deu certo, e a circulação livre do corona, mais o atraso na compra de imunizantes, causaram uma escalada exponencial das mortes e o descontrole da doença com surgimento de novas e mais perigosas cepas.

Motociatas de apoio a Bolsonaro: o espetáculo das motos passando sobre a tragédia dos mortos | Foto: Arte sobre pintura de Edvard Mûnch

Por fim, ainda que vivenciemos cenas dantescas em hospitais e cemitérios desde março de 2020, nos últimos meses o Brasil simultaneamente presencia desfiles de motos de alta cilindradas, às centenas ou aos milhares, comandadas pelo “motoqueiro” Bolsonaro. Na horda predomina a cor preta, que se mistura ao verde e amarelo levado como adereços patrióticos, numa semiótica perfeita: com o Brasil de luto, tem quem acelere sobre cadáveres. Agora, o presidente que, em meio ao morticínio, disse “e daí? Não sou coveiro!”, “morrer é o destino de todos nós”, “é preciso largar de ser maricas e encarar o vírus”, entre outras pérolas, recorreu ao melhor dos hospitais do País para se tratar de uma obstrução intestinal. Ironia que, novamente, Bolsonaro tenha seu próprio corpo como instrumento, agora para tentar reverter a impopularidade de um governo que se tornou moribundo sem ter existido de fato. O Thanos das HQs e telas de cinema ganhou um correspondente

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