Afonso Lopes
Afonso Lopes

O que esperar de 2017

Otimismo gerado com a troca do comando do país acabou diante da dura realidade recessiva. Previsões otimistas só para o 2º semestre

Se houve um dado bastante positivo na vida econômica do Brasil neste 2016 depois da explosão, em 2015, da bolha criada pela nova matriz fiscal inventada no governo Lula e incrementada ao extremo no governo Dilma é a ligeira, mas persistente queda no ritmo da inflação. Saiu de 10% para 7% e se mantém com viés de baixa para o próximo ano. Mas até essa boa notícia não é tão boa assim. A inflação perdeu força muito mais por causa da devastadora recessão e não por uma melhoria na gestão econômica. A queda no dólar, também em razão da esperança criada após a saída de Dilma Roussef e não por acerto das novas autoridades da economia, igualmente ajudou a domar o leão inflacionário.

O governo perdeu o time correto para fazer o que ainda é necessário fazer. No primeiro momento, ao adotar o que se convencionou chamar de realismo econômico, Hen­ri­que Meirelles e sua equipe de notáveis impressionou muito bem. De­veria ali, naquele momento, aproveitar-se da situação para quebrar a hegemonia das incertezas criadas pela maluquice fiscal dos governos anteriores. Ficou no lero-lero, e isso não basta para manter otimismo em um sempre desconfiadíssimo mercado.

O melhor exemplo é a manutenção da taxa referencial de juros, a Selic, como a mais notável remuneração financeira do planeta. O recuo de 0,25% em duas parcelinhas mensais é insignificante diante de uma inflação cada vez menor. O resultado disso foi a nova queda do PIB no terceiro trimestre deste ano. Não se aguarda nada melhor para o fechamento do ano.

O conjunto da obra tosca que tem se visto no comando da economia derrubou as previsões para 2017. Inicialmente, economistas imaginavam que a economia cresceria pelo menos 1%. Depois, com a possibilidade de aprovação da PEC que limita a expansão irresponsável dos gastos públicos, esse porcentual de esperança foi a 1,5%, e até com al­guns rompantes extremamente otimista indicando para 1,8%. Mas e agora, como está? De mal a pior. Os principais players do mercado rebaixaram tanto a previsão para 2017 que se fechar no zero a zero vai ser considerado e comemorado como goleada.

O que isso significa do ponto de vista prático, do dia a dia da po­pu­lação? Incertezas aos montes. O de­semprego já atingiu 12 milhões de brasileiros, e esse contingente po­de chegar a 14 milhões até o fi­nal do primeiro semestre do ano que vem. Se somar todos os que so­brevivem no país sem trabalho remunerado estável, então se percebe a dimensão do abismo em que o país foi atirado: são quase 25 milhões de brasileiros aptos, mas sem função.

É claro que o realismo econômico adotado e seguido como dogma inflexível pela equipe econômica do governo de Michel Temer poderia ter sido auxiliado pela política. Mas não foi isso o que aconteceu. Se o governo Dilma Roussef perdeu completamente a governabilidade através do esfacelamento de sua base, que saiu vitoriosa das urnas de 2014, jamais um presidente conseguiu maioria tão expressiva quanto a obtida por Temer. O problema é que ele não tem como usar essa maioria com tranquilidade. A base é muito ruim do ponto de vista moral, e isso provoca incêndios diários que afetam diretamente a credibilidade do governo.

Ou seja, se a crise econômica nas­ceu na quebra da normalidade fis­cal por volta de 2009 — como resposta do país à crise mundial — e le­vou à crise política no governo Dil­ma 2, agora a ordem se inverteu, com a política deteriorada con­taminando negativamente a eco­nomia. Temer virou parachoque de ministros problemáticos, e por mais que ele tente não consegue escapar dessa cilada. Até porque ele é parte integrante dessa base que está com ele. Pra sair dessa sinuca de bico ele teria que abandonar ou pelo menos relegar essa turma dele para o canto, e buscar notáveis que possam ajudar politicamente sem gerar mais problemas do que soluções. Da forma como está, vai ser assim ou cada vez pior.

Esse cenário não favorece Estados e Municípios, evidentemente. Quem ainda não fez o dever de casa, vai ter que fazer na marra. E rápido. Quem já fez, vai ter que aperfeiçoar ainda mais as soluções. A esmagadora maioria dos Estados está no primeiro grupo, daqueles que hoje não sabem como vão quitar as folhas regulares e o 13º salário deste ano. A rigor, apenas três unidades da Federação estão equilibrados diante do caos. Goiás é destaque nessa relação, mas ainda assim o governador Marconi Perillo quer rever onde ainda pode cortar sem comprometer a administração como um todo.

Já para os prefeitos, eleitos ou reeleitos, não há escapatória. Além das cidades serem os primos mais pobres da Federação, as administrações municipais estão quase todas elas tecnicamente pré-falimentares. Goiânia está entre essas. O prefeito Iris Rezende já foi avisado pela sua equipe de transição que ele vai encontrar o cofre vazio e, o que é pior, com uma conta vencida de 350 milhões de reais. Essa dívida flutuante vencida é o que geralmente inviabiliza o funcionamento, mesmo precário, de qualquer administração pública, e mais ainda nas cidades.

Iris tem se fechado em conversações reservadas sobre composição e forma de governo. A única coisa que se sabe até aqui é que ele supostamente conseguiu formar uma segura maioria na Câmara de Vereadores. Resta saber como isso aconteceu, se da forma mais patriótica possível, de união em torno da salvação da cidade, ou se pelos caminhos sempre bas­tante complicados e dispendiosos do varejinho político que inclui muitas vezes escambos nada republicanos.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.