Afonso Lopes
Afonso Lopes

O que define eleição é o voto

Pesquisas mostram tendências de momento, mas são os candidatos e as militâncias que fecham o resultado

Em 2006, Maguito Vilela (no alto) era o favorito, mas Alcides Rodrigues (acima) virou o jogo e se reelegeu. Foto: Wesley Costa | Ana Paula Abrão

Em 2006, Maguito Vilela (no alto) era o favorito, mas Alcides Rodrigues (acima) virou o jogo e se reelegeu. Foto: Wesley Costa | Ana Paula Abrão

É unanimidade entre os conhecedores do planeta político: cada eleição é uma eleição. Ou seja, não existe eleição totalmente idêntica a qualquer outra. Isso não significa que não existam algumas “mesmices” nos processos eleitorais. O melhor exemplo são as pesquisas.

Quem aparece na frente sempre tem agradecimentos antecipados a fazer. Já quem surge atrás tende a limar legal institutos, números e até quem ouse abordado assunto na imprensa. Sem falar na clássica e pouquíssimo criativa frase sem efeito algum de que “os números internos são bem diferentes”. São diferentes coisa nenhuma. As pesquisas podem até apresentar algumas variações, mas geralmente, quando realizadas por institutos capacitados, se revelam dentro da chamada “margem de erro”.

O problema das pesquisas e sua relação direta com o processo eleitoral como um todo diz muito mais respeito à campanha do que necessariamente com o futuro ou com resultado desse trabalho. Em outras palavras, e para ficar num lugar comum, pesquisas são sempre um retrato daquele momento, e não uma projeção sobre acontecimentos futuros. Então, olhando por aí, não há nenhum problema em ficar atrás nas tais pesquisas, desde que se tenha plena convicção do trabalho que está se desenvolvendo para cativar eleitores. Mas é claro que dói aparecer em segundo ou terceiro lugar e prometer metas de um governo que surge somente como metáfora sem que nem por que. Como o eleitor pode acreditar na proposta de um candidato que está lá atrás, com pouquíssima intenção de voto, quando ele fala sobre um governo que só existe na tal intenção dele? Não dá.

A solução para esse problema, que afeta a credibilidade, é alterar o discurso, e potencializar as metas que o tal candidato defende como ideais. Se convencido da proposta, o eleitor poderá ver nesse candidato o melhor nome para atingir esse objetivo, e assim, sim, mudar a sua intenção de voto, até então claramente direcionada a outro nome. Só que trabalhar um discurso sem pé no tal “governo” inexistente é coisa complicada. Demanda inteligência à serviço da emoção, do sonho, Ou seja, é preciso convencer o eleitorado de que a proposta é a melhor e mais exequível, ainda que não exista nesse candidato a personificação do governo que irá executá-la.

Dá trabalho e muitas vezes não produz resultado, mas é a única forma inteligente de se fazer uma campanha quando se está com dificuldade, o que vier é lucro. Eventualmente, esse lucro pode ser inclusive a vitória. Um exemplo clássico em Goiás de conteúdo de campanha é recente. Em 2006, o senador Maguito Vilela, que não é um bocó eleitoral, ao contrário, é um dos maiores vitoriosos da história política estadual, tinha tudo para vencer a eleição em determinado momento. Aos poucos, suas chances foram caindo sistematicamente enquanto crescia a mensagem de Alcides Rodrigues, de continuidade administrativa. Basica-mente, o principal fator da virada espetacular naquela eleição foi essa mensagem, esse sonho de que nada iria mudar. Ao mesmo tempo, e colocados na rabeira das pesquisas eleitorais, os dois outros candidatos “vendiam” seus futuros governos metafóricos. O resultado foi a vitória de Alcides, a segunda colocação de Maguito e a confirmação do naufrágio das candidaturas de Barbo­sa Neto e Demóstenes Torres.

Então, naquela eleição, “os números internos diferentes” se mostraram exatamente iguais aos das pesquisas “externas”. E é assim sempre. Faz parte dessas “mesmices” dos processos eleitorais. E ainda assim o que se percebe é que a esmagadora maioria dos candidatos não consegue entender que há uma abissal diferença entre apresentar uma proposta de governo, para qualquer que seja o governante, e uma proposta/promessa de seu próprio e pouco provável, naquele momento, governo futuro. É fácil entender que determinada proposição de algum candidato é muito boa, e até comprar a ideia, mas é praticamente impossível acreditar que nessa tal proposta boa quando ela está embalada pelo “no meu governo” improvável. Associa-se diretamente uma verdade/sonho/proposta com uma aparentemente deslavada mentira, o tal “futuro governo”.

É assim que as pesquisas deveriam ser lidas pelas campanhas ao longo do processo eleitoral. É absolutamente improdutivo apresentar uma proposta bem embasada associada à sensação de promessa vazia e mentirosa de um “futuro governo”. Ou seja, no entendimento do eleitor, a boa proposta é tão “mentirosa” quanto o tal governo inexistente e de pouquíssimas chances. Ocorre uma contaminação negativa no conjunto porque se apresenta uma coisa ligada à outra, a proposta real com o governo irreal.

Então a pesquisa que mostra um candidato em má situação equivale a uma condenação permanente e antecipada de derrota? Longe disso. Muito longe disso. A pesquisa é sempre um importante conjunto de informações, um feedback a ser devidamente utilizado, e jamais uma bola de cristal. Quando bem trabalhadas, essas informações servem somente como termômetros orientadores de rumos para a obtenção dos resultados esperados: convencer o eleitor de que determinada candidatura é a mais adequada aos anseios dele, e que não está atrelada a coisas ou fatores improváveis. Sem mentiras aparentes, como o tal “governo” ou “números internos diferentes”. Dessa forma, a pesquisa será sempre apenas um treino. A decisão, aí, sim, se dá no jogo, na eleição.

Se quem está atrás precisa ter esse tipo de cuidado com a linguagem para não matar a credibilidade de sua boa ideia, os que estão à frente precisam ficar mais atentos ainda. Quem lidera não pode afrouxar o passo da militância porque o jogo ainda não está totalmente jogado, e qualquer vacilo pode incendiar de vez os ânimos da militância adversária. A liderança nas pesquisas deve ser transmitida internamente como se fosse um jogo com o sempre sinistro placar de 2 a zero. Se ficar de bobeira e tomar um gol, sempre será muito difícil evitar o empate e talvez a virada. E para quem precisa virar esse jogo, a pior solução é apelar para a botinada, bicuda e chutão. É mais fácil e rotineiro levar o terceiro gol desse jeito do que marcar o primeiro. Esse é o jogo.

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